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Brasil entra na era dos prédios de madeira engenheirada ao lado de Canadá, Suécia, Áustria e Noruega, e aposta em uma tecnologia que promete obras mais rápidas, menos emissões e uma resistência ao fogo que desafia o concreto e o aço

Escrito por Ana Alice
Publicado em 28/04/2026 às 23:56
Brasil adota madeira engenheirada em prédios e reacende debate sobre segurança contra incêndios, tempo de obra e impacto ambiental.
Brasil adota madeira engenheirada em prédios e reacende debate sobre segurança contra incêndios, tempo de obra e impacto ambiental.
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A madeira engenheirada avança no Brasil e aproxima o setor de modelos já usados em edifícios altos no exterior, enquanto normas, segurança contra incêndio, prazo de obra e impacto ambiental passam a concentrar atenção.

A adoção da madeira engenheirada em projetos no Brasil amplia o uso de sistemas industrializados na construção civil e coloca o CLT, sigla em inglês para madeira laminada cruzada, entre os materiais analisados por construtoras, projetistas e incorporadoras.

O sistema já aparece em obras nacionais e é usado em países como Canadá, Suécia, Áustria e Noruega em edifícios de múltiplos pavimentos.

A comparação com esses mercados exige cautela.

Nesses países, a expansão da madeira massiva ocorreu junto com normas técnicas, ensaios de desempenho, fiscalização, cadeias produtivas consolidadas e exigências específicas de segurança contra incêndio.

No Brasil, o tema ainda avança em ritmo gradual, com projetos pontuais e adaptação regulatória.

O que é CLT na construção civil

O CLT é formado por tábuas de madeira coladas em camadas alternadas, geralmente perpendiculares entre si.

Essa composição permite que o painel distribua esforços em mais de uma direção, característica que o diferencia de elementos lineares, como vigas e pilares de madeira laminada colada, conhecida como MLC ou glulam.

Na obra, o material funciona como componente pré-fabricado.

Portas, janelas, encaixes e passagens de instalações podem ser previstos no projeto digital e executados antes do transporte ao canteiro.

Com isso, parte do processo que tradicionalmente ocorre no local da construção passa para a indústria.

A tecnologia também não deve ser confundida com compensado comum.

Embora ambos usem camadas de madeira, o CLT emprega lamelas mais espessas e tem função estrutural em edifícios.

Por essa razão, pode ser usado em paredes portantes, lajes, coberturas e, conforme o projeto, em núcleos de circulação.

Segurança contra incêndio em estruturas de madeira

A resistência ao fogo é um dos pontos centrais no debate sobre madeira engenheirada.

Em peças robustas de madeira massiva, a superfície exposta ao fogo tende a carbonizar e formar uma camada isolante.

Segundo o Canadian Wood Council, esse comportamento ajuda a retardar o aquecimento da parte interna da peça, que permanece estruturalmente ativa por determinado período.

Esse desempenho, porém, não torna todos os painéis de CLT automaticamente equivalentes.

Classificações como REI 90, usadas para indicar resistência, estanqueidade e isolamento por 90 minutos, dependem do conjunto construtivo, do dimensionamento, do ensaio, da proteção aplicada e das exigências previstas em norma.

A comparação com o aço também precisa ser contextualizada.

O aço não é combustível, mas perde resistência quando exposto a temperaturas elevadas.

De acordo com o American Institute of Steel Construction, o aço estrutural mantém cerca de metade de sua resistência em torno de 593 °C.

O tempo para atingir essa temperatura varia conforme o tipo de incêndio, a geometria da peça e a proteção adotada.

No Brasil, a referência para estruturas de madeira está na série ABNT NBR 7190:2022, que atualizou critérios de projeto, dimensionamento e verificação.

Em São Paulo, a IT 08/2025 do Corpo de Bombeiros passou a tratar de sistemas construtivos em madeira, incluindo wood frame e madeira massiva, com exigências voltadas à segurança contra incêndio.

Edifícios de madeira pelo mundo

A Noruega está entre os casos internacionais mais citados por causa do Mjøstårnet, edifício de 18 andares em Brumunddal.

A construção combina madeira laminada colada e CLT em uma estrutura de uso misto, com hotel, apartamentos, escritórios, restaurante e áreas comuns.

Na Suécia, o Kajstaden Tall Timber Building, em Västerås, utiliza madeira laminada cruzada em paredes, lajes, varandas, poços de elevador e escadas.

O projeto é frequentemente mencionado em estudos e publicações do setor por empregar madeira massiva em partes relevantes da estrutura.

No Canadá, o Origine, em Quebec, tem 13 andares e combina uma estrutura de madeira maciça sobre pódio de concreto.

O empreendimento teve participação de autoridades e centros de pesquisa, o que indica a necessidade de validação técnica em edifícios mais altos feitos com madeira engenheirada.

A Áustria aparece nesse cenário com o HoHo Wien, em Viena, divulgado pelo próprio empreendimento como uma torre de 84 metros e 24 pavimentos.

O edifício é híbrido e utiliza madeira em grande parte da estrutura, junto com outros materiais definidos conforme as exigências do projeto.

Tempo de obra com madeira engenheirada

A redução do prazo é uma das justificativas usadas por empresas e projetistas para adotar madeira engenheirada.

Como os painéis e peças estruturais chegam prontos ao canteiro, a etapa local tende a se concentrar na montagem, com menor uso de formas, escoramentos e processos úmidos.

Não há, contudo, um percentual único que possa ser aplicado a todas as construções.

O ganho de prazo depende do projeto executivo, da logística, da repetição das peças, da equipe de montagem, do licenciamento e da compatibilização com instalações elétricas, hidráulicas e sistemas de proteção contra incêndio.

Quando essas etapas são bem coordenadas, a industrialização reduz improvisos e retrabalhos.

Se houver falhas de projeto ou atrasos na cadeia de fornecimento, parte da vantagem de montagem pode ser perdida.

Por isso, a velocidade associada ao CLT deve ser atribuída ao modelo construtivo completo, não apenas ao material.

No Brasil, o Arvoredo, na Vila Madalena, em São Paulo, ilustra a aplicação da madeira engenheirada em projetos residenciais de alto padrão.

Segundo informações da Urbem, fornecedora de madeira engenheirada, o empreendimento reúne seis unidades residenciais com áreas entre 390 m² e 466 m².

Impacto ambiental do CLT e da madeira massiva

A madeira engenheirada é associada à redução de carbono incorporado porque armazena carbono absorvido pela árvore durante o crescimento.

Estimativas usadas por entidades do setor indicam que 1 m³ de madeira pode reter quantidade próxima de 1 tonelada de CO₂ equivalente, a depender da espécie, da densidade e dos critérios de cálculo.

Esse benefício ambiental depende de condições específicas.

Entre elas estão manejo florestal, rastreabilidade, transporte, processamento industrial, durabilidade da edificação e destinação do material ao fim da vida útil.

Sem controle de origem, a vantagem climática atribuída ao sistema fica comprometida.

A comparação com o concreto ajuda a explicar o interesse internacional pelo tema.

Segundo relatório da Chatham House, a produção de cimento responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂.

A substituição parcial de materiais de alta emissão por madeira engenheirada pode reduzir carbono incorporado quando o projeto considera o ciclo de vida completo da construção.

Além das emissões, a obra seca também altera o consumo de recursos no canteiro.

Sistemas pré-fabricados tendem a usar menos água durante a execução e a gerar menos resíduos de corte e ajuste.

A dimensão dessa redução, no entanto, varia conforme o projeto, a fábrica, o transporte e o planejamento da montagem.

Madeira engenheirada no mercado brasileiro

O Brasil tem base florestal plantada, indústria madeireira, centros de pesquisa e mercado imobiliário interessado em métodos construtivos mais industrializados.

Mesmo assim, a madeira engenheirada ainda enfrenta barreiras para ampliar sua participação no setor.

Entre os principais obstáculos estão custo inicial, baixa escala de produção, necessidade de mão de obra treinada, aprovação técnica de projetos e desconhecimento de parte de incorporadores, projetistas e consumidores.

Esses fatores ajudam a explicar por que a aplicação do CLT ainda aparece de forma concentrada em empreendimentos específicos.

A atualização normativa reduz parte das incertezas.

A referência correta para estruturas de madeira é a série ABNT NBR 7190:2022.

A NBR 16826:2020, citada em alguns textos sobre o tema, não trata de estruturas de madeira; ela se refere a aditivos para argamassas inorgânicas.

A adoção do CLT no país, portanto, não depende apenas da disponibilidade do material.

O avanço também passa por normas locais, projetos compatibilizados, comprovação de desempenho, seguros, financiamento e aceitação do mercado.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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