O caso de Cícero Pereira Batista mostra como o custo de permanência ainda decide quem consegue chegar ao diploma de medicina no Brasil. Antes da bolsa integral, ele tentou pagar faculdade particular, recorreu ao Fies, refez o Enem e dependeu de livros gratuitos para seguir estudando.
A formatura de Cícero Pereira Batista em medicina, em 6 de junho de 2014, expôs um problema que vai além de uma trajetória individual. Para estudantes de baixa renda, entrar em uma graduação cara como medicina é apenas a primeira barreira. Permanecer no curso exige mensalidade, transporte, alimentação, moradia, livros e tempo disponível para estudar.
Natural de Taguatinga, no Distrito Federal, Cícero tentou cursar medicina em instituições particulares antes de conseguir estabilidade acadêmica. Segundo reportagem do UOL Educação, ele chegou a ganhar cerca de R$ 1.300 por mês enquanto enfrentava uma mensalidade de aproximadamente R$ 1.400 em uma faculdade de medicina em Araguari, Minas Gerais.
O caso ajuda a entender o papel de programas como Enem, Prouni e Fies na formação de alunos que não teriam condições de bancar uma graduação privada de longa duração. Cícero não chegou ao diploma por um caminho linear. Ele interrompeu o curso, voltou ao DF, refez prova, mudou de cidade e recomeçou disciplinas.
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A história dos livros encontrados no lixo também entra nessa conta, mas não como detalhe emocional. Ela mostra a falta de acesso a material de leitura e repertório escolar em famílias pobres, um gargalo que começa antes do vestibular e acompanha o estudante até a faculdade.
A mensalidade de medicina era maior que a renda mensal disponível
A primeira tentativa de Cícero na medicina começou em 2006, em Araguari. O problema não era apenas ser aprovado. A conta mensal ficava acima do que ele recebia no trabalho, sem considerar deslocamento, alimentação e materiais de estudo.
Durante a semana, ele frequentava as aulas em Minas Gerais. Nos fins de semana, voltava para Brasília para trabalhar e tentar manter o curso. Esse tipo de rotina mostra uma dificuldade comum para alunos de baixa renda em cursos integrais ou de alta carga horária.
Medicina costuma exigir dedicação intensa, aulas práticas, estágio, plantões e material específico. Quando o estudante precisa trabalhar para pagar a própria permanência, o custo não aparece apenas no boleto da faculdade. Ele aparece no cansaço, no tempo perdido em deslocamento e na dificuldade de estudar fora da sala.
Cícero chegou a recorrer ao Fies por seis meses. O Fundo de Financiamento Estudantil, conforme descrição do Ministério da Educação, financia cursos superiores não gratuitos em instituições privadas bem avaliadas pelo MEC.
Mesmo com o financiamento, a permanência dele continuou inviável naquele momento. Depois de cerca de um ano e meio, ele deixou o curso e voltou para Brasília.
O Enem virou a porta para disputar uma bolsa e reduzir o maior custo da graduação
Após interromper a primeira tentativa, Cícero usou o Enem como caminho para tentar uma bolsa. A prova passou a funcionar, nesse caso, como acesso a políticas públicas de ensino superior, não apenas como avaliação escolar.
O Inep informa que as notas do Enem podem ser usadas para acesso ao Sisu e ao Prouni, além de servirem para pleitear financiamento estudantil em programas do governo, como o Fies.
Cícero estudou por conta própria e fez a prova no fim de 2007. Com o resultado, conseguiu bolsa integral em uma universidade particular de Paracatu, também em Minas Gerais, a mais de 200 km de Brasília.
A distância, porém, ainda pesava. Depois de seis meses, ele voltou novamente ao DF. No ano seguinte, refez o Enem porque precisava estudar mais perto do trabalho e da família.
Com a nova nota, conseguiu bolsa integral na Faciplac, no Gama, região administrativa do Distrito Federal. A mudança reduziu o peso do deslocamento e retirou a mensalidade da equação, dois fatores decisivos para a permanência no curso.
O Prouni retirou o boleto da faculdade e mudou a viabilidade da formação
A bolsa integral do Prouni foi o ponto de virada porque atacou o maior custo direto da graduação. Sem a mensalidade, Cícero pôde reorganizar a rotina em torno do trabalho como técnico de enfermagem e das aulas de medicina.
Pelas regras informadas no Portal Único de Acesso ao Ensino Superior, a bolsa integral do Prouni cobre 100% do valor da mensalidade e exige renda familiar bruta mensal por pessoa de até 1,5 salário mínimo. A bolsa parcial cobre 50% e aceita renda per capita de até 3 salários mínimos.
No caso de Cícero, a bolsa não eliminou todos os custos. Transporte, alimentação, livros e tempo de estudo continuaram sendo barreiras reais. Ainda assim, sem o boleto mensal, a graduação deixou de ser financeiramente impossível.
O detalhe mais duro dessa virada é que ele precisou começar tudo de novo. Mesmo depois de já ter cursado cerca de dois anos de medicina em outras instituições, não conseguiu reaproveitar as disciplinas e reiniciou a graduação do zero.
Esse recomeço mostra outro entrave da formação superior. A transferência entre instituições nem sempre aproveita o percurso já feito, e o estudante pobre paga esse custo com mais anos de estudo, mais despesas indiretas e mais tempo até o diploma.
Livros gratuitos reduziram outra barreira que começa antes da faculdade
Antes de chegar ao Prouni, Cícero já tinha uma relação incomum com livros. Ainda criança, recolhia objetos no lixo e guardava exemplares descartados, mesmo quando ainda não sabia ler.
Com o tempo, esses livros passaram a aproximá-lo de ciências, biologia, história e geografia. Ele também relatou ter encontrado volumes de enciclopédia, material que ampliou o contato com assuntos que não faziam parte da rotina doméstica.
Na faculdade, o acesso a livros continuou necessário. Cícero utilizou obras de iniciativas gratuitas de leitura em Brasília, como projetos que emprestavam livros em espaços públicos e paradas de ônibus.
Esse ponto ajuda a tirar a história do campo da curiosidade individual. Para estudantes pobres, material didático não é detalhe. Sem livro, apostila, internet, transporte e alimentação, a nota de uma prova dificilmente se transforma em permanência real no ensino superior.
O caso expõe o peso das políticas de acesso na formação de médicos de baixa renda
Cícero se formou em medicina aos 33 anos, depois de quase oito anos de graduação e sucessivas tentativas para manter o curso. A trajetória dele mostra que a política educacional não termina na matrícula. Ela precisa alcançar a permanência.
Quando a mensalidade supera a renda, o estudante pode até entrar, mas dificilmente fica. Quando o curso fica longe do trabalho e da família, a bolsa resolve apenas parte do problema. Quando faltam livros e alimentação, a aprovação perde força.
O caso também ajuda a explicar por que cursos como medicina continuam associados a barreiras econômicas. A concorrência é alta, a carga horária é pesada e o custo indireto de estudar por anos pesa mais sobre quem já precisa trabalhar.
Cícero aparece nessa matéria como exemplo concreto de um mecanismo maior. Escola pública, Enem, Fies, Prouni, apoio de professores e acesso gratuito a livros formaram uma rede que reduziu obstáculos, ainda que de forma incompleta.
A pergunta que fica é menos sobre esforço individual e mais sobre estrutura. Quantos estudantes conseguem nota, interesse e capacidade para seguir em medicina, mas ficam pelo caminho por causa de mensalidade, transporte, fome, moradia ou falta de material? Deixe sua opinião nos comentários e conte se você conhece outro caso em que uma política de acesso mudou o rumo de uma formação profissional.

