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Especialistas alertam que cidade brasileira será segundo centro urbano mais quente do mundo: capital do Pará, ferve com calor extremo, falta de árvores, alagamentos e injustiça ambiental, enquanto periferias viram piscinas e ilhas sofrem

Publicado em 11/12/2025 às 15:09
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Belém enfrenta calor extremo e injustiça ambiental; mudança climática ameaça tornar a cidade o segundo centro urbano mais quente do mundo.
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Estudo climático projeta Belém como segundo centro urbano mais quente do mundo até 2050, com 222 dias de calor extremo, chuvas concentradas, alagamentos, pouca arborização e periferias transformadas em piscinas, enquanto COP30 expõe desigualdade e pressiona poder público por justiça ambiental e adaptação real em Belém e na Amazônia inteira.

Em dezembro, enquanto vídeos gravados na noite de 25 de dezembro mostravam famílias do bairro da Terra Firme passando o Natal tirando água de dentro de casa, Belém já carregava uma marca alarmante. Um estudo da ONG CarbonPlan, em parceria com o jornal The Washington Post, projeta que a capital do Pará será o segundo centro urbano mais quente do mundo até 2050, com até 222 dias de calor extremo por ano, depois de anos já recordes de temperatura em 2023 e 2024 e enchentes severas registradas em 2023.

Na cidade que já passa de 1,3 milhão de habitantes, e supera 2,2 milhões se considerados os municípios do entorno, o calor que muitos definem como “um calor que nunca sentimos antes” muda rotinas, estica a estiagem, concentra tempestades, transforma ruas em piscinas e escancara uma injustiça ambiental que pesa mais sobre periferias e ilhas ribeirinhas, justamente quando Belém se prepara para receber a COP30 e tenta provar que pode enfrentar o próprio futuro climático.

Calor diário, chuva atrasada e cidade com poucas árvores

Durante décadas, a “chuva da tarde” organizava a vida da população. Compromissos eram marcados antes ou depois do famoso “toró” entre duas e meia e quatro da tarde. Moradores contam que há dois ou três anos esse relógio natural quebrou, com a chuva chegando mais tarde, em menos dias e concentrada em episódios muito intensos.

No lugar da pancada de chuva previsível, a regra passou a ser a quentura. Moradores relatam que em 2024 a estação chuvosa demorou a começar, com meses em que predominavam sol forte e sensação térmica próxima de 40 graus. A sombrinha, que antes servia para a chuva, virou escudo contra o sol.

Nas zonas menos arborizadas, o desconforto é ainda maior. Apesar de estar no coração da Amazônia, Belém tem uma média de apenas 2,5 metros quadrados de cobertura vegetal por habitante, bem abaixo dos 9 a 12 recomendados pela Organização Mundial da Saúde.

Árvores na rua são raras em muitas comunidades e, em vários bairros, só aparecem nos quintais das casas ou em pequenos parques.

No centro mais arborizado, a cientista social Vic Argôlo adaptou a rotina doméstica ligando dois ventiladores ao mesmo tempo para criar uma corrente de ar dentro de casa. Mesmo assim, ela relata que, depois das nove da manhã, o calor sobe rapidamente até o meio do dia.

A chef de cozinha Sheila Azevedo enfrenta o calor das panelas e do fogão e, em casa, instalou ventiladores e ar-condicionado em vários ambientes para conseguir atravessar as tardes. A sensação é de que a própria cidade virou uma estufa.

Quando até a ilha do Combu sente o calor extremo

Ao deixar a área urbana e seguir de barco para a zona ribeirinha, a promessa de alívio térmico já não é a mesma. Belém é formada também por dezenas de ilhas, onde vivem pelo menos 40 mil pessoas.

A ilha do Combu, destino favorito de moradores e turistas nos fins de semana, sente a mudança.

Ribeirinhos relatam que, principalmente neste último ano, a temperatura subiu tanto que frutas chegaram a perder as flores e cair, prejudicando a produção.

Moradores descrevem “uma quentura desordenada” mesmo cercados por floresta e água, algo que nunca haviam experimentado.

Ao mesmo tempo, o turismo de massa, que leva banhistas aos rios e às piscinas dos restaurantes, já começa a pressionar o ecossistema local.

Lideranças comunitárias diferenciam o turismo que gera renda e respeita a ilha daquele que deixa lixo, desrespeita moradores e aumenta a pressão ambiental sobre um território já afetado pelo aquecimento.

Floresta em adaptação forçada: andiroba, cacau e renda em risco

Na ilha do Combu, a Associação de Mulheres Extrativistas reúne trabalhadoras que tradicionalmente coletam e beneficiam a semente de andiroba, usada para produzir óleo medicinal.

Elas contam que a produção “era bem mais intensa” e caiu justamente no ano em que o calor apertou e as chuvas se desorganizaram, impacto direto das mudanças climáticas que há anos eram discutidas e agora são sentidas no dia a dia.

Diante da baixa colheita, as extrativistas se adaptaram. Passaram a desidratar folhas de cacau para produzir embalagens ecológicas, adicionando novas fontes de renda a partir da própria floresta.

A criatividade feminina tenta compensar a perda, mas o recado é claro: a economia local, baseada em recursos naturais, já está em processo de adaptação forçada.

Artesãos como Charles Teles, que vivem do turismo de imersão e do artesanato, também notam a mudança.

Ele relata que a temperatura subiu tanto que camarões desapareceram do rio há cerca de dois anos, deixando de ser opção de pesca para consumo próprio. Entre árvores e igarapés, a percepção é de um calor que gera quase desespero.

Periferias que viram piscinas e a face mais dura da injustiça ambiental

Se até o centro arborizado e as ilhas sentem a mudança, a situação é ainda mais extrema onde predominam concreto, asfalto e pouca vegetação.

Nos bairros periféricos, o professor Rodrigo Rafael, da Universidade do Estado do Pará, fala em “injustiça ambiental”.

São áreas marcadas por pobreza, criminalidade, baixo índice de cobertura vegetal e alta exposição a ondas de calor, alagamentos e eventos climáticos extremos.

A Terra Firme é um exemplo dessa combinação explosiva. O bairro cresceu sobre áreas alagadas e, recentemente, recebeu obras de saneamento com asfaltamento de vias e redes de esgoto.

Moradores explicam que a rua foi elevada, mas as casas ficaram em nível mais baixo, abaixo da cota do asfalto. Com chuvas mais intensas, as residências se transformam em verdadeiras piscinas.

Vídeos gravados por Andrew Leal na noite de 25 de dezembro mostram uma família passando o Natal tirando água de dentro de casa. Pequenas barreiras improvisadas na porta não foram suficientes para conter o alagamento.

As obras prometiam reduzir enchentes, mas criaram um novo problema estrutural em plena periferia.

Além da água que entra pela frente e pelo banheiro, o calor extremo continua dentro das casas. Em uma residência onde vivem pai, mãe, irmão e tia, apenas dois ventiladores dão conta, com esforço, de refrescar os cômodos.

Em dias de seca, a estratégia é deitar diretamente na lajota, o piso mais frio disponível. Mas nem o banho oferece alívio total, já que o sol bate direto no banheiro e aquece a água o dia inteiro.

Belém rumo ao segundo centro urbano mais quente do mundo

Os sinais acumulados em Belém compõem o cenário descrito pelo estudo que coloca a cidade no caminho para se tornar o segundo centro urbano mais quente do mundo até 2050.

A projeção indica até 222 dias de calor extremo por ano, com risco real para a saúde humana, ante cerca de 50 dias desse tipo no início dos anos 2000.

O climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, resume o quadro ao afirmar que “os extremos estão ficando mais extremos”.

A estação chuvosa começa mais tarde, a estiagem fica mais longa e mais quente, e os eventos de chuva forte se concentram em poucos dias, capazes de produzir inundações como as registradas em diferentes regiões de Belém em 2023.

Modelos de clima para 2050 apontam aumento de temperatura, maior número de dias com ondas de calor e redução da precipitação na região leste da Amazônia.

Isso não significa ausência de temporais, mas menos dias de chuva distribuída ao longo do ano e mais episódios de chuva intensa que provocam alagamentos. Nesse cenário, uma Belém impermeabilizada, com canais ocupados e pouca arborização, fica ainda mais vulnerável.

Canais, bacias e uma cidade impermeabilizada às pressas

Belém é frequentemente comparada a uma “Veneza amazônica”, cortada por oito grandes bacias e vários canais. Na prática, porém, muitos desses cursos d’água foram maltratados ao longo dos anos.

Trechos que deveriam ser áreas verdes e de infiltração foram pavimentados. O concreto se espalhou sobre margens que, em teoria, deveriam ser vegetadas.

Boa parte das obras recentes se concentra justamente em canais e drenagem, em preparação para a Conferência do Clima da ONU, a COP30, que Belém vai sediar em novembro.

O objetivo é tornar a cidade mais resiliente, reduzindo enchentes e impactos de chuvas concentradas. A Secretaria de Obras Públicas afirma que ainda vai concluir intervenções e direcionar melhor o escoamento da água na Terra Firme e em outros bairros.

Pesquisadores alertam, porém, que não basta abrir galerias e elevar ruas sem pensar nas casas, nas áreas verdes e nos corpos d’água que ainda resistem.

Uma cidade que impermeabiliza demais o solo e reduz a vegetação perde sua capacidade de absorver chuvas fortes e de amenizar o calor, o que reforça a trajetória rumo ao segundo centro urbano mais quente do mundo.

Carros, bicicletas e a desigualdade na mobilidade

Outro elemento do problema climático de Belém está no trânsito. Especialistas ouvidos por organizações locais apontam os carros como principais emissores de gases de efeito estufa na cidade e na região metropolitana.

Com transporte público precário, muitos moradores optam por veículos particulares.

Belém tem cerca de 160 quilômetros de ciclovias, de acordo com autoridades locais, mas os carros ainda dominam as ruas.

A bicicleta, que poderia ser aliado poderoso contra a crise climática, enfrenta falta de infraestrutura, insegurança viária e calor extremo nas vias asfaltadas, fatores que afastam parte da população.

A ativista Ruth Costa, criadora do projeto Pedala Mana, trabalha para estimular o empoderamento feminino através da bicicleta em vários bairros da região metropolitana.

Ela lembra que a periferia, no Pará e no Brasil inteiro, é justamente a que mais usa a bicicleta no cotidiano.

Em sua visão, discutir crise climática sem pensar em mobilidade ativa, calçadas estruturadas, ciclovias seguras e outras formas de deslocamento não motorizado é uma contradição.

Sociedade civil reage e disputa o futuro climático da cidade

Diante do calor extremo, das enchentes e da desigualdade, movimentos da sociedade civil se organizam para disputar o rumo do planejamento climático de Belém.

Em encontros que reúnem coletivos, associações e lideranças, são discutidos problemas e apresentadas propostas para políticas públicas que evitem o destino infernal projetado até 2050.

A ativista Waleska Queiroz, que integra os movimentos COP das Baixadas e Observatório das Baixadas, atua há 15 anos na defesa do direito à cidade e da justiça climática para populações vulneráveis.

Ela lembra que as periferias são “zonas de sacrifício”, marcadas pela falta de saneamento, de acesso à água e de direitos básicos, e que as desigualdades se agravam quando se combinam com ondas de calor, secas e cheias.

Segundo Waleska, a luta dos territórios periféricos é por reconhecimento, indenizações, melhoria nos serviços públicos e participação real na definição de políticas climáticas.

O deslocamento diário de moradores, muitas vezes afetado por alagamentos, falta de transporte digno e longas distâncias, é outro ponto sensível em um contexto de aquecimento acelerado.

Plano climático até 2050 e a COP30 como teste decisivo

No fim de 2024, Belém aprovou um plano climático que vai além de uma única gestão municipal. O então coordenador do Fórum Climático da cidade e assessor especial da COP30, Sérgio Brazão, ressaltou que se trata de um documento pensado para todos os prefeitos que administrarão Belém até 2050.

Entre as prioridades, está o combate à injustiça climática em áreas de alagamento, com foco em arborização e infraestrutura adaptada.

O Fórum Municipal de Belém surgiu da pressão direta da sociedade civil e hoje reúne moradores de periferias, quilombolas e povos indígenas para discutir pautas climáticas e construir políticas voltadas à cidade.

É um espaço em que comunidades historicamente excluídas colocam suas próprias propostas na mesa de decisão, em vez de apenas reagirem a projetos prontos.

Pesquisadores lembram que resiliência não é só um decreto. Exige redução de riscos, melhoria na distribuição de água e esgoto, qualificação da moradia e uma verdadeira revolução social e econômica que coloque as populações vulneráveis no centro da adaptação.

Tanto especialistas quanto ativistas insistem em um ponto: se as ações humanas ajudaram a criar o problema, são as ações humanas que precisarão construir a solução.

Belém, Amazônia e um problema que não respeita fronteiras

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Mesmo com todas as iniciativas locais, a mensagem dos especialistas é que não há solução para Belém sem uma solução internacional para a crise climática.

Assim como não há saída isolada para a Amazônia, para a Inglaterra ou para a Alemanha. A atmosfera não respeita fronteiras políticas, e o que é emitido em um país afeta o clima do outro.

Belém, porém, é um símbolo incômodo dessa crise global. Uma grande cidade amazônica, rodeada de rios e floresta, que pode se tornar o segundo centro urbano mais quente do mundo em poucas décadas, enquanto ainda convive com saneamento precário, ruas que viram rios, casas que viram piscinas e famílias que enfrentam noites sufocantes com apenas dois ventiladores.

Às vésperas da COP30, o futuro da capital paraense será observado de perto por quem vive lá e por quem acompanha a emergência climática no mundo.

A pergunta que fica é se o plano até 2050, a pressão social e as decisões políticas serão suficientes para frear a trajetória que empurra Belém para esse destino extremo.

E você, na sua opinião, o que deveria ser prioridade absoluta hoje para evitar que Belém se confirme como o segundo centro urbano mais quente do mundo?

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Saraiva
Saraiva
12/12/2025 08:06

Governantes **** e incompetentes. Na maioria das cidades paraenses só colocam plantas ornamentais pequenas nas praças e canteiros centrais, quando colocam. Para piorar promovem o desmatamento em geral. Cortes de árvores nas cidades fora de controle.

Luis Carlos
Luis Carlos
11/12/2025 22:21

Justiça ambiental? Kkkkkkkk

Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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