Queda no preço do trigo reduz estímulo à safra no agro; Conab e Cepea apontam importações fortes e pressão contínua no mercado.
A queda do preço do trigo no Brasil está reduzindo o estímulo ao plantio, mantendo a safra pouco atrativa para o agro e ampliando a dependência de importações.
O cenário foi apontado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com dados referentes ao comportamento do mercado em 2025 e às projeções para 2026.
A combinação de preços internos em queda, maior oferta externa e estoques elevados explica por que não se espera uma recuperação consistente no curto prazo.
-
O açúcar pode ficar mais caro? Índia reduz exportações, transforma cana em etanol e enfrenta risco de El Niño, combinação que pode mexer com estoques, preços globais e até obrigar o país a importar o produto
-
Praga quarentenária que ataca palmeiras coloca autoridades em alerta, leva Mapa a iniciar monitoramento em área da Universidade de Taubaté e pode resultar na instalação de novas armadilhas e em medidas de controle por diferentes regiões de São Paulo
-
O café que chega quente à sua mesa esconde um alerta global: relatório identifica 159 pesticidas autorizados, resíduos em grãos vendidos na Europa e riscos graves para milhões de trabalhadores rurais
-
Produto com menor procura no Brasil ganha força no exterior: Indonésia compra US$ 19,5 milhões em miúdos bovinos e ajuda o setor a ampliar receitas, reduzir desperdícios e aproveitar melhor cada animal
Segundo o Cepea, as cotações do trigo recuaram de forma expressiva ao longo de 2025, afetando diretamente a rentabilidade do produtor.
No Paraná, referência nacional do cereal, o trigo pão ou melhorador acumulou queda de 16%, com preço médio de R$ 1.183,75 por tonelada em dezembro.
Já no Rio Grande do Sul, o trigo brando teve retração ainda maior, de 18%, encerrando o ano a R$ 1.036,09 por tonelada.
Preço do trigo pressiona decisões de plantio no agro
Diante desse movimento, o preço do trigo passa a pesar nas decisões do produtor rural. Pesquisadores do Cepea indicam que, com margens comprimidas, não há expectativa de avanço relevante na área cultivada no primeiro semestre de 2026.
Assim, a safra tende a permanecer estável ou até encolher em algumas regiões, mantendo o Brasil dependente do trigo importado para abastecer o mercado interno.
Além disso, mesmo com a possibilidade de exportações pontuais, o volume embarcado não deve ser suficiente para sustentar uma recuperação de preços.
Ainda assim, as vendas externas ajudam a reduzir parte da pressão de baixa no mercado doméstico, funcionando como um mecanismo de escoamento do excedente.
Importações seguem elevadas, aponta a Conab
Os dados da Conab reforçam esse cenário. De acordo com a estatal, as importações brasileiras de trigo no intervalo entre agosto de 2025 e julho de 2026 devem alcançar 6,7 milhões de toneladas.
O número indica que, entre dezembro de 2025 e julho de 2026, o ritmo de compras externas será mais intenso do que o observado nos primeiros meses do ano-safra.
Com isso, a disponibilidade interna total de trigo no período deve ultrapassar 16 milhões de toneladas, volume 5,3% superior ao registrado na temporada anterior.
Esse aumento reflete não apenas as importações, mas também a manutenção de estoques elevados, fator que limita reações mais fortes do preço do trigo no mercado interno.
Consumo, exportações e estoques em níveis elevados
Do total projetado pela Conab, cerca de 11,8 milhões de toneladas devem ser direcionadas ao consumo doméstico.
Já as exportações são estimadas em 2,24 milhões de toneladas entre agosto de 2025 e julho de 2026, mantendo um papel relevante na dinâmica do mercado.
Mesmo assim, os estoques finais ao término de julho de 2026 devem atingir aproximadamente 2 milhões de toneladas. Esse volume corresponde a 8,7 semanas de consumo, a maior relação desde 2020.
Na prática, isso significa um colchão de oferta confortável, que reduz a urgência por novas compras e mantém o preço do trigo sob pressão.
Safra argentina amplia concorrência no mercado
Outro fator decisivo é o cenário internacional. As importações seguem competitivas porque o trigo estrangeiro, especialmente o argentino, continua chegando ao Brasil com preços atrativos.
Segundo dados da Bolsa de Cereales de Buenos Aires, a produção de trigo da Argentina na safra 2025/26 foi estimada em 27,8 milhões de toneladas, um novo recorde histórico.
Essa oferta abundante reforça a concorrência com o produto nacional e amplia a pressão sobre o agro brasileiro, sobretudo nas regiões produtoras do Sul.
Enquanto isso, o trigo importado segue ocupando espaço na indústria moageira, limitando a capacidade de reação dos preços domésticos.
Perspectivas para 2026 seguem cautelosas
Nesse contexto, os pesquisadores do Cepea avaliam que não há sinais claros de recuperação consistente do preço do trigo no início de 2026.
As importações devem continuar exercendo influência direta sobre o mercado ao longo do ano, mantendo o cereal nacional em desvantagem competitiva frente ao produto externo.
Portanto, enquanto o cenário de oferta elevada persistir, o agro brasileiro tende a adotar cautela na expansão da safra, aguardando sinais mais claros de melhora na rentabilidade.
Até lá, o mercado de trigo deve seguir marcado por preços pressionados, forte presença das importações e estoques confortáveis no país.
