Fred Wagner, Alberto Azevedo e Ricardo Rosset não achavam roupa boa para treinar, resolveram fazer as próprias peças ainda no Colégio Santa Cruz, e a virada comercial veio com a loja no Shopping Iguatemi, a vitrine que transformou o negócio de estudantes em rede nacional
Em julho de 2026, a roupa de treino virou uniforme do brasileiro de classe média, e uma das marcas que mais lucram com isso nasceu numa sala de aula. Segundo o InfoMoney, a Track&Field foi fundada em 1988 por três adolescentes que praticavam esportes e não encontravam roupas adequadas: Fred Wagner, Alberto Azevedo e Ricardo Rosset, que começaram vendendo camisetas nos intervalos das aulas do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.
O hobby dos três virou um negócio bilionário: a marca fechou 2023 com mais de 360 lojas e mais de R$ 1 bilhão em vendas, e alcançou R$ 1,4 bilhão de faturamento em 2024, consolidada como referência da moda esportiva premium no país, segundo o InfoMoney. Da mochila escolar ao bilhão, sem nunca trocar de fundador no comando.
Os três amigos que não achavam roupa de treino
A origem é o retrato do empreendedorismo por necessidade própria. Os três estudantes eram esportistas e simplesmente não encontravam no Brasil dos anos 1980 roupas de treino com a qualidade que queriam, então decidiram fazer e vender as próprias camisetas, usando o intervalo das aulas como balcão, segundo o InfoMoney. O primeiro público-alvo eram os próprios colegas de colégio.
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Essa raiz explica a alma da marca até hoje: quem desenha a roupa é quem treina. Enquanto concorrentes olhavam para o esporte como tendência de passarela, os fundadores olhavam como praticantes, e essa diferença de ponto de vista virou produto com caimento, tecido e durabilidade pensados para o uso real.
A vitrine do Iguatemi que mudou o patamar

O salto de banca de colégio para marca de verdade teve um endereço decisivo. A virada comercial da Track&Field veio com a loja no Shopping Iguatemi, em São Paulo, o ponto que colocou a marca dos estudantes diante do público formador de opinião da cidade, segundo o InfoMoney. Estar na vitrine certa valeu mais que qualquer campanha.
A escolha do posicionamento também foi contraintuitiva e certeira: em vez de brigar por preço com as gigantes internacionais do esporte, a marca se instalou no segmento premium, vendendo qualidade e estilo de vida para um público disposto a pagar por isso. O nicho que parecia pequeno cresceu junto com a cultura fitness brasileira.
O fundador que nunca saiu do comando
A longevidade da gestão é uma raridade no varejo. Fred Wagner, nascido em 1969, é sócio-fundador e CEO da companhia desde a criação, em 1988, quase quatro décadas à frente do mesmo negócio que ajudou a fundar quando ainda era adolescente, segundo o CODEMEC. Poucas empresas brasileiras chegaram ao bilhão com o fundador original no comando operacional.
A filosofia dele aparece numa frase que virou lema da casa: “Uma pessoa sozinha não faz uma empresa”, disse Wagner ao CODEMEC. A sociedade dos três amigos de colégio sobreviveu ao crescimento, às crises e ao tempo, o teste em que a maioria das sociedades brasileiras naufraga.
A marca que virou clube: corrida, comunidade e experiência

O produto mais inteligente da empresa talvez nem esteja na arara. A Track&Field transformou a marca num estilo de vida organizado, promovendo circuitos de corrida e experiências esportivas que reúnem multidões de clientes vestindo a etiqueta, o marketing que nenhum anúncio compra: o cliente pagando para divulgar a marca enquanto se exercita. A loja vende a roupa, e o evento vende o pertencimento.
Esse desenho de comunidade alimenta o varejo num ciclo: quem corre o circuito quer a roupa nova, quem compra a roupa se sente parte do clube e volta pro evento. No mercado de moda esportiva, onde as gigantes brigam por patrocínio de atleta famoso, a marca brasileira apostou no atleta comum, e ganhou fidelidade que dinheiro não aluga.
O modelo de franquia que espalhou a marca pelo país
O caminho das 360 lojas não foi trilhado sozinho. A expansão da rede combinou lojas próprias nos grandes centros com franquias que levaram a marca a shoppings de todo o Brasil, um desenho que multiplica presença sem exigir que a empresa banque cada endereço, e que transforma empresários locais em sócios do crescimento. O franqueado entra com o capital e o conhecimento da praça; a marca entra com o produto e a reputação construída em décadas.
Esse formato também explica a resiliência da rede nas crises: quando o varejo aperta, a operação enxuta de cada loja, somada ao público fiel de maior renda, segura o desempenho onde o varejo de moda tradicional derrete. Shopping nenhum quer perder uma âncora de fluxo qualificado, o que dá à marca poder de negociação raro nos pontos mais disputados.
Do algodão ao tecido tecnológico: o produto como motor
A evolução da roupa acompanha a história da empresa. A camiseta de algodão vendida no intervalo do colégio deu lugar a um portfólio de tecidos tecnológicos, com peças de secagem rápida, proteção solar e modelagem de performance, o padrão que o consumidor premium passou a exigir e que separa a marca da concorrência de camiseta básica. Cada geração de tecido novo dá motivo pra renovar o armário.
O investimento em produto tem um efeito comercial silencioso: peça boa dura anos e vira propaganda ambulante do caimento, enquanto a linha nova puxa a recompra pelo desejo, não pela necessidade. É o equilíbrio que marcas de moda perseguem e poucas alcançam, vender durabilidade e novidade ao mesmo tempo.
Por que a moda esportiva virou ouro no Brasil
O vento a favor da marca é um fenômeno de comportamento. O brasileiro incorporou o treino à rotina e a roupa esportiva ao guarda-roupa inteiro, do escritório casual ao fim de semana, criando um mercado onde a mesma peça atende a academia, a corrida e o passeio, o famoso athleisure que multiplicou o tamanho do setor. A roupa de treinar virou a roupa de viver.
Nesse cenário, a posição premium protege a margem: enquanto o básico disputa centavos com importados, a peça de marca desejada sustenta preço cheio. A rede que os adolescentes criaram está exatamente onde o mercado mais cresce e menos briga por desconto.
A lição dos três colegas de classe
A trajetória da Track&Field guarda uma simplicidade desconcertante. Os fundadores não inventaram tecnologia nem receberam herança de setor: sentiram uma falta na própria vida, criaram a solução, começaram vendendo para quem estava ao lado e escalaram com paciência de décadas, mantendo a sociedade original intacta do colégio ao bilhão. A grande ideia era simplesmente resolver o próprio problema bem-feito.
De camisetas no intervalo das aulas a 360 lojas pelo país, a marca prova que negócio grande pode nascer do incômodo mais banal.
Conta pra gente nos comentários: que produto você já deixou de encontrar do jeito que queria, e por que ainda não transformou essa falta num negócio?
