Projetos em São Paulo e Santa Catarina colocam o Brasil perto de inaugurar uma tecnologia inédita em sua infraestrutura viária, com túneis imersos planejados para encurtar travessias, preservar a navegação portuária e reorganizar deslocamentos em regiões marcadas por balsas, rodovias congestionadas e longas esperas.
O Brasil se prepara para construir seus primeiros túneis imersos em dois corredores urbanos separados por áreas portuárias: a ligação Santos-Guarujá, no litoral de São Paulo, e a conexão entre Itajaí e Navegantes, no litoral norte de Santa Catarina.
Com contrato mais avançado e cronograma público definido, a obra paulista deve iniciar a operação em 2031, enquanto o projeto catarinense ainda passa por estruturação técnica e financeira antes de chegar à etapa de execução.
A disputa simbólica pelo primeiro túnel imerso do país ganhou força porque as duas soluções enfrentam problemas parecidos de mobilidade urbana, sobretudo em cidades vizinhas que dependem de canais de navegação, balsas, rodovias ou rotas mais longas.
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Nessas regiões, cada travessia pode envolver esperas, desvios e pressão sobre vias já carregadas, cenário que ajuda a explicar a escolha por estruturas subterrâneas capazes de conectar margens opostas sem bloquear a operação dos portos.
Túnel Santos-Guarujá lidera a corrida no litoral paulista
No litoral paulista, o túnel Santos-Guarujá saiu na frente por já ter passado pelo leilão, formalizado a parceria público-privada e entrado na etapa de preparação do contrato com a concessionária responsável pela obra.
Segundo o site oficial do projeto, a ligação prevê R$ 6,8 bilhões em investimentos e deve reduzir a travessia entre as duas cidades para menos de cinco minutos quando estiver em operação.
A estrutura terá 1,5 quilômetro de extensão total, com 870 metros submersos sob o canal portuário, em um traçado planejado para integrar mobilidade urbana, circulação de veículos, transporte público e deslocamentos não motorizados.
Além das três faixas por sentido, o projeto contempla passagem para pedestres e ciclistas, galeria de serviços e faixa exclusiva para Veículo Leve sobre Trilhos, ampliando o alcance da ligação para além do tráfego comum.

Responsável pela concessão, a empresa portuguesa Mota-Engil assumiu a construção, a operação e a manutenção da estrutura após a assinatura do contrato de PPP em 2026, etapa posterior à adjudicação e à homologação concluídas em 2025.
Ainda em 2026, o cronograma prevê a elaboração dos projetos funcional e executivo, além de estudos complementares necessários para viabilizar a implantação e organizar a preparação das frentes de trabalho.
A partir de 2027, devem ocorrer a mobilização dos canteiros, a construção da doca seca e as dragagens preliminares, fase que marca o avanço prático da obra antes da fabricação dos módulos de concreto.
Pelo planejamento divulgado, esses módulos serão produzidos em 2028 e imersos em 2029, enquanto 2030 ficará reservado ao acabamento, à instalação de sistemas e aos testes operacionais anteriores à abertura da ligação.
Obra imersa deve reduzir tempo de travessia entre Santos e Guarujá
Escolhido para reduzir interferências sobre a navegação, o método imerso permite fabricar módulos fora do canal e posicioná-los no leito submerso, estratégia considerada relevante em áreas onde o fluxo de navios precisa ser preservado.
Em Santos, essa condição tem peso especial porque a ligação passará sob uma das áreas portuárias mais relevantes do país, onde interrupções prolongadas poderiam afetar a movimentação de cargas e a rotina logística regional.
Na prática, a obra busca substituir uma travessia historicamente dependente de balsas ou de deslocamentos rodoviários mais extensos, alternativas que podem aumentar o tempo de viagem em períodos de maior movimento.
Quem circula entre Santos e Guarujá hoje depende de opções sujeitas a filas, retenções e variações de demanda, especialmente em horários de pico, feriados e temporadas de maior circulação no litoral paulista.
Para o governo paulista, o túnel combina mobilidade regional, logística, transporte público e integração urbana, com acompanhamento e fiscalização da Agência de Transporte do Estado de São Paulo e do Governo de São Paulo.
Túnel Itajaí-Navegantes avança com modelagem de PPP
Em Santa Catarina, a ligação entre Itajaí e Navegantes integra o Promobis, programa de mobilidade da Foz do Rio Itajaí voltado a reorganizar deslocamentos em uma região marcada por atividade portuária intensa.
O projeto prevê um túnel imerso sob o Rio Itajaí-Açu, criando uma conexão direta entre duas cidades que hoje concentram fluxo elevado de veículos e dependem de alternativas viárias pressionadas pela dinâmica regional.

Em dezembro de 2025, a Secretaria Executiva de Articulação Internacional de Santa Catarina informou que o Senado aprovou financiamento de US$ 90 milhões junto ao Banco Mundial para o Promobis.
Somadas as contrapartidas e a previsão de capital privado, o pacote foi estimado em US$ 366 milhões, cerca de R$ 2 bilhões na cotação informada pelo governo catarinense naquele anúncio.
O desenho financeiro combina empréstimo internacional, participação municipal, apoio estadual e previsão de recursos privados por meio de PPP, estrutura que ainda exige modelagem antes da definição da empresa responsável pela obra.
Esse caminho ajuda a explicar por que o empreendimento catarinense está em etapa menos avançada que o projeto paulista, embora já faça parte de um programa regional com financiamento internacional autorizado.
Planejada para evitar a construção de uma ponte sobre o canal, a solução imersa busca preservar a navegação e reduzir exigências estruturais que poderiam surgir em uma travessia elevada sobre área portuária.
Ao passar por baixo do rio, o túnel tende a criar uma ligação direta entre Itajaí e Navegantes sem impor obstáculos à circulação de embarcações, ponto central para cidades conectadas à atividade portuária.
Primeiro túnel imerso do Brasil deve sair em São Paulo
Pelo estágio atual, São Paulo aparece em vantagem na corrida pelo primeiro túnel imerso do Brasil, já que o projeto Santos-Guarujá reúne contrato assinado, concessionária definida, cronograma público e previsão de operação em 2031.
No caso catarinense, o Promobis conta com financiamento internacional autorizado e previsão de investimentos privados, mas ainda depende de contratação de estudos, modelagem da parceria e futura licitação para avançar ao canteiro.
Embora os prazos sejam diferentes, os dois projetos indicam uma mudança no modo como regiões portuárias brasileiras começam a discutir mobilidade, especialmente onde pontes, balsas e rotas rodoviárias não resolvem sozinhas a demanda.
Quando as estruturas estiverem prontas, o impacto mais direto será percebido por moradores, trabalhadores e transportadores que atravessam áreas onde a água separa trajetos curtos, mas impõe esperas longas e deslocamentos pouco eficientes.
Qual das duas ligações deve transformar mais a rotina de quem atravessa essas cidades todos os dias?
