Personal trainer, Laura Camily Rockenbach Marques corre para clínicas veterinárias, organiza campanhas de doação e cuida de animais que chegaram até ela depois de abandono, doenças e maus-tratos. Aos 22 anos, a moradora de Sinop, em Mato Grosso, mantém sob seus cuidados 30 cães em uma casa na cidade e 30 gatos em uma chácara.
A personal trainer Laura Camily Rockenbach Marques, de 22 anos, tenta transformar um trabalho voluntário feito há quatro anos em Sinop, em Mato Grosso, em um abrigo estruturado para animais resgatados. Hoje, ela cuida de cerca de 60 cães e gatos retirados de situações de abandono, sofrimento e maus-tratos.
O desafio mais urgente é financeiro. A jovem acumula aproximadamente R$ 34 mil em dívidas, sendo R$ 29 mil com atendimentos veterinários e outros R$ 5 mil relacionados à alimentação dos animais.
A ideia do abrigo não é manter os bichos isolados por tempo indeterminado. O projeto pensado por Laura é criar um espaço de recuperação, cuidado e adoção responsável, com estrutura para receber animais debilitados e prepará-los para novas famílias.
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O resgate começou em casos isolados e virou uma rotina de responsabilidade diária
Como informou o Primeira Página, Laura atua de forma independente há quatro anos no resgate de animais em Sinop. O trabalho começou com ajudas pontuais, mas cresceu conforme ela passou a encontrar cães e gatos em situações de abandono, doença ou risco.

A rotina dela é dividida entre os atendimentos como personal trainer, idas a clínicas veterinárias, compra de ração, limpeza dos espaços e busca por adotantes. Entre uma aula e outra, entram resgates, consultas, medicações, campanhas e transporte de animais.
Hoje, os animais ficam divididos em dois locais. São cerca de 30 cães em uma casa na cidade e 30 gatos em uma chácara, todos sob os cuidados diretos da protetora.
Entre os casos mais delicados está Nala, uma cadela resgatada no ano passado e tratada de um câncer. Mesmo após a recuperação, ela ainda não encontrou uma família definitiva, situação comum entre animais adultos ou que passaram por tratamentos longos.
A dívida de R$ 34 mil mostra o custo real de manter animais resgatados
O valor em aberto não surgiu de uma única despesa. Segundo o relato da protetora, os R$ 29 mil acumulados em clínica veterinária incluem internações, cirurgias, exames e tratamentos feitos ao longo dos resgates.
Além disso, há cerca de R$ 5 mil em alimentação. Para quem cuida de dezenas de animais, a ração não é uma despesa eventual. É um custo fixo, diário e difícil de adiar.
Laura afirma que, muitas vezes, não tem o valor integral à vista para cobrir as necessidades dos animais. Por isso, recorre a rifas, bazares, vendas beneficentes, campanhas e eventos solidários para quitar parte das contas.
Esse tipo de dívida é comum entre protetores independentes. Sem estrutura pública própria, muitos acabam bancando tratamentos emergenciais antes de saber se conseguirão doações suficientes para pagar a conta depois.
O abrigo planejado quer ser um local de passagem, não um depósito de animais
O sonho de construir um abrigo surgiu da necessidade de organizar melhor o atendimento aos animais resgatados. A proposta de Laura é ter um espaço próprio, com áreas adequadas para recuperação, alimentação, higienização e adaptação antes da adoção.
A jovem defende que o abrigo seja um ponto de recomeço. O objetivo não é apenas tirar cães e gatos da rua, mas permitir que recebam tratamento, ganhem peso, sejam acompanhados e tenham chance real de chegar a uma família responsável.
Outro eixo do projeto é a educação. Laura pretende desenvolver ações em escolas e comunidades para falar sobre respeito aos animais, abandono, castração, adoção responsável e cuidados básicos.
O trabalho já começa a envolver instituições de ensino. Faculdades, professores e estudantes têm participado de campanhas de arrecadação de produtos de limpeza, medicamentos, rações e outros itens usados na manutenção dos animais.
Abandono de animais também é um problema de saúde pública
A situação enfrentada em Sinop não é isolada. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, maus-tratos a animais são crime no Brasil pela Lei nº 9.605 de 1998. No caso de cães e gatos, a Lei nº 14.064 de 2020 elevou a pena para dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda.
O abandono pesa sobre protetores, clínicas, ONGs e famílias que tentam ajudar. Também cria problemas para a própria cidade, com animais vulneráveis a atropelamentos, fome, doenças e reprodução sem controle.
Segundo o CRMV-SP, a guarda responsável deve ser tratada como política de saúde pública. O conselho alerta que o abandono pode gerar sofrimento animal, acidentes em rodovias, disseminação de zoonoses e impactos sobre a fauna silvestre.
Em uma cidade em crescimento como Sinop, esse debate ganha mais força. O IBGE estima que o município chegou a 223.780 habitantes em 2025, o que aumenta a pressão sobre serviços urbanos, áreas de expansão e políticas locais de bem-estar animal.
Doações ajudam, mas adoção responsável reduz o ciclo de abandono
A ajuda mais imediata para o trabalho de Laura envolve ração, medicamentos, produtos de limpeza e recursos para quitar dívidas veterinárias. A higienização dos espaços precisa ser diária, especialmente quando há animais em recuperação, filhotes, idosos ou bichos recém-resgatados.
No caso das rações, a protetora orienta que as doações sejam combinadas previamente. Trocas frequentes de marca podem causar problemas digestivos, principalmente em animais debilitados ou em tratamento.
Mas o apoio não termina na doação. A adoção responsável é uma etapa decisiva para abrir vaga a novos resgates e evitar que o abrigo fique permanentemente lotado.
Adotar exige planejamento. O animal precisa de alimentação, vacina, castração, consulta veterinária, ambiente seguro e tempo de adaptação. Sem isso, o ciclo do abandono recomeça.
Uma causa sustentada por rifas, bazares e voluntários
Para manter os 60 animais, Laura organiza campanhas de arrecadação, eventos solidários, rifas e bazares. Cada ação ajuda a cobrir uma parte da demanda, mas a soma das despesas continua alta.
O caso mostra a diferença entre resgatar um animal e manter um projeto de proteção. Depois do primeiro atendimento, há dias ou meses de cuidado, medicação, limpeza, alimentação e tentativa de adoção.
Também há um limite humano nessa rotina. Conciliar trabalho, vida pessoal e cuidados com dezenas de animais exige tempo, deslocamento e uma rede mínima de apoio.
Por isso, o abrigo sonhado por Laura depende de mais do que boa vontade. Precisa de estrutura, doadores recorrentes, voluntários, parcerias com clínicas, participação da comunidade e políticas públicas que reduzam o abandono na origem.
