Startup suíça Sun-Ways avalia expansão para Coreia do Sul, Holanda, China, Índia e Singapura após resultados positivos de painéis solares instalados entre os trilhos de uma ferrovia ativa
Uma linha férrea no interior da Suíça completou um ano funcionando como uma pequena usina de energia solar, e os resultados animaram tanto os suíços quanto vizinhos europeus. Segundo reportagem publicada pelo Euronews em 5 de julho de 2026, a startup suíça Sun-Ways já assinou um contrato de colaboração com um parceiro empresarial italiano em contato direto com a Rete Ferroviaria Italiana (RFI), administradora da infraestrutura ferroviária nacional da Itália. A expectativa é que um projeto-piloto no país seja anunciado nos próximos meses.
Como nasceu a ferrovia solar da Suíça
A história começou em Buttes, pequena vila no distrito de Val-de-Travers, no cantão de Neuchâtel. Em 24 de abril de 2025, a Sun-Ways inaugurou ali aquilo que descreve como a primeira ferrovia solar do mundo: 100 metros de painéis fotovoltaicos instalados entre os trilhos, sobre os dormentes, em um trecho onde os trens continuam circulando normalmente. Ao todo, 48 painéis especialmente projetados somam uma potência combinada de 18 kWp. O projeto nasceu como um teste de três anos autorizado pelo Escritório Federal de Transportes da Suíça, mas os números do primeiro ano mudaram os planos.
Desde 20 de maio de 2025, a instalação já produziu mais de 16.000 quilowatts-hora de eletricidade, volume equivalente ao consumo médio anual de três a quatro residências, mesmo enfrentando cerca de um mês de paralisação por neve e por obras de integração de um componente técnico. Diante desse desempenho, a Sun-Ways e as autoridades suíças agora avaliam antecipar a aprovação final e tornar o sistema permanente antes mesmo do fim do prazo original de três anos.
-
Robôs atravessam campos de painéis solares enquanto todos dormem, limpam a poeira sem uma gota de água e ajudam usinas no deserto a evitar perdas na geração de energia
-
O mar brasileiro guarda R$ 1 trilhão em energia eólica offshore, mas uma assinatura travada há anos segura tudo
-
Maior usina solar da Engie no mundo vira símbolo de um problema bilionário no Brasil: rede manda cortar energia e empresa avalia baterias e mineração de bitcoin para não desperdiçar produção
-
Com impacto de até US$ 2,9 bilhões, Air Products abandona megaprojeto ambicioso de hidrogênio limpo na Louisiana, corta unidade no Arizona e expõe a conta pesada da transição energética nos Estados Unidos
Preocupações técnicas e soluções de engenharia
Transformar trilhos em fontes de energia limpa não é tarefa simples. Antes da instalação, a União Internacional de Ferrovias havia levantado preocupações relevantes: os painéis poderiam sofrer microfissuras sob o peso e a vibração dos trens, aumentar o risco de incêndios ou até distrair maquinistas por causa de reflexos do sol. Para contornar esses riscos, a Sun-Ways desenvolveu painéis mais resistentes do que os usados em telhados residenciais, equipados com filtro antirreflexo. Além disso, os trens que passam pelo trecho contam com escovas cilíndricas acopladas à traseira, responsáveis por remover sujeira da superfície dos módulos e manter a eficiência da geração de energia.
Até agora, nenhum incidente relacionado a ofuscamento de maquinistas foi registrado, o que reforça a viabilidade técnica do projeto. Enquanto isso, a operação segue sendo monitorada de perto por engenheiros e pela agência suíça de inovação, a Innosuisse, que apoiou financeiramente o piloto ao lado de outras doze empresas parceiras.
Itália, França, Coreia do Sul e outros países de olho na tecnologia
O interesse internacional cresce na mesma velocidade dos bons resultados. Ainda segundo o Euronews, a Sun-Ways já recebeu aprovação de autoridades da Coreia do Sul para instalar um sistema semelhante por lá, enquanto negociações avançam com empresas da Holanda, China, Índia e Singapura. Na Europa, a companhia ferroviária francesa SNCF assinou um acordo de cooperação com a startup suíça em fevereiro deste ano, movimento visto como estratégico diante do plano da operadora de cobrir 20% de seu consumo energético com fontes fotovoltaicas até 2030.
No caso italiano, a proximidade com a RFI é vista como favorável porque a estatal já planeja construir usinas solares próximas aos trilhos para alimentar a rede de tração ferroviária do país. Assim, a chegada da tecnologia suíça poderia complementar essa estratégia, unindo infraestrutura de transporte e geração distribuída de energia limpa em um único corredor.
Em termos de potencial, os números impressionam. Caso fosse aplicada a toda a malha ferroviária suíça, de 5.317 quilômetros, a tecnologia poderia cobrir uma área equivalente a 760 campos de futebol, mais de 50 mil vezes o tamanho do trecho-piloto em Buttes. Nesse cenário, a Sun-Ways estima uma geração de aproximadamente 1 terawatt-hora (TWh) de eletricidade por ano, o equivalente a cerca de 2% de todo o consumo energético do país. Ainda assim, especialistas ponderam que o ângulo de instalação importa: em regiões como a Espanha, por exemplo, a inclinação ideal para maximizar a eficiência dos painéis fica entre 30° e 35°, segundo estudo de 2022 publicado na base científica Science Direct, que apontou perdas de produção anual inferiores a 1% com inclinação de 34° na Península Ibérica.
Por ora, o próximo capítulo dessa história deve ser escrito em solo italiano, onde as tratativas entre Sun-Ways e RFI já estão em estágio avançado. A informação foi divulgada em 5 de julho de 2026 pelo Euronews, em reportagem que também menciona conversas em curso com outros países. Se confirmado, o piloto italiano pode se tornar mais um passo rumo à consolidação de ferrovias solares como parte da infraestrutura energética europeia — unindo dois setores que, até pouco tempo atrás, pareciam funcionar em trilhos completamente separados.
