Presidente da Abicom diz que pode haver falta de diesel pontual em abril porque importações contratadas ficam perto de 300 mil m³, abaixo do normal de 1,2 a 1,4 milhão. Defasagem de preços, frete e seguro mais caros travam operações e elevam risco regional com pressão da guerra no Irã
A falta de diesel voltou ao radar para abril após alerta de Sérgio Araújo, presidente da Abicom, ao dizer que o país pode enfrentar desabastecimento “pontual e eventual” se o volume importado seguir muito abaixo do necessário, num cenário de custos internacionais mais altos e operações travadas.
O ponto central, segundo ele, é a combinação entre preços internos abaixo do mercado internacional, frete e seguro pressionados pelo conflito no Oriente Médio e incerteza sobre volumes. O resultado pode aparecer longe dos holofotes nacionais, como um descompasso regional de oferta.
Por que a falta de diesel virou um risco real para abril
O alerta parte de um dado objetivo: o volume de diesel já contratado para importação em abril estaria muito abaixo do padrão mensal citado pelo setor.
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Araújo afirma que não se trata de falta de interesse em trazer produto, mas de dificuldade para fechar operações quando a conta não fecha.
Nesse contexto, a falta de diesel não é descrita como um apagão generalizado, e sim como um risco localizado, que depende de logística, região e do quanto cada área do país precisa do diesel importado para manter o fluxo normal de abastecimento.
É o tipo de falha que começa “pontual”, mas ganha velocidade se a reposição não acontece.
Os números de importação que acendem o sinal amarelo
Para março, Araújo diz que a importação prevista chega a 1 milhão e 351 mil metros cúbicos de óleo diesel, volume que, na avaliação dele, sustenta o abastecimento do mês.
Ou seja, no curtíssimo prazo, a leitura apresentada é de continuidade operacional.
Já para abril, o número citado é bem menor: algo na ordem de 300 mil metros cúbicos contratados, quando, “normalmente”, o país importaria entre 1,2 milhão e 1,4 milhão de metros cúbicos por mês.
Essa diferença é o que coloca a falta de diesel como possibilidade concreta no calendário de abril, não como hipótese distante.
A defasagem de preços e por que ela trava a importação
A explicação apresentada por Araújo é que a Petrobras manteria o preço interno abaixo do valor no mercado internacional, criando uma defasagem que dificulta a vida de importadores e refinadores privados.
O efeito prático é simples: quem precisa comprar fora e trazer para dentro passa a operar com risco maior, margem menor e incerteza ampliada.
Ele cita, como retrato do momento, que o diesel teria “67% de defasagem”, ficando mais de R$ 2,40 abaixo do preço médio, enquanto os importadores enfrentam custos para comprar, transportar e internalizar o produto.
Quando o preço doméstico fica artificialmente baixo, a operação pode virar prejuízo, e a falta de diesel deixa de ser discurso e vira cálculo.
Frete, seguro e a crise global que aumenta o custo do diesel
Além da defasagem de preços, há o choque de custos associado ao conflito no Oriente Médio.
Araújo afirma que fretes aumentaram e o seguro também encareceu com a escalada de tensões envolvendo EUA e Israel e o Irã, elevando o custo final de trazer diesel ao Brasil.
Esse tipo de encarecimento não depende da política interna e chega como “pedágio” do comércio global. Só que, quando somado a preços internos pressionados para baixo, cria uma pinça: o diesel fica mais caro para importar, mas o mercado doméstico não absorve o valor.
A consequência é um gargalo que pode aparecer como falta de diesel justamente nas regiões que mais precisam do produto vindo de fora.
Onde o risco de desabastecimento pode ser maior
Araújo afirma que o risco aumenta nas áreas que dependem mais de diesel importado.
Ele também aponta uma concentração de refinarias da Petrobras no Sul e no Sudeste, o que pode gerar desequilíbrio de oferta entre as regiões do país.
Na prática, isso sugere um mapa de vulnerabilidade: quanto maior a dependência de importação para atender demanda local, maior a chance de uma falta de diesel pontual se manifestar primeiro.
Não é apenas “quanto o Brasil importa”, mas “para onde o diesel chega” e “com que velocidade ele é reposto”.
O debate sobre medidas do governo e a fronteira da “política pública”
Araújo comenta que existem iniciativas para tentar evitar que a alta do diesel chegue ao consumidor, como subvenção e incentivos aos estados para zerar ICMS sobre combustíveis. A linha defendida por ele é que políticas assim podem aliviar o bolso em momentos de crise.
Ao mesmo tempo, ele critica quando esse tipo de alívio viraria uma função de uma empresa que participa do mercado, citando assimetria concorrencial e impacto sobre concorrentes, como importadores e refinarias privadas.
Aqui está o conflito central: proteger o consumidor no curto prazo sem travar o mercado a ponto de aumentar o risco de falta de diesel no mês seguinte.
O alerta de falta de diesel para abril combina matemática e geopolítica: importações contratadas muito abaixo do padrão, custos internacionais em alta e uma estrutura de preços que, segundo importadores, dificulta fechar operações.
O risco descrito é regional e pontual, mas o histórico do setor mostra que falhas localizadas podem virar um efeito dominó quando reposição e logística atrasam.
Na sua região, você já percebeu alguma tensão no diesel nas últimas semanas, como filas, limite de abastecimento ou variações bruscas entre postos? Você acha que a prioridade deve ser segurar preço a qualquer custo ou garantir oferta mesmo que o preço suba?

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