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Enquanto a China cava noventa quilômetros submarinos e o México liga dois oceanos, o Brasil perde grão na porteira por falta de trilho

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 24/06/2026 às 20:21 Atualizado em 24/06/2026 às 20:24
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Enquanto a China aprova um túnel de noventa quilômetros sob o mar e o México conclui um corredor de trilhos ligando dois oceanos, o Brasil, do tamanho de um continente e dependente de ferrovia para escoar a sua riqueza, ainda discute no tapetão projetos prometidos há quase vinte anos e assiste à safra recorde apodrecer na fila do caminhão.

Tem contraste que dói de olhar, e a logística brasileira é um deles. Pelo mundo afora, países erguem obras de transporte que parecem ficção: a China furando o mar para ligar cidades, os países do Golfo assinando trem-bala de 300 km/h para cruzar o deserto em duas horas, o México abrindo um corredor ferroviário entre o Pacífico e o Atlântico como alternativa ao Canal do Panamá. Tudo saindo do papel num piscar de olhos.

No Brasil, a história é outra. O país tem dimensão continental, produz grão e minério em quantidade gigantesca e precisa, mais do que quase qualquer outro, de uma malha ferroviária forte para tirar essa produção do interior e levá-la ao mar. Só que a nossa ferrovia vive presa num ciclo de promessas, paralisações e relicitações que se arrasta há décadas, enquanto o caminhão sobrecarrega estradas esburacadas.

Trem de carga atravessando paisagem ao lado de rodovia
O Brasil depende de ferrovia para escoar grão e minério, mas a malha não acompanha.

As ferrovias que nunca saem do papel

A lista de projetos travados é quase um monumento à frustração. A Ferrogrão, que ligaria o Mato Grosso aos portos do Norte para escoar soja, passou anos parada na Justiça por disputas ambientais e de terra. A Transnordestina, que promete rasgar o sertão até o litoral, arrasta-se entre paradas e retomadas desde meados dos anos 2000. A FIOL, na Bahia, é outra que espera há tempo demais. São obras anunciadas como salvação e que envelhecem na prancheta.

O governo voltou a prometer um pacote robusto, com centenas de bilhões de reais em novas ferrovias e uma fila de leilões para os próximos anos. A intenção é boa e o dinheiro previsto é grande, mas quem acompanha o setor aprendeu a separar o anúncio da inauguração. Já vimos esse filme antes, e o final costuma ter mais reunião do que trilho assentado. Confesso que torço para que dessa vez seja diferente.

Por que a ferrovia emperra aqui

As causas se acumulam. Tem a geografia difícil, com distâncias enormes e relevo complicado; tem o financiamento, porque ferrovia custa caro e dá retorno em prazo longo, o que espanta investidor afoito; e tem a judicialização, com obras que travam em liminares, licenciamentos e conflitos de interesse que se arrastam por anos. Some tudo e você tem a receita perfeita para a paralisia.

Vagão de trem de carga com a bandeira do Brasil pintada
Centenas de bilhões em ferrovias foram prometidos, mas anúncio não é trilho assentado.

Há ainda uma herança histórica. O Brasil apostou no rodoviário a partir do século passado, construindo um país sobre pneus em vez de trilhos, e desfazer essa escolha de décadas é caro e lento. O resultado é que hoje movemos grão e minério de caminhão por milhares de quilômetros, num modelo mais caro, mais poluente e mais sujeito a congestionamento do que o trem que o resto do mundo usa para o mesmo tipo de carga.

O número que resume a tragédia é simples: cerca de dois terços de toda a carga brasileira ainda andam de caminhão, quando em países de dimensão parecida o trem e a hidrovia carregam a maior parte. É como tentar abastecer um continente com a malha de um país pequeno, e essa escolha errada cobra pedágio em cada saca de soja, em cada tonelada de minério, em cada estrada que se desgasta antes da hora sob o peso das carretas.

Enquanto isso, lá fora, o trilho avança sem drama. A própria China ergueu em duas décadas a maior rede de trem de alta velocidade do mundo, e países bem menores que o Brasil mantêm ferrovias de carga que rodam sem parar. Não é questão de tecnologia inacessível nem de segredo industrial: é decisão, planejamento e continuidade, três coisas que a nossa política de infraestrutura raramente conseguiu manter por tempo suficiente para a obra chegar ao fim.

O preço do atraso

Esse abismo logístico não é detalhe técnico, é dinheiro perdido todo dia. Cada tonelada de soja que viaja de caminhão em vez de trem chega mais cara ao porto, e o produtor brasileiro paga, de frete, uma fatia bem maior do valor do grão do que paga, por exemplo, o concorrente americano. Na competição global por mercado, a gente larga atrás não por plantar pior, mas por transportar pior. É como ganhar a corrida na largada e perder no trajeto.

O paradoxo fica gritante quando se olha para a safra recorde. O país colhe como nunca, mas vê parte dessa fartura virar fila de caminhão e custo extra justamente porque faltou trilho para dar conta do volume. Produzir o Brasil aprendeu de sobra; escoar, ainda não. E enquanto isso não muda, todo recorde na lavoura vem acompanhado de um vazamento de competitividade na estrada.

Locomotivas de carga em pátio ferroviário
Mover grão de caminhão por milhares de quilômetros é mais caro e mais poluente.

A esperança é que a pressão da própria produção force a virada. Com a safra crescendo a cada ano e o gargalo ficando insustentável, fica cada vez mais caro não construir ferrovia, e talvez seja essa conta, mais do que qualquer discurso, que finalmente tire os projetos da gaveta. Fico imaginando o tamanho do país que a gente teria com a malha que o resto do mundo está erguendo.

Por ora, o retrato é esse: de um lado, o mundo cavando o mar e cruzando desertos a 300 por hora; do outro, o Brasil discutindo, mais uma vez, a ferrovia que prometeu há vinte anos. A diferença entre os dois lados é, no fundo, a diferença entre decidir e executar.

Por que o Brasil consegue plantar como ninguém, mas não consegue construir a ferrovia que precisa?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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