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Capital das plásticas: cidade mineira atrai brasileiras com cirurgias pela metade do preço, consórcios e casas de cuidado lotadas, enquanto processos, infecções e arrependimento expõem o risco real do barato que sai caro

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 12/12/2025 às 08:58
Assista o vídeoCapital das plásticas em Ubá: cirurgia plástica, casas de cuidado e alerta de erro médico. Veja preços, crédito e riscos do barato que sai caro.
Capital das plásticas em Ubá: cirurgia plástica, casas de cuidado e alerta de erro médico. Veja preços, crédito e riscos do barato que sai caro.
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Na Capital das plásticas, Ubá recebe diariamente mulheres do Brasil e do exterior, atraídas por lipo, mamoplastia e abdominoplastia até 50% mais baratas, pagas até em dinheiro vivo. Consórcios prometem operar sem sorteio, e casas de cuidado lotam. Processos, infecções e orientação médica falha revelam o custo do barato real.

A Capital das plásticas de Ubá, em Minas Gerais, foi retratada em uma reportagem publicada, após repórteres da BBC News Brasil irem à cidade para entender como procedimentos estéticos mais baratos passaram a atrair mulheres de várias partes do país e até brasileiras que moram no exterior.

Na apuração, a BBC relata que a fama foi impulsionada por vídeos no TikTok, e detalha um contraste que ficou evidente em entrevistas e documentos: enquanto parte das pacientes sai satisfeita, outras relatam infecções, falta de assistência e arrependimento, além de um histórico de processos judiciais contra médicos locais, incluindo atendimentos descritos pela equipe em dezembro de 2024.

Como Ubá virou a Capital das plásticas nas redes

Com cerca de 100 mil habitantes, Ubá passou a circular nas redes sociais como a “Capital das plásticas” depois que vídeos e relatos de mulheres recém-operadas, ainda com cintas e drenos, começaram a ganhar milhões de visualizações. O gatilho, segundo pacientes ouvidas, foi a combinação de preço e viralização.

Um dos exemplos citados é o de Dulcineia Luz, 47, que saiu de Rondonópolis (MT) e passou dois dias em um ônibus rumo a Ubá, após conhecer a cidade pelo TikTok.

Ela disse que decidiu buscar a cirurgia ao ver resultados na internet e enxergar a ida como a realização de um sonho ligado à autoestima.

Preços abaixo das capitais e procedimentos “pacote”

O que sustenta a reputação da Capital das plásticas é, principalmente, o valor final anunciado para cirurgias populares. A reportagem descreve que, em Ubá, é possível encontrar:

Cirurgia “x-tudo” por R$ 18 mil, descrita como um pacote que pode incluir elevação dos seios, remoção de gordura das costas com retirada de excesso de pele e gordura da barriga e possível aumento dos glúteos.

Mastoplastia por menos de R$ 11 mil, com hospital e anestesista incluídos.

Abdominoplastia por menos de R$ 9 mil, apontada como mais de 50% abaixo da média em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A depender do profissional, o pagamento pode ser exigido em dinheiro vivo, segundo a própria reportagem.

Consórcios, crédito e o efeito nas casas de cuidado

A economia local passa a girar em torno desse fluxo de pacientes, com uma rede que inclui motoristas especializados, lojas de material hospitalar, fisioterapeutas e casas de recuperação.

Na Capital das plásticas, o pós-operatório virou um serviço central do “ecossistema”.

Um exemplo destacado é a Pag Crédito Ubá, apresentada como um financiamento programado. A responsável, Lucilene Queiroz, afirmou receber mais de 80 mensagens por dia de interessadas e descreveu o modelo como semelhante a consórcio: a cliente escolhe um plano, paga parcelas e já sabe quando vai operar, sem lance e sem sorteio.

Segundo ela, é possível aderir mesmo com nome negativado, com valores entre R$ 5 mil e R$ 100 mil e parcelamento fixo que pode chegar a 120 vezes.

Ela afirma que, em meses de férias, a média é de 40 mulheres operando por mês pelo plano, além das que pagam com recursos próprios.

As casas de cuidado citadas incluem a Casa das Irmãs Condé, gerida por Ana Paula Condé (enfermeira) e Juliana (fisioterapeuta), que relatam, em alguns meses, fila de espera.

A reportagem também menciona a Casa de Cuidados Shekinah e o Spa de Cuidados Fernanda Varella, cujas responsáveis disseram não ter interesse em conversar.

WhatsApp, guias em PDF e estratégias para levar dinheiro

Na Capital das plásticas, a organização pré e pós-viagem também aparece como parte do fenômeno. A reportagem descreve dezenas de grupos de WhatsApp com nomes de cirurgiões, geralmente sem a presença deles, em que circulam:

  • fotos de antes e depois
  • trocas de experiências
  • indicações de serviços, como casas de cuidado
  • orçamentos
  • arquivos em PDF com informações sobre médicos

Há também relatos de pacientes levando dinheiro vivo de formas improvisadas, como notas guardadas em fraldas ou pochetes, e até avisando o banco antecipadamente para conseguir sacar quantias altas na chegada à cidade.

Ana Paula Condé afirma que não indica médicos, mas orienta a troca no grupo e diz ter montado um guia com o trabalho dos profissionais, para que cada mulher escolha com base nas conversas e nas imagens compartilhadas.

Processos na Justiça e o histórico de dois pioneiros

A reportagem aponta que, na cidade, pelo menos seis cirurgiões plásticos realizam procedimentos diariamente. Dois nomes citados como pioneiros, Maurino Grossi e Júlio Cesar Ferreira, acumulam, cada um, mais de 30 processos.

Sobre Júlio Cesar Ferreira, a reportagem afirma ter encontrado cerca de 40 ações, concentradas principalmente em supostos erros médicos, especialmente em mamoplastias.

Dos 16 processos com sentença, ele teria sido condenado em 7, com 4 extintos por acordo ou desistência e 5 julgados improcedentes.

Sobre Maurino Grossi, a BBC relata também cerca de 40 processos. Dos 28 já sentenciados, ele teria sido condenado em 5, com 2 improcedentes e 21 extintos, por desistência ou acordo.

A BBC diz que procurou ambos. Maurino Grossi foi recebido em seu consultório em dezembro de 2024. Júlio Cesar Ferreira não aceitou entrevista, mas enviou posicionamento por meio de seu advogado, com explicações citadas ao longo da reportagem.

Satisfeitas, arrependidas e o risco do “barato sai caro”

A Capital das plásticas não é descrita apenas como destino de “sonho”, mas também como cenário de frustração e sofrimento.

Talita, 25, de Niterói (RJ), disse que acompanhou uma cirurgiã por 4 anos e fez mamoplastia com aumento, abdominoplastia e lipo com enxerto de glúteo, por cerca de R$ 34 mil.

Ela associou a decisão ao impacto das gestações na autoestima e falou em recomeço com hábitos saudáveis.

Claudineia Dias, 33, de Rondônia, viajou por mais de um dia, entre avião e ônibus, para fazer abdominoplastia e mamoplastia com Maurino Grossi.

Disse que sonhava com o procedimento há dois anos, esperou o filho chegar a 1 ano e 2 meses e afirmou que repetiria a experiência.

No outro extremo, Gelva Consuelo, 56, afirmou que uma cirurgia realizada em 2016 com o mesmo médico não valeu a pena, acusando uma lipoaspiração “ultra superficial” nas costas.

Ela aceitou uma reparadora em 2017, mas continuou insatisfeita. A reportagem cita prontuários hospitalares com duração de 15 minutos no primeiro procedimento e 25 minutos no segundo, e relata que houve acordo com devolução do valor investido.

Ao comentar o caso, Maurino Grossi disse que não se lembra da paciente e afirmou ser impossível uma lipo de costas ter durado apenas 15 minutos.

Sobre os processos, declarou ter 20 anos de profissão e estimou ter feito quase 10 mil cirurgias, defendendo que a definição de erro depende de perícia. Também disse que, hoje, faz uma ou duas cirurgias por dia, e que, no passado, fazia no máximo quatro.

A reportagem traz ainda um caso descrito como mais grave: Rosimar Cordeiro Messias, 53, de Crucilândia (MG), a cerca de cinco horas de carro de Ubá.

Ela relata ter sido atraída por cirurgias acessíveis antes da fama nas redes, e diz que operou no dia 2 de novembro visando estar bem para uma viagem à praia em janeiro.

Afirma que pagou R$ 6.400 por mamoplastia (retirada de excesso dos seios) e abdominoplastia, e que uma inflamação evoluiu para ferida profunda com secreção amarelada e sinais claros de infecção, deixando-a de cama por sete meses.

Segundo a reportagem, por e-mail, uma filha enviava imagens ao consultório e recebia orientações assinadas por uma secretária, com recomendações de limpeza com gaze e soro e remédios para dor.

Rosimar diz que voltou quatro vezes ao consultório, encarando viagens de 10 horas de carro, ida e volta, e afirma ter seguido os cuidados indicados.

Ela conta ainda que, em uma visita, foi atendida apenas pela enfermeira, que teria cortado parte da gordura da ferida sem que o cirurgião a visse.

Ao final, Rosimar relata que fechou a ferida com sessões de laser para regeneração e cicatrização, gastando grande parte das economias.

Também diz que desenvolveu depressão e que, cerca de um mês após a cirurgia, parou de se alimentar e precisou de atendimento com soro.

A reportagem afirma que o advogado de Júlio Cesar Ferreira argumentou que pontos podem se abrir se a paciente não obedecer ao repouso orientado na alta ou não fizer os cuidados após voltar para casa, e que o acompanhamento exige retorno nas datas pré-agendadas.

O advogado também nega uma fala atribuída ao médico sobre impedir a paciente de entrar na Justiça por ter “muitos advogados”.

O que considerar antes de operar, segundo especialista

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O médico Marcelo Sampaio, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, apontou fatores essenciais para reduzir riscos. A lógica é simples: preço não pode substituir segurança.

Ele recomenda buscar indicações confiáveis, entender quem indicou e como foi a experiência no pré e no pós-operatório.

Também sugere confirmar se o profissional é habilitado, com checagem no CRM ou na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, além de exigir que o médico explique resultados possíveis e riscos. Se o profissional só mostra o lado bom, a orientação é desconfiar.

Outro ponto é verificar onde a cirurgia acontece: hospital autorizado, com estrutura adequada e registrado na Anvisa.

Alerta do CFM e o limite entre economia e risco

Consultado pela BBC, o Conselho Federal de Medicina (CFM) disse não haver processo administrativo em curso contra os dois médicos citados.

Ainda assim, o CFM alertou que valores atrativos podem ocorrer com supressão de condições mínimas de segurança e precariedade de estrutura, colocando em risco a vida, a saúde e a segurança das pessoas.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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