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Brasil leva representantes do setor de petróleo e agronegócio à COP30 e acende questionamentos sobre a influência de combustíveis fósseis em uma conferência climática

Escrito por Rannyson Moura
Publicado em 12/11/2025 às 09:31
O credenciamento de executivos do setor de petróleo e do agronegócio para a COP30, incluindo nomes da Braskem, JBS e IBP, gera controvérsia sobre os rumos da política ambiental brasileira e os interesses por trás da transição energética.
O credenciamento de executivos do setor de petróleo e do agronegócio para a COP30, incluindo nomes da Braskem, JBS e IBP, gera controvérsia sobre os rumos da política ambiental brasileira e os interesses por trás da transição energética.
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O credenciamento de executivos do setor de petróleo e do agronegócio para a COP30, incluindo nomes da Braskem, JBS e IBP, gera controvérsia sobre os rumos da política ambiental brasileira e os interesses por trás da transição energética.

Entre os mais de 3.800 crachás distribuídos pelo Brasil para a COP30, chama atenção a presença de nomes ligados à indústria do petróleo, do gás e do agronegócio. A lista, divulgada pela ONU no início da semana, inclui executivos da Braskem, JBS, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Eneva e Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Esses representantes circularão pela chamada Zona Azul, o espaço central do evento onde são discutidas e negociadas as decisões climáticas globais. A presença de empresas que operam em setores intensivos em carbono despertou críticas de ambientalistas e especialistas em governança climática, que apontam contradições na composição da delegação brasileira.

Credenciais oficiais revelam peso político e econômico do petróleo

De acordo com informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o governo brasileiro indicou cerca de 2.805 pessoas para o credenciamento oficial da COP30. Além de autoridades públicas, técnicos de ministérios e membros da sociedade civil, a lista inclui executivos de corporações associadas ao petróleo e à mineração, setores vistos como grandes emissores de gases de efeito estufa.

Entre os credenciados, aparecem três representantes do IBP e três do IBRAM, além de dois membros da CNI. Também constam os irmãos Joesley e Wesley Batista, controladores do grupo J&F, que além da JBS, detêm a Âmbar Energia, empresa que opera usinas movidas a gás fóssil e carvão.

Outros 11 nomes pertencem à Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), que reúne gigantes do agronegócio como Bunge, Cargill, Amaggi e Louis Dreyfus. O credenciamento dessas companhias — com forte impacto ambiental e participação na cadeia de combustíveis fósseis — reforça a influência de setores tradicionais na formulação de políticas energéticas e ambientais do país.

Transparência Internacional critica falta de clareza na escolha dos nomes

Para Renato Morgado, gerente de programas da Transparência Internacional – Brasil, o governo deveria ter adotado critérios mais transparentes para definir a delegação nacional. Segundo ele, “deveriam incluir a divulgação detalhada de vínculos institucionais e dos processos decisórios que buscam influenciar, além da adoção de mecanismos de gestão de conflitos de interesse e códigos de ética e de conduta”.

A crítica recai principalmente sobre a ausência de informações claras sobre quem representa o quê dentro da comitiva brasileira. Para especialistas, a presença de executivos ligados ao petróleo em um evento que tem como foco a redução das emissões é vista como um sinal de contradição na postura climática do Brasil.

Petrobras mantém perfil discreto e evita polêmica na conferência

Apesar do peso da estatal, a Petrobras adotou uma postura discreta na COP30. Nenhum integrante do alto escalão foi enviado ao evento. A única representante de destaque é Viviane Canhão, diretora global de Descarbonização e Mudança Climática. Outros nomes citados pela CNN seriam de executivos de níveis intermediários.

A ausência da cúpula da estatal também se estende ao encontro reservado entre petrolíferas e o presidente da conferência, André Corrêa do Lago. O motivo, segundo fontes ouvidas pela imprensa, seria evitar constrangimentos públicos e manifestações contrárias à exploração de petróleo na Foz do Amazonas, tema que tem provocado controvérsias dentro e fora do governo.

Governo defende exploração de petróleo sob argumento climático

Enquanto a Petrobras opta pelo silêncio, membros do governo federal assumem abertamente a defesa da exploração de novas reservas de petróleo. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou em entrevista ao jornal O Globo que o petróleo brasileiro é menos poluente que o de outros países.

Para ele, “se o Brasil encerrasse sua produção do combustível fóssil, passaria a emitir mais gases poluentes”, uma vez que teria de importar derivados de petróleo mais intensivos em carbono. Costa argumenta ainda que há uma “demanda que não pode ser ignorada” e que o país deve aproveitar seus recursos naturais para fortalecer sua matriz energética.

Já o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), reforçou essa narrativa ao defender um fundo para a transição energética alimentado com receitas do próprio petróleo. A proposta, segundo ele, ajudaria a financiar investimentos em energias limpas e acelerar o processo de descarbonização da economia.

Críticos alertam para contradições na transição energética

O Observatório do Clima, rede que reúne organizações ambientais e especialistas em políticas públicas, rebate a visão de que o petróleo possa ser considerado uma ponte sustentável. O grupo destaca que o Brasil possui abundância em fontes renováveis — como solar, eólica e biomassa — e não precisa abrir novas frentes de exploração para suprir suas necessidades energéticas.

Segundo a entidade, a noção de “transição” energética foi distorcida por setores que desejam manter o protagonismo do petróleo. A verdadeira transição, explicam os especialistas, “não é cessar a produção de um dia para o outro, mas reduzir gradualmente a dependência de combustíveis fósseis”.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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