Radiotelescópio de Qitai avança em Xinjiang com uma estrutura totalmente orientável, projetada para captar emissões de rádio quase imperceptíveis e ampliar a observação chinesa do espaço profundo a partir de uma região montanhosa escolhida por suas condições técnicas favoráveis.
A China constrói no condado de Qitai, em Xinjiang, um radiotelescópio de 110 metros de abertura que deverá ampliar a capacidade do país de observar emissões de rádio vindas de regiões distantes do universo.
A estrutura, com mais de 6 mil toneladas, será totalmente orientável e tem conclusão e entrada em operação previstas para 2028, segundo informações da Academia Chinesa de Ciências e da agência estatal Xinhua.
Instalado em uma bacia de vale na Prefeitura Autônoma Hui de Changji, no noroeste da China, o equipamento integra o projeto Qitai Radio Telescope, conhecido pela sigla QTT.
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A proposta é reunir grande área coletora, alta sensibilidade e mobilidade completa da antena para acompanhar diferentes regiões do céu com precisão.
A etapa principal da engenharia civil foi coroada em junho de 2025, marco que abriu caminho para fases internas da obra, instalação de equipamentos e testes de sistemas.
De acordo com a imprensa estatal chinesa, o projeto será a primeira grande infraestrutura científica nacional implantada em Xinjiang.
Como será o radiotelescópio de Qitai

O radiotelescópio terá um refletor principal parabólico de 110 metros de diâmetro, dimensão equivalente a uma enorme superfície metálica voltada para a captação de ondas de rádio.
Essa área permite registrar sinais muito fracos, invisíveis a telescópios ópticos, que carregam informações sobre pulsares, gases interestelares, galáxias e outros fenômenos cósmicos.
Ao contrário de instrumentos fixos, a antena de Qitai poderá ser apontada para diferentes partes do céu.
Essa mobilidade amplia a flexibilidade das observações, permite acompanhar fontes astronômicas por períodos mais longos e favorece pesquisas que exigem repetição, estabilidade e comparação de dados ao longo do tempo.
A estrutura foi projetada como um telescópio do tipo gregoriano, com superfície principal ativa para corrigir deformações provocadas pela gravidade durante o movimento da antena.
Esse ajuste é essencial em instrumentos desse porte, porque pequenas alterações na forma do refletor podem comprometer a qualidade dos sinais recebidos.
Segundo descrição técnica do projeto, o QTT deverá operar em uma faixa ampla de frequências, de 150 MHz a 115 GHz, o que o coloca como plataforma de observação para diferentes áreas da radioastronomia.
A instalação também foi planejada para atuar em modos como observação de pulsares, linhas espectrais, emissão contínua e interferometria de linha de base muito longa, conhecida como VLBI.
Por que Xinjiang foi escolhida para o projeto
A escolha de Qitai está ligada às condições necessárias para a radioastronomia.
A região fica nas montanhas Tianshan, em área relativamente afastada de grandes centros urbanos, com altitude média informada em torno de 1.760 metros pelo Observatório Astronômico de Xinjiang.

Ambientes mais isolados ajudam a reduzir interferências eletromagnéticas produzidas por atividades humanas, como telecomunicações, equipamentos eletrônicos e redes urbanas.
Para radiotelescópios, esse silêncio radioelétrico é tão importante quanto a abertura da antena, já que ruídos terrestres podem se misturar aos sinais fracos captados do espaço.
A localização em uma bacia de vale também favorece a implantação de uma estrutura de grande escala, com espaço para fundações, sistemas auxiliares e controle operacional.
Em obras desse tipo, a estabilidade do terreno e a proteção contra interferências externas fazem parte do próprio desempenho científico do equipamento.
O Global Times informou que a estrutura terá cerca de 6 mil toneladas e será totalmente direcionável, com refletor principal de 110 metros.
Já a China Daily destacou que a altura do sistema de antena supera a de um edifício de 35 andares e que a área de recepção equivale a 23 quadras de basquete.
O que os cientistas pretendem observar
O QTT foi concebido para apoiar pesquisas sobre pulsares, formação de estrelas, estrutura em grande escala do universo, galáxias, buracos negros e meio interestelar.
Estudos publicados por pesquisadores ligados ao projeto também citam aplicações em arranjos de temporização de pulsares, técnica usada na busca por sinais de ondas gravitacionais de frequência muito baixa.
Pulsares são estrelas de nêutrons que emitem sinais regulares em rádio, funcionando como relógios naturais de alta precisão.
Com antenas sensíveis, astrônomos conseguem acompanhar variações nesses sinais e investigar fenômenos que não seriam detectados apenas por observações em luz visível.
O radiotelescópio também poderá contribuir para redes internacionais de observação por VLBI, método que combina dados de antenas separadas por grandes distâncias.
Essa técnica permite obter medições com resolução muito alta, úteis para estudar objetos compactos, regiões de formação estelar e fontes de rádio em galáxias distantes.
Além da pesquisa científica, a instalação deverá ter funções de educação e divulgação científica.
Segundo a Xinhua, o complexo também servirá como espaço de aproximação com o público, com atividades voltadas à compreensão de como ondas de rádio ajudam a investigar fenômenos invisíveis aos olhos humanos.
Radiotelescópio reforça estratégia científica chinesa
O avanço da obra em Xinjiang ocorre em um momento de expansão da infraestrutura científica chinesa em astronomia e exploração espacial.
O país já opera o FAST, radiotelescópio fixo de 500 metros em Guizhou, e desenvolve outros projetos de grande escala para ampliar sua presença em redes internacionais de produção de dados.
A diferença central do QTT está na combinação entre grande abertura e orientação completa da antena.
Enquanto o FAST tem área coletora muito maior, sua estrutura fixa limita o apontamento direto; o equipamento de Qitai, por outro lado, foi desenhado para mover toda a antena e acompanhar uma parcela ampla do céu.
Esse tipo de engenharia impõe desafios complexos.
Uma antena com mais de 6 mil toneladas precisa se deslocar de forma controlada, manter rigidez estrutural e preservar a precisão da superfície refletora durante observações sensíveis.
O equilíbrio entre massa, mobilidade e estabilidade explica por que radiotelescópios orientáveis desse porte são raros.
Quando estiver em operação, o QTT deverá transformar sinais extremamente tênues em dados científicos sobre regiões distantes do cosmos.
Para a astronomia, a imagem de uma antena gigantesca entre montanhas representa menos uma obra monumental isolada e mais uma ferramenta para ouvir partes do universo que não aparecem na luz comum.


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