Pesquisa da USP mostra por que alguns brasileiros vivem mais de 100 anos com saúde e resistência a doenças.
O que faz algumas pessoas conseguirem viver 100 anos ou até ultrapassar os 110 mantendo a saúde? Quem busca essa resposta são cientistas brasileiros, que divulgaram nesta terça-feira (06/01/2026) uma pesquisa inédita conduzida na Universidade de São Paulo (USP).
O estudo analisou supercentenários brasileiros — pessoas com mais de 110 anos — para entender como eles evitam doenças comuns do envelhecimento, como câncer e demência.
A investigação foi realizada a partir de análises genéticas, celulares e imunológicas, com dados coletados no Brasil, e aponta caminhos promissores para compreender a longevidade humana em idades extremas.
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Publicado na revista científica Genomy Psychiatry, o trabalho revela que esses indivíduos possuem mecanismos biológicos únicos que funcionam como uma espécie de “proteção natural” contra o desgaste do tempo.
Pesquisa da USP mostra que genética brasileira favorece a longevidade
Um dos achados centrais da pesquisa é o papel da diversidade genética brasileira. Segundo os cientistas, a miscigenação entre povos indígenas, europeus, africanos e asiáticos criou um cenário genético raro no mundo, favorecendo a identificação de variantes protetoras associadas à longevidade.
Estudos genômicos identificaram mais de 8 milhões de variantes genéticas exclusivas da população brasileira, inexistentes em grandes bancos de dados internacionais.
Esse fator ajuda a explicar por que o Brasil abriga alguns dos homens mais velhos do planeta e uma proporção elevada de mulheres supercentenárias.
Além disso, parentes próximos de centenários apresentam maior probabilidade de também alcançar idades avançadas, reforçando o peso da herança genética no processo de viver 100 anos ou mais.
Os três pilares biológicos que ajudam a viver 100 anos
Ao aprofundar as análises celulares, os cientistas brasileiros identificaram três mecanismos principais que sustentam a saúde dos supercentenários ao longo das décadas.
1. Sistema imunológico adaptado ao envelhecimento
Enquanto o sistema imunológico costuma enfraquecer com a idade, nos supercentenários ocorre uma adaptação funcional.
Eles apresentam maior presença de células T CD4+ citotóxicas, responsáveis por combater infecções e eliminar células defeituosas, mesmo após os 100 anos.
Esse equilíbrio ajuda a reduzir inflamações crônicas e protege contra doenças típicas da velhice.
2. Limpeza celular eficiente mantém o organismo funcional
Outro fator decisivo é a chamada limpeza celular, processo científico conhecido como autofagia. Trata-se de um mecanismo interno que elimina proteínas e estruturas danificadas dentro das células.
Nos supercentenários, essa limpeza permanece ativa em níveis semelhantes aos de adultos jovens.
Isso impede o acúmulo de resíduos celulares que aceleram o envelhecimento e favorecem doenças degenerativas, contribuindo diretamente para a longevidade.
3. DNA mais estável reduz risco de doenças graves
A pesquisa da USP também identificou variantes raras em genes ligados ao reparo do DNA. Na prática, isso significa que as células dessas pessoas conseguem se corrigir com mais eficiência ao longo da vida.
Esse processo reduz mutações perigosas, preserva a organização genética e diminui o risco de câncer e falhas celulares associadas ao envelhecimento extremo.
Supercentenários brasileiros surpreenderam até na pandemia
A robustez biológica desses indivíduos ficou evidente durante a pandemia de covid-19.
Mesmo antes da vacinação, pesquisadores acompanharam supercentenários brasileiros que contraíram o vírus e se recuperaram.
Eles apresentaram níveis elevados de anticorpos e proteínas de defesa natural, demonstrando uma resposta imunológica superior à média da população, o que reforça os achados sobre adaptação imunológica e longevidade.
Pesquisa abre caminhos para envelhecer melhor no futuro
Segundo os cientistas brasileiros, entender como esses mecanismos funcionam pode ajudar a desenvolver estratégias para melhorar a qualidade de vida da população em geral.
Embora não exista uma fórmula mágica para viver 100 anos, os resultados indicam que genética, diversidade biológica e funcionamento celular equilibrado são peças-chave.
Assim, a pesquisa liderada pela USP não busca apenas explicar vidas excepcionais, mas também oferecer pistas para um envelhecimento mais saudável, ativo e com menos doenças nas próximas gerações.

O fator genético é o principal elo da longevidade. Exemplo na minha familia: da família do meu pai, o mais novo é ele com 86 anos, depois um irmão 88, sua irmã 89 e seu irmão mais velho com 90. Todos estão bem de saúde e acho que alguns vão chegar a 100 anos. O meu pai bebeu muito e adquiriu epilepsia alcoólica, está com 86, mas não tem doenças degenerativas e acho que chega aos 90 anos. Mas os outros três chegam aos 100 anos.