Países mostram que prevenção, diagnóstico precoce e acesso contínuo podem mudar o curso de uma das doenças que mais matam mulheres jovens no mundo
A Austrália está muito próxima de alcançar um feito histórico na saúde pública global: tornar-se o primeiro país do mundo a eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública. O avanço não é fruto do acaso. Pelo contrário, ele resulta de uma estratégia consistente baseada em vacinação em massa contra o HPV, rastreamento moderno e continuidade do cuidado ao longo dos anos.
A informação foi divulgada por relatórios oficiais do Departamento de Saúde do Governo Australiano e detalhada no 2025 Cervical Cancer Elimination Progress Report, publicado em novembro. Conforme os dados mais recentes, o país já apresenta indicadores compatíveis com a meta global de eliminação da doença, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde.
Enquanto isso, o Brasil, mesmo enfrentando desafios estruturais e desigualdades regionais, começa a trilhar um caminho semelhante, apostando na ampliação da vacinação e na modernização do rastreamento do câncer do colo do útero dentro do Sistema Único de Saúde.
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Como a Austrália reduziu lesões, circulação do HPV e mortes
Antes de tudo, é importante entender como o país chegou a esse patamar. A virada decisiva começou em 2017, quando a Austrália substituiu o exame de Papanicolau pelo teste de HPV como método primário de rastreamento populacional. Essa mudança aumentou significativamente a capacidade de detectar infecções de alto risco antes mesmo do surgimento de lesões.
Como resultado direto, entre as mulheres acompanhadas pelo programa, a detecção de lesões precursoras de alto grau, conhecidas como HSIL, caiu 21%. Isso indica que a primeira rodada de testes identificou e tratou precocemente uma parcela significativa das alterações que poderiam evoluir para câncer invasivo.
Além disso, a circulação dos tipos mais agressivos do vírus despencou. Em 2024, a prevalência do HPV 16 e 18 — responsáveis pela maioria dos casos de câncer cervical — ficou em apenas 1,4%. Outros tipos de alto risco também apresentaram queda adicional de 6,9% desde 2019, reforçando o impacto coletivo da vacinação e do rastreamento organizado.
Consequentemente, os avanços refletiram na sobrevivência das pacientes. A taxa de sobrevida em cinco anos subiu de 73,9% para 76,8%, segundo dados oficiais do governo australiano. Trata-se de um crescimento relevante em um indicador historicamente sensível à qualidade do diagnóstico e do tratamento.
Os números de cobertura também impressionam. Até o fim de 2024, 85% das mulheres entre 35 e 39 anos já haviam realizado ao menos um teste de HPV. Considerando exames atualizados, a cobertura nacional chegou a 74,2%. Entre 2019 e 2023, mais de 5 milhões de pessoas participaram do programa, aproximando o país da meta de eliminação do câncer cervical como problema de saúde pública.
Brasil avança com vacinação, DNA-HPV e mudanças no rastreamento
Enquanto a Austrália colhe os resultados de uma estratégia iniciada há mais de uma década, o Brasil vive um momento decisivo. O país possui um dos maiores programas públicos de imunização do mundo e vem ampliando a proteção contra o HPV de forma consistente.
O HPV está relacionado a cerca de 80% dos casos de câncer do colo do útero. Além disso, também está associado a cânceres de vulva, pênis, ânus e orofaringe. A infecção é extremamente comum e ocorre, principalmente, por via sexual, muitas vezes de forma silenciosa.
A vacina contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo SUS, é hoje a principal ferramenta de prevenção. Em 2024, a cobertura da primeira dose entre meninas ultrapassou 82%, superando a média global. Entre os meninos, a cobertura chegou a 67%, com crescimento gradual nos últimos anos.
Desde 2023, o Brasil também ampliou os grupos prioritários para vacinação, incluindo vítimas de violência sexual, uma medida que fortalece a proteção em situações de maior vulnerabilidade.
Outro marco importante ocorreu em 2025, quando o país iniciou a implantação do teste de DNA-HPV como método primário de rastreamento, substituindo progressivamente o Papanicolau. Essa mudança traz benefícios claros, como maior sensibilidade para identificar o risco, intervalos de até cinco anos após um exame negativo, possibilidade de autocoleta em populações específicas e identificação precoce antes do surgimento de lesões.
A tecnologia já está disponível. No entanto, o desafio agora é garantir acesso equitativo, logística eficiente e continuidade do cuidado em todas as regiões do país, especialmente nas áreas mais vulneráveis.
Impacto da doença, desigualdades e importância do diagnóstico precoce
Apesar dos avanços, o câncer do colo do útero ainda representa uma carga significativa no Brasil. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer, o país registra aproximadamente 17 mil novos casos por ano no triênio 2023–2025.
A doença permanece entre as principais causas de morte por câncer entre mulheres jovens. As desigualdades regionais seguem como um obstáculo importante. Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de incidência e mortalidade, reflexo do acesso irregular a exames preventivos, diagnóstico tardio e dificuldades no acompanhamento do tratamento.
Nas fases iniciais, o câncer do colo do útero costuma ser silencioso, o que torna o rastreamento regular essencial. Ainda assim, alguns sinais merecem atenção, como sangramento fora do período menstrual, sangramento após a relação sexual, corrimento persistente e anormal e dor pélvica.
Quando identificado precocemente, o tratamento tende a ser menos invasivo e as chances de cura são significativamente maiores. Por isso, a combinação entre vacinação, exames regulares e acesso ao sistema de saúde continua sendo o caminho mais eficaz para reduzir mortes evitáveis.
A experiência australiana mostra que, com estratégia, continuidade e políticas públicas bem executadas, é possível mudar o curso de uma doença que ainda impacta milhares de famílias. O Brasil, ao avançar na mesma direção, dá sinais claros de que também pode alcançar resultados semelhantes nos próximos anos.
Se a prevenção e o diagnóstico precoce já mostram resultados tão claros, o que ainda falta para que o Brasil consiga eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública?
Fonte: Só Notícia Boa
