São Paulo deve atingir capacidade recorde de 1 milhão de m³ por dia de biometano ainda este ano, com produção suficiente para abastecer residências, substituir diesel em ônibus e ampliar o uso industrial
O estado de São Paulo deve atingir ainda este ano a capacidade instalada recorde de 1 milhão de metros cúbicos por dia na produção de biometano, volume suficiente para atender as 2,8 milhões de residências conectadas à rede paulista de gás canalizado e equivalente à substituição de cerca de 4 mil ônibus urbanos a diesel.
Biometano em São Paulo avança com resíduos agroindustriais e aterros sanitários
A expansão do biometano em São Paulo está ligada principalmente ao aproveitamento de resíduos do setor agroindustrial e de aterros sanitários.
O estado reúne hoje algumas das principais iniciativas do país nessa área e concentra nove das 19 plantas de biometano em operação no Brasil.
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A marca projetada de 1 milhão de metros cúbicos por dia, em plena operação, coloca o biocombustível em escala relevante para diferentes usos.
O volume também corresponderia a 65% de todos os imóveis da cidade de São Paulo, que possui 4,3 milhões de residências, segundo dados do Seade.
Parte das ações paulistas foi apresentada por representantes da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, a Semil, durante evento voltado à aceleração de negócios em biogás e biometano, realizado na semana passada.
O encontro reuniu reguladores, formuladores de políticas públicas, investidores e empresas do setor. A proposta foi discutir formas de destravar projetos, impulsionar novos modelos de negócio e ampliar a articulação entre os agentes ligados à cadeia do biometano.
O evento foi realizado pela InvestSP, agência de promoção de investimentos vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, e pela Associação Brasileira do Biogás, a ABiogás, com apoio da Semil, por meio da Subsecretaria de Energia e Mineração.
Estado concentra metade da produção nacional e prepara novas unidades
Durante a abertura do evento, Marisa Barros, subsecretária de Energia e Mineração da Semil, afirmou que São Paulo é o principal protagonista nacional na produção de biometano.
Segundo ela, o estado possui infraestrutura com capacidade instalada superior a 700 mil metros cúbicos por dia.
Esse volume representa cerca de metade de toda a produção do país. Além das plantas já em operação, outras 11 unidades estão em fase de autorização pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP.
Com esses projetos, São Paulo se prepara para alcançar cerca de 1 milhão de metros cúbicos por dia até dezembro deste ano.
O potencial estimado para o estado é ainda maior, chegando a 6,4 milhões de metros cúbicos por dia, conforme apresentado pela Semil.
A escala da produção ajuda a explicar por que o biometano vem sendo tratado como parte da estratégia paulista de valorização de resíduos.
O combustível pode transformar materiais descartados em energia para residências, empresas, indústrias e transporte.

Transporte pesado aparece como alvo para substituir diesel
A capacidade instalada projetada para o biometano em São Paulo também tem impacto direto no transporte.
Segundo estudo contratado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, com apoio técnico e institucional da Semil, veículos pesados são candidatos promissores para conversão ao biometano.
Ônibus e caminhões aparecem entre os usos possíveis, especialmente porque o transporte rodoviário paulista tem peso expressivo na matriz energética. O consumo energético desse setor em São Paulo representa 26% do consumo nacional e é composto majoritariamente por óleo diesel, gasolina e álcool.
A comparação com os 4 mil ônibus urbanos a diesel mostra a dimensão prática da produção prevista. Em vez de limitar o biometano ao abastecimento residencial, o estado também discute seu uso em frotas pesadas e sistemas de mobilidade.
Representantes da SPTrans, vinculada à Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito da Prefeitura de São Paulo, apresentaram testes com ônibus movidos a biometano, em caráter experimental. A iniciativa faz parte do programa BioSP.
O programa foi lançado para contornar gargalos na infraestrutura de recarga dos veículos elétricos na cidade.
Nesse cenário, o biometano aparece como uma alternativa de baixa intensidade de carbono para frotas urbanas.
Licenciamento ambiental busca reduzir prazo de aprovação para 60 dias
O avanço do setor também depende de licenciamento, autorização e regras de conexão com a rede. Allan Cellim da Silva, da Diretoria de Controle e Licenciamento Ambiental da Cetesb, explicou as diretrizes e os procedimentos para plantas de biometano e efluentes.
Segundo ele, os processos passaram por modernização estrutural nos últimos anos. O objetivo é reduzir o tempo médio de aprovação para até 60 dias, com regras claras e padronizadas para o setor.
Allan afirmou que o biometano é um pilar estratégico na descarbonização do estado de São Paulo, por substituir combustíveis fósseis como diesel e gás natural. Segundo ele, o combustível pode gerar até 99% menos emissões de gases de efeito estufa.
A Cetesb também destacou o uso crescente do biometano pela indústria. Conforme Allan, o órgão emite cerca de 20 mil licenças ambientais por ano, com aproximadamente 30 a 40 tipos de indústrias que já utilizam o biometano em seus processos produtivos.
Políticas estaduais buscam rastreabilidade e novos gasodutos
Laís Almada, diretora de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da Semil, apresentou políticas estaduais voltadas à expansão da infraestrutura de biometano.
Um dos pontos é a tomada de subsídios sobre certificados de origem do biometano nos inventários de emissão enviados à Cetesb.
A proposta é fomentar o mercado do atributo ambiental do biometano por meio de um instrumento voluntário.
As contribuições dos agentes do setor serão consideradas na construção de um mecanismo voltado à rastreabilidade do combustível.
Laís também destacou a parceria internacional firmada com o Swedfund International AB, instituição financeira de desenvolvimento do governo da Suécia. O objetivo é realizar estudos técnicos sobre investimentos necessários para novos gasodutos de biometano.
A parceria também pretende avaliar o potencial de recuperação do digestato e propor modelos de negócio para produção e comercialização de biofertilizantes orgânicos em plantas de biometano no estado.
A diretora relacionou o tema ao Plano Estadual de Energia 2050. O plano integra a estratégia paulista para atingir neutralidade de emissões de carbono até metade do século, em alinhamento à iniciativa global Race to Zero, da ONU.
ANP aponta aumento de pedidos para novas plantas
No campo federal, a ANP é responsável por autorizar e fiscalizar operações de plantas de biometano, além de estabelecer padrões de qualidade para produção e distribuição.
Para obter autorização, as empresas precisam protocolar informações técnicas antes da construção ou modificação da unidade produtora.
Marcos Werner, superintendente de Produção de Combustíveis na ANP, afirmou que a agência modernizou o processo de autorização e comercialização do biometano.
Segundo ele, o arcabouço regulatório foi alinhado à Lei do Combustível do Futuro e ao Programa Nacional de Descarbonização.
Werner também destacou o aumento expressivo no volume de solicitações para outorga e início de operação de novas plantas industriais de biometano no Brasil. Para 2026, a tendência apontada por ele é de elevação da produção.
Segundo o superintendente, há diversificação de matérias-primas, com destaque para Resíduos Sólidos Urbanos enviados a aterros sanitários e transformados em biogás, além de resíduos agrossilvopastoris com ampla distribuição geográfica nacional.
Rede de gás pode levar biometano aos consumidores
A interconexão com redes de gás foi outro ponto discutido no evento. Maria Eugênia Bonomi, gerente de Estudos Técnicos, Regulação e Contratos da Arsesp, apresentou a atuação regulatória para gás natural e biometano em São Paulo.
O estado conta com pouco mais de três milhões de consumidores de gás canalizado. Segundo Maria Eugênia, a interconexão permitirá ampliar gradualmente a produção do biocombustível, com injeção direta nas tubulações existentes e distribuição aos consumidores.
Recentemente, a Arsesp aprovou a interconexão da planta de biometano da Solví Essencis Ambiental, no aterro de Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo, à rede de distribuição de gás canalizado da Comgás.
A experiência de Caieiras também aparece na indústria. A Natura informou que utiliza biometano em sua maior operação na América Latina, em Cajamar.
O combustível abastece 45% dos processos industriais e movimenta 100% da frota logística entre a fábrica e a Grande São Paulo.
A Geo Bio Gas & Carbon apresentou oportunidades para produção de combustível de aviação sustentável, o SAF, a partir de biogás de resíduos de biomassa do setor sucroenergético. O projeto conta com apoio do governo paulista e parceiros internacionais.
Esta matéria foi elaborada com base em informações da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, InvestSP, ABiogás, Cetesb, ANP, Arsesp, SPTrans, Natura e Geo Bio Gas & Carbon, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.


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