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Califórnia quer cavar um túnel de 72 km e 11 metros de largura capaz de engolir mais de 609 milhões de litros por hora durante “rios atmosféricos”, guardar a enxurrada para secas e proteger o abastecimento de 27 milhões de pessoas

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Escrito por Ana Alice Publicado em 11/07/2026 às 21:45 Atualizado em 11/07/2026 às 21:47
Assista o vídeoCalifórnia planeja túnel de 72 km para captar água de tempestades, enfrentar secas e reforçar o abastecimento de 27 milhões de pessoas. (Imagem: Ilustrativa)
Califórnia planeja túnel de 72 km para captar água de tempestades, enfrentar secas e reforçar o abastecimento de 27 milhões de pessoas. (Imagem: Ilustrativa)
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Projeto de túnel no Delta da Califórnia prevê captar água de grandes tempestades, ampliar reservas contra secas e abastecer milhões, enquanto enfrenta críticas ambientais, disputa política e custo bilionário estadual crescente.

A Califórnia tenta avançar com um dos projetos hídricos mais discutidos dos Estados Unidos: um túnel subterrâneo de cerca de 72 quilômetros, planejado para captar parte da água do rio Sacramento durante grandes tempestades e levá-la ao sistema estadual de reservatórios e canais.

A obra, conhecida como Delta Conveyance Project, é apresentada pelo governo estadual como resposta à combinação de secas prolongadas, chuvas extremas e risco de perda de abastecimento provocado pelas mudanças climáticas.

O projeto prevê um único túnel com aproximadamente 11 metros de diâmetro, dimensão suficiente para transportar mais de 161 milhões de galões por hora, o equivalente a mais de 609 milhões de litros por hora.

A proposta é usar essa capacidade em eventos de chuva intensa, especialmente os chamados rios atmosféricos, tempestades capazes de despejar grandes volumes de água sobre a Califórnia durante a estação chuvosa.

A versão atual do plano é defendida pelo governo do governador Gavin Newsom e substitui uma proposta anterior, do governo Jerry Brown, que previa dois túneis.

Em junho de 2026, o projeto recebeu pareceres biológicos federais relacionados à Lei de Espécies Ameaçadas, etapa descrita pelo governo estadual como um avanço no processo de planejamento e licenciamento.

Apesar desse avanço, não há confirmação de início de construção nem data definida para operação.

O túnel ainda depende de etapas regulatórias, financeiras e jurídicas, além de seguir sob forte contestação de grupos ambientais, comunidades do Delta Sacramento-San Joaquin e representantes políticos do Vale Central.

O custo estimado também aumentou.

Em 2024, o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia divulgou análise que elevou o valor previsto da obra para US$ 20,1 bilhões.

A estimativa anterior, de 2020, era de US$ 16 bilhões.

Segundo o governo estadual e a Associated Press, a alta foi atribuída principalmente à inflação registrada após a pandemia.

Delta Conveyance Project

O Delta Conveyance Project faz parte de uma tentativa de modernizar o State Water Project, sistema de reservatórios, barragens, canais, usinas e estações de bombeamento que leva água do norte para regiões do centro e do sul da Califórnia.

Esse sistema atende cerca de 27 milhões de pessoas e irriga aproximadamente 750 mil acres de terras agrícolas, segundo o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia.

A água é usada por cidades, áreas industriais e propriedades rurais, especialmente em regiões que dependem do abastecimento transportado a longas distâncias.

A proposta do túnel é alterar a forma como parte dessa água atravessa o Delta Sacramento-San Joaquin.

Em vez de depender apenas da infraestrutura atual, o projeto criaria uma nova captação no norte do Delta, ligada por túnel a instalações já conectadas ao State Water Project.

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Na prática, o governo afirma que isso permitiria retirar mais água em períodos de vazão alta, quando tempestades elevam o volume dos rios, e armazená-la para uso posterior.

A lógica é capturar parte da água em anos úmidos para reduzir perdas em anos secos.

A ideia não é nova.

Autoridades da Califórnia discutem versões de um sistema de túneis ou canais no Delta há décadas.

A versão de Newsom reduziu o plano a um túnel, mas manteve a essência da proposta: criar uma rota subterrânea para aumentar a flexibilidade do transporte de água.

Rios atmosféricos e secas na Califórnia

A justificativa climática é um dos pontos centrais do projeto.

A Califórnia enfrenta alternância entre secas severas e tempestades muito intensas, situação que dificulta o armazenamento e a distribuição de água.

Os rios atmosféricos são faixas de umidade que transportam grandes volumes de vapor d’água pelo céu e podem provocar chuvas prolongadas ao atingir a costa oeste dos Estados Unidos.

Em alguns anos, esses eventos ajudam a repor reservatórios; em outros, causam enchentes, deslizamentos e danos a comunidades.

Segundo o governo estadual, se o túnel estivesse em operação durante eventos recentes, o sistema poderia ter captado água suficiente para abastecer milhões de pessoas por um ano.

Esse cálculo aparece em materiais oficiais como argumento a favor da obra, mas é contestado por opositores que questionam custos, impactos e prioridades de investimento.

A preocupação do governo também envolve a redução da neve na Sierra Nevada.

Historicamente, a neve acumulada nas montanhas funcionou como uma espécie de reservatório natural, derretendo aos poucos e alimentando rios e sistemas de abastecimento.

Com temperaturas mais altas, a tendência apontada por autoridades estaduais é de menos neve, derretimento mais rápido e maior dificuldade de capturar água no momento em que ela está disponível.

O governo da Califórnia afirma que o Estado pode perder 10% de sua oferta de água até 2040 em razão de condições mais quentes e secas, enquanto a confiabilidade do State Water Project poderia cair em até 23%.

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Custo de US$ 20,1 bilhões

A análise de custo-benefício divulgada em maio de 2024 estimou o custo do túnel em US$ 20,1 bilhões e apontou benefícios de cerca de US$ 38 bilhões.

O estudo foi conduzido pelo Berkeley Research Group e pago pelo Estado.

Segundo o Departamento de Recursos Hídricos, os benefícios viriam principalmente de maior confiabilidade no abastecimento, adaptação climática, proteção contra terremotos e melhora na qualidade da água.

O relatório também afirma que, para cada dólar gasto, haveria US$ 2,20 em benefícios.

David Sunding, professor emérito da Universidade da Califórnia em Berkeley e responsável pela análise, afirmou que os benefícios justificariam os custos.

A frase foi divulgada pelo governo estadual e reproduzida pela Associated Press.

“O projeto passa no teste de custo-benefício com facilidade, com benefícios que são mais que o dobro do custo”, disse Sunding, segundo o Departamento de Recursos Hídricos.

O financiamento, porém, é uma das partes mais sensíveis da proposta.

A obra não seria paga diretamente pelo orçamento geral do Estado, mas por agências públicas locais de água que participam do State Water Project e obtêm recursos de seus consumidores.

Esse ponto alimenta críticas sobre impacto nas tarifas.

Grupos contrários afirmam que moradores e usuários de água poderiam acabar pagando por uma obra cara, enquanto alternativas como conservação, reciclagem, captação local e restauração ambiental receberiam menos prioridade.

Delta Sacramento-San Joaquin

A principal área afetada pela obra é o Delta Sacramento-San Joaquin, maior estuário da costa oeste dos Estados Unidos.

A região abriga comunidades rurais, áreas agrícolas, canais, ilhas, zonas úmidas e espécies ameaçadas de peixes.

Navio navegando pelo Delta dos rios Sacramento e San Joaquin - Imagem: A
Navio navegando pelo Delta dos rios Sacramento e San Joaquin – Imagem: A

Grupos ambientais afirmam que a construção e a operação do túnel poderiam causar danos ao ecossistema do Delta, já pressionado por redução de vazões, alteração de habitat, bombeamento de água, espécies invasoras e mudanças climáticas.

Entre as espécies citadas no debate estão salmões e outros peixes ameaçados.

A análise divulgada pelo Estado reconhece impactos ambientais, incluindo perda de terras agrícolas, efeitos sobre a qualidade da água, transporte, ruído e qualidade do ar durante a construção.

O governo afirma que o projeto inclui medidas de mitigação e recursos para áreas afetadas.

Segundo a Associated Press, o plano prevê US$ 200 milhões em subsídios para projetos locais em comunidades impactadas pela construção.

Críticos consideram o valor insuficiente diante da escala da obra.

Barbara Barrigan-Parilla, diretora executiva da organização Restore the Delta, criticou o projeto e defendeu investimentos em soluções que, segundo ela, restaurem o ecossistema do Delta em vez de ampliaram os impactos sobre a região.

“Em vez de empurrar os custos desse projeto para os californianos, o Estado deveria investir em soluções sustentáveis de água que prometam restaurar o ecossistema do Delta, não destruí-lo”, afirmou.

Disputa política no Vale Central

Além da discussão ambiental, o túnel se tornou tema de disputa política no Vale Central.

A região inclui comunidades agrícolas que veem o projeto como uma nova tentativa de deslocar água do norte para beneficiar áreas urbanas e agrícolas mais ao sul.

Embora grande parte da população da Califórnia esteja no sul do Estado, boa parte da água nasce ou passa por regiões do norte.

Essa divisão histórica sustenta conflitos sobre quem deve receber água, quanto deve ser exportado e quais comunidades arcam com os impactos ambientais.

O deputado federal Josh Harder, democrata que representa comunidades como Stockton, Lodi e Galt, criticou a análise de custo-benefício e afirmou que o túnel beneficiaria áreas ricas enquanto deixaria comunidades do Delta em situação vulnerável.

“Essa nova análise reconhece o que já sabíamos: o Delta Tunnel foi feito para beneficiar Beverly Hills e deixar as comunidades do Delta sem água”, disse Harder à Associated Press.

A fala reflete a oposição de parte do Vale Central, onde o projeto é associado a disputas antigas sobre transferência de água.

No Legislativo estadual, propostas para acelerar ou beneficiar diretamente a construção do túnel enfrentaram resistência.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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