O país manda quase todo o suco que o planeta bebe, mas uma doença sem cura derrubou a safra e levou os preços a níveis nunca vistos
O suco de laranja que enche os copos de café da manhã na Europa, nos Estados Unidos e no Japão é, na esmagadora maioria, brasileiro. O país domina o mercado mundial dessa bebida de um jeito quase monopolista, mas vive agora um paradoxo: nunca o produto valeu tanto, e nunca foi tão difícil produzir.
O preço do suco de laranja explodiu e chegou a níveis recordes, com a tonelada batendo US$ 8 mil no mercado internacional. O motivo é cruel: uma praga sem cura chamada greening está destruindo pomares no Brasil e no mundo, derrubando a oferta justamente de quem abastece o planeta.
70% do suco de laranja do mundo é brasileiro
A dominância brasileira nesse mercado é impressionante. Segundo o Notícias Agrícolas, com base em projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o Brasil deve responder por cerca de 70% de todas as exportações mundiais da bebida na safra 2024/2025.
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Poucos produtos têm uma concentração tão grande em um único país. Quando o mundo toma suco industrializado, há uma chance enorme de que ele tenha saído de um pomar paulista. Controlar 70% de um mercado global é um poder de mercado que poucas commodities oferecem ao Brasil, e que torna o país peça central no abastecimento mundial dessa bebida.
O preço que chegou a US$ 8 mil a tonelada

A escalada de preços é o retrato da crise. Conforme o AgFeed, o suco renovou recordes e chegou a US$ 8 mil a tonelada no mercado internacional, enquanto a caixa de 40,8 quilos da fruta beirou R$ 100 para a indústria e R$ 140 para o fruto de mesa.
O salto é brutal: os preços praticamente dobraram em relação a um ano antes. Esse movimento beneficia quem ainda consegue colher, mas pressiona a indústria e o consumidor final. Quando o preço de um produto dobra em 12 meses, o sinal é de que algo grave aconteceu na oferta, e no caso da laranja esse algo tem nome: greening.
O greening, a praga sem cura que ameaça os pomares

O vilão da história é uma doença devastadora. O AgFeed explica que se trata de uma enfermidade sem cura e de difícil manejo, que reduz o número de árvores e força a erradicação de pomares inteiros, já que não há como salvar a planta doente.
O estrago não é só brasileiro. Na Flórida, nos Estados Unidos, a produção desabou de 240 milhões de caixas para apenas 15 milhões na temporada 2024/2025, segundo o AgFeed. No Brasil, a praga atingiu importantes parques citrícolas de São Paulo e de Minas Gerais. Uma doença que não tem cura e some com pomares inteiros é a pior notícia possível para quem vive da citricultura, e ameaça a própria liderança brasileira.
A menor safra de laranja desde 1988
A consequência direta apareceu na colheita. De acordo com o AgFeed, a safra 2024/2025 ficou em 223,14 milhões de caixas, uma queda de 27,4% em relação à temporada anterior, de 307,22 milhões. É a menor produção desde o ciclo de 1988/1989.
Recuar a um patamar de quase quatro décadas atrás mostra a gravidade do problema. O Brasil, acostumado a colheitas recordes, viu a produção encolher de forma drástica em poucos anos. Voltar ao nível de produção dos anos 1980 é o tamanho do tombo que a praga provocou, e explica por que o mercado entrou em pânico com a oferta.
Produção menor, mas receita 38% maior
Aqui aparece o paradoxo econômico. Mesmo com a exportação de suco em queda, o Brasil faturou mais. Segundo o Notícias Agrícolas, entre julho de 2024 e janeiro de 2025 o país embarcou cerca de 519 mil toneladas de suco, uma queda de 23% em volume, mas a receita subiu 38%, alcançando US$ 2,3 bilhões.
Isso acontece porque o preço subiu mais do que o volume caiu. A escassez encareceu tanto o produto que, no fim, entrou mais dinheiro mesmo vendendo menos. Faturar mais vendendo menos é o efeito clássico de um mercado em falta de oferta, mas é um equilíbrio perigoso, porque depende de uma crise continuar.
Por que o mundo depende do laranjal brasileiro
A força do Brasil nesse setor cria uma dependência global delicada. Como o país concentra a maior parte das exportações, qualquer tropeço nos pomares paulistas reverbera no preço do suco em supermercados do outro lado do planeta. O café da manhã do europeu depende, literalmente, da saúde das laranjeiras brasileiras.
Essa centralidade é uma força e uma fragilidade ao mesmo tempo. Em tempos normais, garante divisas e empregos. Em tempos de praga, transforma um problema regional em crise mundial de abastecimento. Ser o fornecedor de quase todo o suco do mundo significa que o problema do Brasil vira o problema de todos, e é isso que está em jogo agora.
Suco para um mês e uma entressafra de três
A fala de quem está no setor resume o aperto. O AgFeed traz o alerta de Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR, que descreveu a situação dos estoques de forma direta: havia suco para cerca de um mês de consumo, diante de uma entressafra de três meses.
Esse descompasso entre o que há em estoque e o tempo até a próxima colheita é o que mantém o mercado em alerta. Sem fôlego de estoque, qualquer nova frustração de safra empurra os preços ainda mais para cima. Trabalhar com a despensa quase vazia é o que deixa o mercado de suco tão nervoso, sensível a cada notícia de clima ou de doença nos pomares.
O que isso muda no seu café da manhã
No fim, a crise da laranja chega à mesa do consumidor. Suco mais caro lá fora significa, mais cedo ou mais tarde, suco mais caro também no Brasil, além de pressão sobre a indústria que depende da fruta. A praga nos pomares vira centavos a mais na embalagem do supermercado.
A pergunta que fica é se a citricultura brasileira vai encontrar uma forma de conviver com a praga e manter o domínio do mercado, ou se vai abrir espaço para concorrentes. Você sabia que o suco de laranja que boa parte do mundo bebe depende quase inteiramente da saúde dos pomares do interior de São Paulo?
