Em canteiros dominados por homens, mulheres pedreiras da Bolívia transformaram discriminação, salários menores e invisibilidade em organização coletiva para disputar respeito, trabalho reconhecido e mais segurança na construção civil
Mulheres pedreiras da Bolívia criaram uma associação após anos de salários menores, preconceito, assédio e falta de reconhecimento nos canteiros de obra. A organização nasceu em um setor onde muitas trabalhadoras eram vistas como ajudantes, mesmo quando carregavam material, rebocavam paredes, pintavam, assentavam pisos e participavam da construção como profissão.
A informação foi publicada por The Guardian, jornal britânico com cobertura internacional de desenvolvimento. O caso mostra como a construção civil também pode virar uma disputa por respeito, salário justo e segurança para mulheres que dependem da obra para sustentar a própria casa.
Na Bolívia, a diferença salarial entre homens e mulheres no setor chegou a 38%. Esse número ajuda a explicar por que a criação da ASOMUC, Associação de Mulheres na Construção, virou uma forma de pressão contra a desigualdade dentro dos canteiros.
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Pedreiras da Bolívia enfrentaram preconceito em obras onde eram vistas como ajudantes
A construção civil costuma ser associada à força física. Por isso, mulheres que entram nesse setor enfrentam uma barreira antes mesmo de mostrar o que sabem fazer. Em muitas obras, elas precisam provar que também conseguem trabalhar com ferramentas, materiais, acabamento e tarefas pesadas.
A história de Reyna Quispe, trabalhadora da construção civil, mostra essa realidade. Ainda jovem, ela passou por situações de abuso verbal e discriminação de colegas homens. O problema não era apenas o serviço pesado, mas o ambiente hostil criado por quem não aceitava mulheres no canteiro.

Esse tipo de preconceito empurra muitas mulheres para funções consideradas menores. Em vez de serem reconhecidas como profissionais da obra, elas acabam tratadas como auxiliares permanentes, mesmo quando acumulam prática e técnica.
Em muitas reformas, ainda se espera ver homens no comando da obra e mulheres apenas como clientes, moradoras ou ajudantes. O caso boliviano mostra que essa divisão também aparece quando a mulher decide viver da construção.
Associação criada em 2014 virou resposta contra salários menores e abusos nos canteiros
A ASOMUC, Associação de Mulheres na Construção, foi criada em dezembro de 2014 por um grupo de mulheres que se conheceu em formações ligadas à área urbana e de construção. A organização obteve status legal em setembro de 2017.
Na prática, a associação funciona como uma rede de apoio e pressão. Ela reúne mulheres que querem capacitação, mais reconhecimento e melhores condições de trabalho. Também fortalece a ideia de que pedreira não é ajudante informal, mas profissional da construção civil.
The Guardian, jornal britânico com cobertura internacional de desenvolvimento, registrou que o grupo tinha cerca de 60 trabalhadoras. O número mostra uma organização pequena, mas importante em um setor onde a presença feminina ainda era baixa.
A associação também defendia objetivos práticos, como ter uma sede própria, criar um banco de ferramentas e formar uma empresa para disputar contratos maiores. Isso significa sair da dependência de patrões e atravessadores, buscando autonomia dentro do próprio trabalho.
Diferença salarial de 38% expôs o tamanho da desigualdade na construção civil
A diferença salarial de 38% entre homens e mulheres na construção civil boliviana é o dado mais forte do caso. Ele mostra que o problema não se limita a piadas, comentários ofensivos ou desconfiança sobre a capacidade feminina.
Quando uma mulher recebe menos pelo mesmo setor de trabalho, a desigualdade aparece no bolso, na comida da casa, no aluguel, no transporte e no futuro dos filhos. Para muitas pedreiras, ganhar menos significa aceitar mais jornadas, mais dependência e menos chance de crescer na profissão.
A construção civil na Bolívia tinha cerca de 471 mil trabalhadores. Desse total, aproximadamente 21 mil eram mulheres, o que representava cerca de 4,5% da força de trabalho do setor.
Esse número ajuda a entender a solidão de muitas pedreiras no canteiro. Quando a mulher é minoria, fica mais difícil denunciar abuso, exigir pagamento correto e disputar promoção. A associação tenta reduzir esse isolamento.
Assédio e falta de banheiro separado também viraram parte da disputa por dignidade
O problema vivido pelas pedreiras bolivianas não ficou restrito ao salário. A falta de estrutura básica nos canteiros também pesa mais sobre as mulheres. A ausência de banheiros separados, por exemplo, aumenta a insegurança e cria situações de exposição.
Além disso, relatos de assédio e abuso mostram como a relação de poder dentro da obra pode ter uso contra trabalhadoras. Quando o pagamento depende de chefes homens e a mulher tem pouca proteção, a denúncia vira uma decisão difícil.
Por isso, a associação não trata apenas de emprego. Ela toca em temas de dignidade, segurança e respeito. Em linguagem simples, isso significa poder trabalhar sem medo, sem humilhação e sem depender de favores para receber pelo serviço feito.

A presença de mulheres organizadas também muda a imagem do canteiro. A obra deixa de ter consideração como um espaço naturalmente masculino e passa a ter entendimento como local de trabalho, com regras, direitos e responsabilidades.
Projeto apresentado em 8 de março de 2024 buscou igualdade e pagamento justo
Em 8 de março de 2024, Dia Internacional da Mulher, integrantes da ASOMUC se uniram a Betty Yañiquez, presidente da comissão de direitos humanos e igualdade de oportunidades na câmara dos deputados, para apresentar um projeto de lei.
A proposta buscava maior igualdade e pagamento justo para mulheres na construção civil da Bolívia. Na data da publicação da apuração, em 11 de outubro de 2024, o projeto aparecia em análise.
Esse ponto é importante porque mostra que a associação saiu da conversa interna entre trabalhadoras e chegou ao campo político. A luta por respeito no canteiro passou a envolver também regras públicas e pressão institucional.
Mesmo sem transformar a história em promessa de mudança imediata, o avanço revela uma tentativa concreta de enfrentar a desigualdade por caminhos formais. Para mulheres que passaram anos sendo tratadas como ajudantes, levar o tema ao debate público já muda o peso da denúncia.
Treinamento mostrou que obra também exige técnica, atenção e acabamento
As pedreiras da associação participaram de treinamentos para ampliar suas habilidades. Um dos exemplos citados envolve instalação de tanques de água da chuva nos arredores de La Paz. Esse tipo de atividade exige atenção, medida correta, encaixe e conhecimento prático.
A construção civil não depende apenas de força. Pintura, revestimento, piso, acabamento e organização do espaço também fazem parte da obra. Muitas trabalhadoras defendem que essas áreas mostram habilidades importantes das mulheres no setor.
Isso não elimina o peso físico do trabalho, como carregar saco de cimento ou material pesado. Porém, ajuda a desmontar a ideia de que construção é apenas força bruta. Uma casa bem feita também depende de cuidado, precisão e responsabilidade.
Para quem reforma no Brasil, essa discussão faz sentido. O bom resultado de uma obra muitas vezes está nos detalhes que aparecem depois, como piso bem assentado, parede bem acabada e pintura limpa.
Obra também é disputa de gênero quando o trabalho de mulheres vale menos
A história das pedreiras da Bolívia mostra que a construção civil não é apenas um setor de concreto, tijolo e cimento. Ela também revela quem recebe mais, quem manda, quem aparece como profissional e quem fica invisível.
Quando mulheres fazem o mesmo tipo de trabalho e ainda precisam provar sua capacidade todos os dias, o canteiro vira um espelho da desigualdade. A diferença salarial de 38% mostra que o problema tem efeito direto na renda e na vida dessas trabalhadoras.
A criação da ASOMUC deu nome, grupo e voz a uma luta que antes ficava espalhada em experiências individuais. Em vez de enfrentar sozinhas o preconceito, as pedreiras passaram a se organizar para cobrar reconhecimento.
A pergunta que fica é simples e incômoda: se mulheres também levantam paredes, carregam material e entregam acabamento, por que ainda precisam provar que obra também é trabalho delas?

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