Casas impressas ganham espaço no Colorado com estruturas resistentes, telhados metálicos e menos uso de madeira, enquanto empresas apostam em redução de custos e automação para acelerar obras e ampliar o acesso à moradia.
Em cidades do interior do Colorado, nos Estados Unidos, as primeiras casas impressas em 3D já estão à venda com paredes de concreto, telhados metálicos, quase nenhuma madeira na estrutura e alta resistência ao fogo.
Os imóveis, desenvolvidos pela empresa VeroTouch, inauguram um modelo de construção automatizada que busca reduzir custos em até 20% a 30% em relação às obras tradicionais nos próximos anos, sem abrir mão de segurança e desempenho energético.
Casas 3D no Colorado unem preço, tecnologia e segurança
A VeroTouch começou a operar em 2023, na cidade de Buena Vista, onde construiu as primeiras duas casas totalmente impressas em 3D do Colorado.
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Com cerca de 1.100 pés quadrados, pouco mais de 100 metros quadrados, essas unidades foram erguidas com paredes de concreto produzidas por uma impressora gigante e já foram colocadas à venda e negociadas no mercado local.
Depois da experiência em Buena Vista, a empresa passou a concentrar seus esforços em um novo empreendimento na região de Salida, em um bairro planejado com 32 casas impressas em 3D.
Duas unidades já estão em fase avançada, enquanto as demais serão construídas em sequência, em um modelo próximo a uma linha de montagem para acelerar a entrega.

O mercado imobiliário em Salida é considerado caro para padrões locais, impulsionado pelo turismo e pela localização em uma área de forte apelo paisagístico.
Ainda assim, a empresa afirma que, à medida que a tecnologia amadurece, será possível ofertar unidades 20% a 30% mais baratas do que casas construídas pelos métodos convencionais, mesmo em um cenário de terrenos valorizados.
Como funciona a impressão 3D de casas
A base da tecnologia é uma impressora de grande porte, montada em trilhos, que desloca um cabeçote por toda a planta da casa.
Esse equipamento extrusa camadas sucessivas de concreto com aditivos especiais, formando paredes estruturais diretamente no local da obra.
A VeroTouch utiliza máquinas produzidas pela dinamarquesa COBOD, modelo BOD2, hoje uma das plataformas mais difundidas em construção 3D no mundo.
Em um dos protótipos, a empresa concluiu a casca estrutural da segunda casa em apenas 16 dias de impressão, ritmo considerado mais rápido do que o de uma obra tradicional no mesmo padrão.
Enquanto o equipamento executa o desenho programado com precisão milimétrica, a necessidade de mão de obra direta na etapa pesada de alvenaria cai significativamente.
Depois da impressão das paredes, outras etapas seguem o padrão de construção já conhecido: instalação de telhados, esquadrias, elétrica, hidráulica e acabamentos internos.
Em alguns projetos, a empresa combina trechos impressos com áreas pontuais em madeira ou estruturas convencionais, como closets ou detalhes internos, buscando equilíbrio entre inovação e praticidade de obra.
Estruturas sem madeira e telhados metálicos
Um dos pontos centrais da proposta é reduzir ao máximo o uso de madeira na estrutura principal.
As paredes são feitas com concreto classificado como A1 em resistência ao fogo, categoria que indica material não combustível.
Esse tipo de solução é especialmente relevante em um estado onde quase metade da população vive em regiões com risco de incêndios florestais.
Além disso, as casas da VeroTouch recebem telhados metálicos e revestimentos externos projetados para eliminar materiais combustíveis na parte exposta da construção.
Em áreas montanhosas do Colorado, essa característica é vista como um diferencial em relação às casas de madeira, que são mais vulneráveis ao fogo e a intempéries.

O CEO da empresa, Grant Hamel, tem repetido em entrevistas que a automação deve ganhar espaço na construção civil nos próximos anos e que a ideia é combinar materiais mais duráveis com robótica para criar moradias que resistam por décadas.
Em comunicado oficial, ele definiu o objetivo como o de criar “casas de legado, que possam ser passadas adiante, em vez de derrubadas”.
Isolamento térmico, conforto e desempenho energético
Além da resistência mecânica, as residências impressas em 3D são projetadas para alcançar níveis elevados de isolamento térmico e acústico.
Em vários modelos, as paredes contam com camadas internas de isolamento em espuma de célula fechada, associadas ao concreto, o que melhora a eficiência energética e ajuda a manter temperaturas internas mais estáveis ao longo do ano.
Em alguns projetos, a VeroTouch instalou sistemas de aquecimento no piso dos banheiros, explorando a inércia térmica da laje e das paredes em concreto.
O conjunto de soluções busca reduzir o consumo de energia para aquecimento e refrigeração, ponto sensível em regiões de inverno rigoroso e verões mais secos.
Segundo a própria empresa, as casas apresentam valor de isolamento superior ao de muitas construções convencionais em madeira e gesso.
A combinação de paredes sólidas, telhado metálico e ausência de elementos combustíveis externos também tende a contribuir para menor necessidade de manutenção em longo prazo.
Quanto custam as casas impressas em 3D no Colorado
Os preços finais ainda não refletem todo o potencial de economia prometido pela tecnologia, principalmente por causa do custo dos terrenos nas áreas escolhidas.
As primeiras casas impressas em Buena Vista foram listadas em torno de 625 mil dólares, alinhadas à média de imóveis em comunidades de montanha no estado.
Já as unidades que estão sendo construídas em Salida devem ser vendidas a partir de 500 mil dólares, podendo alcançar faixas superiores, de acordo com padrão, metragem e localização no empreendimento.
Representantes da VeroTouch afirmam que a tendência é de queda nos custos à medida que a operação ganha escala, com a meta de ficar 20% a 30% abaixo do preço de mercado de casas tradicionais dentro de um horizonte de um a dois anos.
Na prática, a empresa aposta que a automação da estrutura, a repetição de projetos e o aprendizado acumulado em cada nova impressão vão reduzir o tempo de obra e o gasto com mão de obra.
Isso abre espaço para que o desconto chegue ao comprador final, mesmo em um contexto de terrenos caros e forte demanda por moradia.
Por que a construção automatizada ganha espaço
A adoção de impressoras 3D em projetos habitacionais dialoga com dois desafios simultâneos: falta de mão de obra qualificada na construção civil e déficit de moradias acessíveis.
Em vez de substituir todo o trabalho humano, a tecnologia desloca parte dos profissionais para funções de operação, planejamento, instalação de sistemas e acabamentos, enquanto a máquina assume a etapa repetitiva e pesada de erguer paredes.
Outra frente relevante é a política pública.
A VeroTouch recebeu apoio do Innovative Housing Incentive Program, iniciativa do estado do Colorado que prevê estímulos para projetos capazes de ampliar a oferta de moradias e, ao mesmo tempo, testar métodos construtivos mais eficientes.
O programa tem como meta apoiar a construção de milhares de unidades habitacionais ao longo de três anos, usando diferentes tecnologias, entre elas a impressão 3D.
Mesmo com esse incentivo, os executivos da empresa reconhecem que o segmento ainda está em fase de desenvolvimento.
Por isso, os primeiros bairros servem também como laboratório em escala real, no qual são testados novos desenhos, tempos de impressão, acabamentos e soluções de uso do espaço, como suítes independentes e unidades adicionais anexas à casa principal.
Enquanto os projetos avançam em Buena Vista e Salida, uma questão passa a ganhar peso tanto para moradores quanto para profissionais do setor.
Se casas com paredes de concreto impressas em 3D, telhados metálicos e quase nenhuma madeira podem ser construídas mais rápido, com mais segurança contra incêndios e, em breve, por um preço menor, qual será o papel dessa tecnologia na forma como queremos viver e construir as cidades nos próximos anos?

