1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Jovem brasileiro criou filtro contra microplásticos, ganhou bolsa para estudar na China e levou invenção para melhorar a qualidade da água no Sul do país
Faça um comentário 7 min de leitura

Jovem brasileiro criou filtro contra microplásticos, ganhou bolsa para estudar na China e levou invenção para melhorar a qualidade da água no Sul do país

Foto de perfil do autor Noel Budeguer
Escrito por Noel Budeguer Publicado em 23/06/2026 às 11:12 Atualizado em 23/06/2026 às 11:15
Jovem brasileiro criou filtro contra microplásticos, ganhou bolsa para estudar na China e levou invenção para melhorar a qualidade da água no Sul do país
A trajetória de Gabriel Fernandes Mello Ferreira mostra como uma pesquisa escolar em Itajaí virou uma solução ambiental contra partículas invisíveis na água, ganhou repercussão internacional e aproximou ciência jovem, saneamento básico e inovação brasileira.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

A trajetória de Gabriel Fernandes Mello Ferreira mostra como uma pesquisa escolar em Itajaí virou uma solução ambiental contra partículas invisíveis na água, ganhou repercussão internacional e aproximou ciência jovem, saneamento básico e inovação brasileira.

Um estudante brasileiro de Itajaí, em Santa Catarina, transformou uma preocupação cada vez mais presente na ciência em um projeto de impacto: um filtro capaz de reter microplásticos em estações de tratamento de água. O nome por trás da ideia é Gabriel Fernandes Mello Ferreira, que começou a pesquisa ainda no Colégio São José e ganhou projeção nacional e internacional.

O dado que chama atenção está no próprio tamanho da solução. Segundo o material técnico apresentado no Stockholm Junior Water Prize, o protótipo foi feito com materiais simples, como tubos de PVC, recipiente plástico, malha de nylon de 300 µm e bombas de aquário, com custo aproximado de R$ 450.

Mais tarde, o jovem também apareceu como bolsista ligado ao programa Líderes Estudar, da Fundação Estudar, e estudante da New York University Shanghai, na China. Uma trajetória que começou em uma feira científica e entrou em um debate muito maior: como melhorar a qualidade da água diante da contaminação por resíduos plásticos.

A ideia nasceu em Itajaí e mirou um problema que passa despercebido

Gabriel Fernandes Mello Ferreira, estudante de Itajaí, em Santa Catarina, criou ainda no ensino médio um filtro para reter microplásticos em estações de tratamento de água, projeto que venceu votação internacional com mais de 26 mil votos e abriu caminho para sua trajetória acadêmica na China.
Gabriel Fernandes Mello Ferreira, estudante de Itajaí, em Santa Catarina, criou ainda no ensino médio um filtro para reter microplásticos em estações de tratamento de água, projeto que venceu votação internacional com mais de 26 mil votos e abriu caminho para sua trajetória acadêmica na China.

O projeto de Gabriel recebeu o nome de “Desenvolvimento de um mecanismo de retenção de microplásticos em Estações de Tratamento de Água”. De acordo com o Colégio São José, a pesquisa foi desenvolvida com orientação da professora Fernanda Poleza e tinha como foco um ponto sensível do saneamento: a ausência de uma etapa específica para capturar microplásticos em muitas estações convencionais.

A proposta não era criar um filtro doméstico. O objetivo era pensar em uma estrutura adaptável às ETAs, as Estações de Tratamento de Água, onde grandes volumes passam por processos de remoção de impurezas antes de chegar à população.

No estudo técnico do projeto, Gabriel partiu de uma característica comum dessas partículas: muitas delas tendem a permanecer na superfície da água por terem menor densidade. A partir disso, o mecanismo foi desenhado para capturar essa camada superficial e conduzi-la a uma estrutura com malha de nylon.

Tubos, malha e bombas viraram uma solução de baixo custo

O funcionamento apresentado por Gabriel é direto. Um tipo de skimmer capta a água superficial, leva o fluxo por tubos e direciona o líquido para um cilindro plástico com fundo de malha. A água passa, enquanto as partículas ficam retidas.

Segundo o relatório do Stockholm Junior Water Prize, a versão de teste custou cerca de R$ 450. A estimativa para uma versão em escala real ficava em torno de R$ 500, valor que ajuda a explicar por que o projeto chamou atenção.

O ponto estudado para instalação foi uma canaleta entre o decantador e o filtro na Estação de Tratamento São Roque, em Itajaí. A localização foi escolhida porque ficaria depois da remoção de partículas maiores, reduzindo o risco de obstrução, e permitiria filtrar a superfície da água sem exigir grandes alterações na estrutura da ETA.

Testes mostraram alta retenção, mas há diferença entre os números divulgados

Representação do protótipo do filtro (A). Detalhe da corneta retangular com os suportes angulares adaptados (B). Cilindro com malha de nylon de 300 µm no fundo (C). Estrutura retangular com extremidades afuniladas, feita a partir de uma corneta automotiva (D).
Representação do protótipo do filtro (A). Detalhe da corneta retangular com os suportes angulares adaptados (B). Cilindro com malha de nylon de 300 µm no fundo (C). Estrutura retangular com extremidades afuniladas, feita a partir de uma corneta automotiva (D).

Durante a pandemia, Gabriel não conseguiu fazer a primeira etapa diretamente na estação. Por isso, simulou as condições em escala reduzida, usando um aquário e bombas com diferentes vazões.

O material técnico aponta que o aumento do fluxo de água melhorou a retenção e que quase todas as micropartículas iguais ou maiores que 300 µm ficaram presas na malha. Já o Colégio São José citou eficiência de 80% em publicação sobre o projeto.

Reportagens posteriores chegaram a mencionar desempenho de até 100%, mas o caminho editorial mais seguro é dizer que o filtro mostrou alta eficiência em simulações. O próprio contraste entre os números mostra como a invenção saiu do ambiente escolar para uma discussão técnica mais ampla.

De feira científica a prêmio internacional

Antes de ganhar projeção fora do Brasil, Gabriel já havia sido premiado na FEBRACE 2021, a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia. A instituição informou que aquela edição reuniu 345 projetos finalistas, 716 estudantes, 482 professores orientadores e 295 escolas de todos os estados e do Distrito Federal.

O projeto conquistou 3º lugar em Engenharia e destaque para Santa Catarina. O Colégio São José também informou que a pesquisa ficou entre as finalistas para representar o Brasil no Prêmio Jovem da Água de Estocolmo.

Em 2021, Gabriel representou o país no Stockholm Junior Water Prize, competição internacional voltada a jovens de 15 a 20 anos com projetos ligados aos desafios da água. A vencedora principal daquele ano foi Eshani Jha, dos Estados Unidos, mas Gabriel levou o People’s Choice Award.

Segundo a Stockholm Water Foundation, mais de 55 mil pessoas participaram da votação popular. Fontes brasileiras indicam que o projeto de Gabriel recebeu mais de 26 mil votos, garantindo a vitória nessa categoria.

Microplásticos são partículas minúsculas, muitas vezes quase invisíveis a olho nu, que podem chegar à água por resíduos plásticos fragmentados. Segundo o PNUMA, entre 19 e 23 milhões de toneladas de lixo plástico entram todos os anos em ecossistemas aquáticos, pressionando rios, lagos e mares.
Microplásticos são partículas minúsculas, muitas vezes quase invisíveis a olho nu, que podem chegar à água por resíduos plásticos fragmentados. Segundo o PNUMA, entre 19 e 23 milhões de toneladas de lixo plástico entram todos os anos em ecossistemas aquáticos, pressionando rios, lagos e mares.

Invenção foi ligada ao abastecimento de Itajaí e Navegantes

O impacto regional também entrou na história. Reportagens brasileiras, incluindo Só Notícia Boa e Portal 49, apontaram que o sistema foi adotado ou anunciado para uma estação responsável por cerca de 70% do abastecimento de Itajaí e Navegantes, em Santa Catarina.

Esse ponto exige cautela. A pesquisa enviada não trouxe uma confirmação recente e oficial do Semasa sobre o funcionamento atual do filtro em 2025 ou 2026. Por isso, a forma mais precisa é afirmar que a tecnologia foi anunciada em reportagens como aplicada ou ligada à ETA da região.

A ligação com empresas do setor também apareceu em publicação da Águas de São Francisco do Sul, associada à Aegea SC. A nota afirma que Gabriel e a professora Fernanda Poleza fizeram visita técnica a empresas do grupo, em um momento em que o projeto passava por processo de patenteamento e havia intenção de produção em escala industrial.

Da água de Santa Catarina para a universidade na China

O capítulo mais recente da trajetória amplia a história. A Fundação Estudar lista Gabriel Fernandes Mello Ferreira entre os Fellows Estudar de 2024, ligado à New York University Shanghai. O perfil do Millennium Fellowship 2025 o apresenta como estudante de Computer Systems Engineering na universidade e pesquisador brasileiro.

A página também afirma que ele desenvolveu, aos 16 anos, o primeiro filtro de microplásticos para plantas de tratamento de água. Hoje, seu novo projeto citado no Millennium Fellowship se chama “Unequal Heat: Temperature in Rio’s Favelas” e trata de ilhas de calor urbanas, desigualdade socioambiental e soluções como telhados verdes e telhados frios.

A Stockholm Water Foundation publicou ainda que Gabriel continuou dando palestras sobre microplásticos, falou com mais de 600 estudantes e trabalhou com a Xylem no desenvolvimento do protótipo criado para a competição.

O caso vai além de uma invenção escolar

O tema cresce porque os microplásticos já são uma preocupação global. A Organização Mundial da Saúde tem relatório específico sobre microplásticos na água potável, avaliando presença no ciclo da água, processos de tratamento e possíveis impactos à saúde.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que entre 19 e 23 milhões de toneladas de resíduos plásticos chegam todos os anos a ecossistemas aquáticos, contaminando lagos, rios e mares.

Nesse cenário, o caso de Gabriel não é apenas a história de um estudante premiado. É o retrato de como uma ideia criada em escola, com materiais simples e custo baixo, pode tocar um problema ambiental invisível, aproximar ciência jovem de saneamento básico e mostrar que inovação também pode nascer longe dos grandes laboratórios.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x