Caso de Bento Medeiros Versuti mostra como estudantes com altas habilidades ainda enfrentam obstáculos para receber atendimento adequado, mesmo quando acumulam bom desempenho acadêmico, laudos, medalhas em competições científicas e apoio familiar para seguir aprendendo além do ritmo tradicional da escola.
Bento Medeiros Versuti, de 8 anos, mora no Jardim Imperador, em Peruíbe, no litoral de São Paulo, e reúne mais de 15 medalhas em Olimpíadas Científicas, além de QI 134 e percentil de 99%, índice que o coloca acima de 99% da população.
Mesmo com desempenho acima da média em matemática, tecnologia, programação e astronomia, a rotina do menino é marcada por uma dificuldade relatada pela família: conseguir que a escola ofereça adaptações compatíveis com estudantes com altas habilidades ou superdotação.
A mãe, a psicóloga Helen Medeiros Versuti, de 40 anos, afirma que a principal barreira não está apenas no reconhecimento da condição, mas na aplicação prática dos direitos educacionais previstos para crianças superdotadas.
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“A maior dificuldade é que as escolas aceitem fazer essas adaptações necessárias e façam o plano educacional individualizado que a criança superdotada e neurodivergente tem direito”, relatou.
Altas habilidades e resistência no ambiente escolar
Quando Bento tinha 4 anos, segundo Helen, a primeira escola frequentada por ele recebeu laudos apresentados pela família, mas não teria aceitado a condição do menino nem aplicado estratégias pedagógicas específicas para acompanhá-lo.
Na instituição atual, a situação também estaria distante do ideal, porque, conforme relata a mãe, o estudante ainda não conta com um plano individualizado que organize desafios, conteúdos e formas de acompanhamento.

“Ele não possui um plano individualizado, que é um direito da criança superdotada. Infelizmente, essa é a realidade da maioria dessas crianças”, afirmou Helen.
Em junho de 2026, o caso ganhou novo contexto com a sanção da Lei 15.436/2026, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação no Brasil.
A norma criou diretrizes para identificação, acompanhamento e atendimento educacional especializado, além de prever formação de profissionais da educação, fortalecimento de estruturas de apoio, enriquecimento curricular e aceleração em áreas específicas.
Para a família, porém, o ponto decisivo está em transformar a previsão legal em rotina escolar, especialmente nos municípios onde faltam profissionais capacitados, testes, orientação adequada e estrutura para acompanhar esses estudantes.
Falta de estímulo afeta aprendizagem e comportamento
Sem desafios compatíveis com o próprio ritmo, crianças com altas habilidades podem perder o interesse pelas aulas e deixar de desenvolver parte do potencial que demonstram em áreas específicas, segundo avalia Helen.
A psicóloga define esse cenário como uma forma de “abandono invisível”, em que o estudante permanece em sala, mas não encontra estímulos proporcionais ao que já domina ou à velocidade com que consegue aprender.
Além do impacto no desempenho acadêmico, a mãe aponta reflexos no comportamento e no bem-estar emocional, já que Bento teria desenvolvimento cognitivo acima da idade, mas ainda vive as emoções próprias de uma criança de 8 anos.
“Hoje o Bento tem 8 anos, mas cognitivamente está próximo dos 12. Emocionalmente, porém, continua sendo uma criança de 8 anos”, disse Helen, ao explicar a assincronia observada em parte das crianças com altas habilidades.
Esse descompasso exige acolhimento, mediação e planejamento cuidadoso, porque o estudante pode compreender conteúdos complexos, mas ainda precisa de suporte emocional adequado à idade e ao próprio processo de amadurecimento.
Família busca apoio fora da sala de aula
Para suprir lacunas do ensino regular, os pais passaram a investir em atividades complementares no contraturno, por meio da Amplexo Educação, com foco em ampliar os desafios oferecidos ao menino.
Antes desse reforço, Bento já procurava conhecimento por conta própria em canais educativos, movido pela curiosidade sobre temas específicos e pela vontade de entender assuntos que não apareciam com profundidade nas aulas.
Com a nova rotina, o enriquecimento curricular passou a fazer parte do dia a dia da família, que reorganizou horários, prioridades e investimentos para acompanhar o interesse acadêmico do filho.
Helen afirma que algumas Olimpíadas são pagas e que determinadas competições internacionais podem superar R$ 1.500 por etapa, o que torna o desenvolvimento do estudante também dependente da capacidade financeira familiar.
O pai, Gabriel Medeiros Versuti, de 31 anos, diretor de marketing, diz que a família acabou assumindo tarefas que deveriam contar com apoio mais estruturado da escola e do poder público.
“A parte acadêmica é algo que trabalhamos todos os dias para compensar o que a escola não fornece”, afirmou Gabriel, ao relatar limitações nas adaptações oferecidas ao filho.
Na avaliação dele, propor tarefas um pouco mais difíceis não resolve o problema quando a escola não considera aquilo que Bento já domina nem os conteúdos que poderiam estimular avanços reais.
Atendimento público e continuidade do acompanhamento
No acesso a serviços públicos especializados, a família também relata dificuldades para manter uma rotina estável de atendimento, mesmo depois de conseguir terapia ocupacional pelo município por um período.
Gabriel afirma que, após alguns meses, surgiram obstáculos para agendar novas sessões, situação que teria comprometido a continuidade do acompanhamento e ampliado a responsabilidade dos pais sobre todas as frentes de apoio.
A instabilidade torna mais pesada a organização familiar, porque estudos, terapias, competições, deslocamentos e atividades extras precisam ser conciliados com as demandas comuns de uma criança em idade escolar.
Ainda assim, Bento mantém uma rotina marcada pela curiosidade e diz gostar das Olimpíadas de matemática porque encontra desafios que o estimulam a pensar de forma mais profunda.
Entre as conquistas favoritas, ele cita uma medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica e uma premiação internacional de matemática, ambas ligadas a áreas que fazem parte de seus principais interesses.
Olimpíadas Científicas e futuro de Bento
Na escola, o menino resume de forma direta aquilo que gostaria de encontrar com mais frequência: “Eu gostaria que tivesse coisas mais difíceis”.
Para os próximos anos, Bento já fala em ser engenheiro civil ou astronauta, além de disputar e vencer Olimpíadas fora do Brasil, mantendo o vínculo com matemática, astronomia e tecnologia.
Fora da escola, parte da rotina da família aparece no perfil @falabentopodcast, no Instagram, criado para compartilhar experiências sobre superdotação, inclusão, estudos e Olimpíadas Científicas.
O espaço também aproxima responsáveis que enfrentam dificuldades parecidas na busca por atendimento especializado, adaptações pedagógicas e reconhecimento das necessidades de crianças com altas habilidades.
Na leitura de Helen, a nova política nacional pode reduzir a dependência da condição financeira das famílias e ampliar a identificação precoce desses estudantes, especialmente em cidades com pouca estrutura especializada.
A mãe afirma que já ouviu, no próprio município, orientação para desistir da avaliação por falta de teste e de profissional habilitado, cenário que ajuda a explicar a invisibilidade de muitas crianças superdotadas.

