Estudo da CNI aponta impacto econômico bilionário e forte geração de empregos caso parte dos produtos de defesa importados passe a ser produzida no Brasil.
Brasília — Um novo simulador da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que a baixa produção nacional de bens de defesa deixa o Brasil dependente do exterior e sem captar um potencial de até 226 mil empregos diretos e indiretos e aproximadamente R$ 9,9 bilhões em tributos e contribuições sociais.
Esse montante poderia ser ativado caso o país passasse a produzir internamente cerca de 30% dos produtos de defesa e segurança que hoje compra de fornecedores estrangeiros.
Segundo o levantamento, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria, a substituição parcial das importações por produção doméstica teria impacto estimado de R$ 60,9 bilhões no valor total da produção.
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Os dados foram apresentados na 26ª reunião do Conselho de Desenvolvimento da Indústria de Defesa (Condefesa), realizada na sede da CNI, em Brasília, com participação de empresários, especialistas e representantes das Forças Armadas.
Geração de empregos e arrecadação
A simulação indica que a ampliação da produção nacional em defesa abriria espaço para milhares de vagas em segmentos de alta qualificação.

Parte relevante dos 226 mil postos projetados está associada a engenheiros, técnicos, pesquisadores e profissionais ligados a pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D).
Essa característica faz com que o efeito não se limite à geração de emprego e renda no curto prazo.
A base industrial de defesa tende a demandar cadeias produtivas complexas, que envolvem desde fornecedores de componentes eletrônicos até empresas de software e serviços especializados.
Na avaliação da CNI, isso contribui para elevar o patamar tecnológico da economia e criar oportunidades tanto para grandes companhias quanto para startups e centros de pesquisa.
Além do emprego, o simulador calcula que a produção doméstica de cerca de um terço dos itens atualmente importados poderia resultar em R$ 9,9 bilhões em tributos indiretos e contribuições sociais, reforçando a arrecadação de União, estados e municípios.
Trata-se de receita que hoje não circula internamente, por estar associada à compra de produtos fabricados em outros países.
Dependência externa e soberania
O estudo reforça a avaliação de que o Brasil mantém uma dependência expressiva de fornecedores estrangeiros em setores considerados sensíveis para a segurança nacional.
Atualmente, o país importa em média R$ 70,8 bilhões por ano em produtos de defesa e segurança, um conjunto que vai de coletes balísticos e trajes antibombas a mísseis, radares e componentes para aeronaves militares.
Embora exista uma base industrial instalada capaz de produzir armamentos, aeronaves, sistemas de comando e controle e outros equipamentos estratégicos, ela ainda não opera com o grau de utilização que seria possível em um ambiente de maior previsibilidade e priorização de conteúdo nacional nas compras públicas.
Para a CNI, essa combinação de dependência externa e capacidade interna subutilizada coloca em questão o grau de soberania produtiva do país no setor de defesa.

Na prática, a importação de insumos críticos e de parte relevante dos produtos acabados deixa o Brasil mais exposto a restrições de fornecimento, embargos tecnológicos e variações de política externa de países exportadores.
Em situações de crise internacional ou de tensão geopolítica, essa vulnerabilidade tende a se tornar ainda mais evidente.
Tecnologia de uso dual e impactos amplos
O levantamento da CNI destaca que mais de 90% das importações de defesa do Brasil são classificadas como de uso dual, isto é, têm aplicação tanto militar quanto civil.
Esse perfil amplia a abrangência dos efeitos econômicos potencialmente associados à nacionalização de parte da produção.
Setores como telecomunicações, aeroespacial, automotivo, cibernético, energético e de eletrônica de alta complexidade podem ser diretamente beneficiados por uma política de fortalecimento da base industrial de defesa.
Isso ocorre porque muitos dos componentes, softwares, sensores e materiais empregados em sistemas militares também são utilizados em aplicações civis, como redes de comunicação, satélites, veículos autônomos, sistemas de navegação e soluções de segurança cibernética.
Nesse contexto, a CNI argumenta que o investimento em defesa não deve ser visto apenas como gasto voltado ao setor público ou às Forças Armadas, mas como vetor de inovação transversal, com efeitos em cadeias produtivas de alta intensidade tecnológica.
O reforço à indústria de defesa tende a irradiar conhecimento, qualificação profissional e ganhos de produtividade para outros segmentos da economia.
Compras públicas como motor da indústria nacional
Um dos pontos centrais do diagnóstico apresentado pela CNI é o papel das compras públicas de defesa como instrumento para estimular a produção nacional.
A entidade defende que contratos de médio e longo prazo, aliados a mecanismos que valorizem o conteúdo local, podem adensar cadeias industriais e dar previsibilidade para investimentos privados em capacidade produtiva e inovação.

Na avaliação da indústria, a existência de empresas capazes de desenvolver e fabricar armamentos, radares, mísseis, aeronaves e sistemas embarcados não é suficiente para reduzir a dependência externa se não houver um ambiente institucional que priorize o fornecimento interno sempre que for técnica e economicamente viável.
Isso envolve regras claras de licitação, marcos regulatórios alinhados à realidade do setor e coordenação entre diferentes órgãos de governo.
O simulador do Observatório Nacional da Indústria foi construído justamente para medir os efeitos socioeconômicos de escolhas de política pública nessa área.
A ferramenta considera impactos sobre emprego, renda, arrecadação e encadeamentos produtivos, permitindo comparar cenários de maior ou menor grau de substituição de importações por produção nacional.
Caminhos para transformar potencial em política de Estado
Apesar do diagnóstico favorável à expansão da produção doméstica em defesa, a CNI reconhece que a transformação desse potencial em resultados concretos depende de decisões de longo prazo.
A organização avalia que é necessário melhorar a coordenação entre governo, Forças Armadas e setor produtivo, de forma a alinhar prioridades estratégicas, planejamento orçamentário e capacidade industrial disponível.
Outro desafio apontado é a competição com fornecedores estrangeiros que, em muitos casos, operam em mercados altamente concentrados e contam com forte apoio de seus governos de origem.
Esse apoio pode incluir financiamentos, garantias, acordos de cooperação ou transferência de tecnologia.
Para a indústria brasileira, a ausência de instrumentos equivalentes dificulta disputar espaço em licitações internacionais e, em vários momentos, até mesmo em compras realizadas dentro do próprio país.
A discussão também passa pela formação e retenção de mão de obra qualificada.
O fortalecimento da base industrial de defesa exige profissionais com alta especialização em engenharia, ciências exatas, tecnologia da informação e áreas correlatas.
A CNI ressalta que oportunidades em projetos de elevado conteúdo tecnológico podem ajudar a reduzir a saída de talentos brasileiros para o exterior, desde que haja estabilidade e horizonte de continuidade para os programas industriais.

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