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Cidade do Ártico que perde até 2 metros de terra por ano entra em contagem regressiva contra o degelo do permafrost: Tuktoyaktuk tenta segurar casas, estradas e a própria barreira natural que pode ser rompida até 2050 com uma obra de contenção de US$ 53,7 milhões contra o avanço do mar

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 02/05/2026 às 16:01
Atualizado em 02/05/2026 às 16:06
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Governo do Canadá investe C$53,7 milhões para proteger Tuktoyaktuk, aldeia Inuvialuit no Ártico
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Governo do Canadá investe C$53,7 milhões para proteger Tuktoyaktuk, aldeia Inuvialuit no Ártico, onde o permafrost derrete, a costa recua até 3 metros por ano e tempestades já podem arrancar 5 metros de terra em um único evento.

Segundo o Governo do Canadá, em 27 de julho de 2023, o governo federal canadense anunciou investimento de C$53,7 milhões para mitigar os impactos das mudanças climáticas na linha costeira de Tuktoyaktuk, uma aldeia Inuvialuit de pouco mais de mil pessoas localizada às margens do Mar de Beaufort, nos Territórios do Noroeste, cerca de 200 quilômetros acima do Círculo Polar Ártico.

O dinheiro vai financiar pedras de armadura, geotêxteis e esferovite industrial enterrada sob a linha da costa para isolar o permafrost do calor das ondas e do ar mais quente. A obra é complexa, cara e, segundo o próprio projeto, oferece proteção apenas até 2052.

É isso que a engenharia climática consegue oferecer hoje a uma comunidade que perde entre 0,3 e 3 metros de costa por ano, e até 5 metros em uma única tempestade intensa, enquanto o solo congelado que sustentou suas casas por gerações derrete de baixo para cima.

Tuktoyaktuk é uma comunidade Inuvialuit construída sobre permafrost na margem do Mar de Beaufort

Tuktoyaktuk não é uma cidade construída por acaso. É uma comunidade Inuvialuit com raízes de milênios naquele trecho da costa ártica canadense, em uma península de areia e permafrost projetada sobre o Mar de Beaufort.

A localização foi escolhida pela pesca, pela caça ao peixe-baleia e ao caribu, pelo acesso aos recursos do mar de gelo e pela proteção natural da Tuk Island, ilha que funciona como barreira contra tempestades vindas do norte e do noroeste.

Casas, escolas, posto de saúde, campus do Arctic College, base da Guarda Costeira canadense e o porto que abastece comunidades isoladas da região foram erguidos sobre permafrost. Tudo depende de um solo que só permanece firme enquanto continua congelado.

O Ártico aquece mais rápido que o restante do planeta e expõe a costa a ondas por mais meses

O problema é que esse solo já não permanece congelado como antes. O Ártico aquece cerca de quatro vezes mais rápido que a média global, e as temperaturas de verão em Tuktoyaktuk subiram entre 2°C e 4°C nas últimas décadas.

O gelo marinho que antes protegia a costa no verão chegava mais cedo e recuava mais tarde. Agora, forma-se depois e desaparece antes, deixando a linha costeira exposta à ação direta das ondas por mais meses do que em períodos registrados anteriormente.

Com mais calor no ar, mais calor no mar e menos gelo atuando como escudo, o permafrost começa a descongelar pela borda, pela superfície e pelo subsolo. A costa deixa de ser apenas erodida. Ela começa a perder a própria estrutura que a mantinha coesa.

A erosão em Tuktoyaktuk combina ondas, degelo subterrâneo e perda de coesão do solo congelado

A erosão costeira em Tuktoyaktuk não funciona como em praias tropicais, onde a areia é removida pelas ondas e pode ser depositada em outro ponto. No Ártico, o processo é mais destrutivo porque combina erosão mecânica e erosão térmica.

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A erosão mecânica ocorre quando as ondas do Mar de Beaufort, agora sem a proteção do gelo marinho durante parte maior do verão, batem diretamente na linha costeira e removem sedimentos da base das ribanceiras.

A erosão térmica é ainda mais grave. O permafrost rico em gelo não é apenas solo congelado: contém bolsões, lentes e camadas de gelo puro, que podem representar de 50% a 80% do volume das camadas superiores em algumas áreas. Quando esse gelo derrete, o solo perde coesão, escorrega para o mar e é levado pelas ondas.

A Tuk Island protege o porto, mas pode ser atravessada pelo mar antes de 2050

A Tuk Island, ilha que protege o porto interno da comunidade das tempestades mais perigosas, também está recuando. A taxa média é de cerca de 1,8 metro por ano, segundo o texto-base, o que coloca em risco a principal barreira natural de Tuktoyaktuk.

Sem intervenção, os modelos projetam que a ilha poderá ser atravessada pelo mar antes de 2050. Quando isso acontecer, o porto ficará exposto diretamente às ondas abertas do Mar de Beaufort.

A consequência vai além da própria aldeia. Embarcações poderão ter dificuldade para atracar com segurança, e o abastecimento de dezenas de comunidades isoladas que dependem do porto de Tuktoyaktuk poderá ser comprometido.

Estruturas antigas falharam porque foram feitas para costas comuns, não para permafrost em colapso

Tuktoyaktuk tenta proteger sua costa há mais de cinquenta anos. Os primeiros registros de estruturas de defesa costeira datam da década de 1970, quando blocos de concreto foram instalados para preencher espaços deixados pela subsidência do permafrost.

Nas décadas seguintes, geotêxteis foram usados para proteger sedimentos da ação das ondas, sacos de areia foram colocados em frente ao cemitério e pedras de armadura foram assentadas em diferentes pontos da costa.

Essas soluções falharam em poucos anos ou apenas retardaram marginalmente o recuo. A combinação de ondas mais fortes com degelo do permafrost produz uma agressividade que estruturas convencionais de costas temperadas não conseguem enfrentar.

O projeto de C$53,7 milhões usa pedras, geotêxteis e esferovite para tentar preservar o solo congelado

O projeto aprovado em 2023, com C$53,7 milhões do governo federal canadense, é diferente das tentativas anteriores em escala e concepção. Ele combina múltiplas camadas de intervenção para reduzir a energia das ondas e desacelerar o degelo do permafrost.

Pedras de armadura de grande porte formam a face externa exposta ao mar, dissipando a energia das ondas antes que ela alcance o solo. Abaixo delas, camadas menores de pedras filtrantes permitem que a água atravesse a estrutura sem arrastar sedimentos.

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Enterrada sob o sistema, uma camada de esferovite industrial atua como isolamento térmico. O objetivo é reduzir a transferência de calor da água e do ar para o permafrost, retardando o derretimento que destrói a coesão da costa.

A obra exige dezenas de milhares de metros cúbicos de pedra, geotêxtil, esferovite e areia

A escavação necessária para enterrar o isolamento chega a 1 metro abaixo da superfície, até atingir o permafrost e a rocha. O volume de material previsto mostra a escala da intervenção em uma comunidade de pouco mais de mil pessoas.

O projeto envolve mais de 30 mil metros cúbicos de pedras grandes de armadura, mais de 30 mil metros cúbicos de pedras menores de filtro, perto de 40 mil metros cúbicos de esferovite, mais de 40 mil metros cúbicos de geotêxtil e mais de 10 mil metros cúbicos de material de preenchimento.

Ao longo de 30 anos de vida útil, mais de 60 mil metros cúbicos de areia ainda precisarão ser trazidos para recompor a praia periodicamente. Não é uma obra que termina de uma vez. É uma proteção que exige manutenção contínua.

A primeira fase avançou em 2024, mas tempestades e falta de pedra atrasaram parte do trabalho

A primeira fase foi concluída em 2024, com pedras e geotêxteis ao longo da orla mais crítica. Mesmo assim, a execução enfrentou dificuldades típicas de obras no Ártico, onde logística, clima e disponibilidade de material tornam qualquer intervenção mais lenta e cara.

Em maio daquele ano, tempestades de inverno e escassez de determinados tipos de pedra fizeram com que apenas 50% do trabalho planejado fosse concluído. As obras continuaram no verão e no inverno de 2024 para 2025.

Parte do transporte foi feita com caminhões levando cascalho por estradas de gelo até a ilha. A própria obra de proteção depende de uma infraestrutura sazonal que também está sendo pressionada pelo aquecimento do Ártico.

A engenharia compra tempo até 2052, mas não resolve a ameaça permanente sobre Tuktoyaktuk

Tuktoyaktuk tem cerca de mil habitantes, e sua arrecadação municipal é pequena. Os C$53,7 milhões investidos pelo governo federal representam mais do que uma comunidade desse porte poderia arrecadar em décadas de impostos locais.

Mesmo assim, a proteção é temporária. O projeto tem vida útil de 30 anos e foi desenhado para uma elevação do nível do mar de 3,4 metros, margem que modelos climáticos mais recentes já tratam como conservadora para o Ártico até 2100.

A pergunta central é o que acontecerá em 2052, quando a garantia expirar. A resposta técnica é direta: a obra compra tempo, mas não elimina o problema climático que está destruindo a base física da comunidade.

Depois de 2052, a comunidade terá de escolher entre manter defesas, recuar ou combinar as duas estratégias

As opções aparecem no plano de adaptação de longo prazo: manter as proteções e investir em manutenção crescente à medida que as condições pioram, realocar progressivamente estruturas e moradores para áreas mais altas e afastadas da costa ou combinar as duas estratégias.

A moradora Noella Cockney, cuja família precisou mover a casa para longe da costa em 2020, descreveu a cronologia concreta dessa ameaça. A família construiu onde construiu porque o solo era firme e o local parecia seguro.

O solo ainda pode parecer firme quando alguém caminha sobre ele. Mas já não é o mesmo. A prova é o pedaço de terra onde a casa ficava, agora debaixo d’água.

Tuktoyaktuk mostra como comunidades árticas enfrentam uma crise que não causaram

A situação de Tuktoyaktuk não é única. É um dos casos mais documentados, midiatizados e financiados de um padrão que se repete em dezenas de comunidades ao longo da costa ártica do Canadá, do Alasca e da Sibéria.

A Copernicus University publicou em 2025 um mapeamento de permafrost submarino ao redor de Tuk Island usando tomografia de resistividade elétrica. A técnica mede como a corrente elétrica se propaga pelo solo submerso para identificar onde o permafrost começa e onde já degelou.

Os resultados indicam que o permafrost submarino ao redor da ilha está mais raso e fragmentado do que modelos anteriores previam. Isso significa que a erosão da base submersa pode estar avançando mais rápido do que as medições superficiais indicavam.

A proteção costeira permite continuar vivendo por mais anos, mas não promete salvar Tuktoyaktuk para sempre

O projeto de engenharia costeira de Tuktoyaktuk deve comprar anos, talvez décadas, para uma comunidade que não causou emissões industriais significativas, não queimou carvão em escala, não tem indústria pesada e não possui tráfego intenso de automóveis.

A aldeia passou milênios em equilíbrio com um ambiente que o restante do mundo industrial está alterando de fora para dentro. Agora, precisa de pedras, geotêxteis, esferovite e financiamento federal para permanecer no lugar onde sempre esteve.

O prefeito Erwin Elias foi preciso ao anunciar os C$53,7 milhões em julho de 2023: “Isso significa que os Inuvialuit e os moradores locais de Tuktoyaktuk poderão continuar vivendo, trabalhando e desfrutando de suas terras e cultura, em segurança, por muitos mais anos.”

Por muitos mais anos. Não para sempre. Por muitos mais anos.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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