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Com recirculação de 99% da água e produção de milhões de quilos por ano, a Atlantic Sapphire construiu a maior fazenda de salmão em terra firme do mundo, desafiando o modelo tradicional de criação no mar

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Escrito por Débora Araújo Publicado em 19/02/2026 às 12:30 Atualizado em 19/02/2026 às 12:32
Com recirculação de 99% da água e produção de milhões de quilos por ano, a Atlantic Sapphire construiu a maior fazenda de salmão em terra firme do mundo, desafiando o modelo tradicional de criação no mar
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Atlantic Sapphire opera na Flórida a maior fazenda de salmão em terra com sistema RAS, recirculando 99% da água e produzindo milhões de quilos por ano.

Em 2020, a empresa norueguesa Atlantic Sapphire iniciou oficialmente a produção comercial em sua unidade Bluehouse, localizada em Homestead, no sul da Flórida, Estados Unidos. O projeto rapidamente chamou atenção do setor aquícola global por uma razão objetiva: criar salmão do Atlântico longe do oceano, utilizando sistemas fechados de recirculação de água, conhecidos como RAS (Recirculating Aquaculture System), com reaproveitamento de até 99% da água utilizada no processo.

A proposta não é apenas inovadora do ponto de vista ambiental. Ela altera a lógica histórica da produção de salmão, tradicionalmente concentrada em gaiolas marinhas abertas na Noruega, Chile, Escócia e Canadá. A Atlantic Sapphire aposta em infraestrutura industrial em terra firme para reduzir riscos sanitários, controlar totalmente o ambiente de cultivo e aproximar a produção dos principais mercados consumidores.

O contexto da aquicultura e o limite do modelo oceânico

A criação de salmão em mar aberto consolidou-se nas últimas décadas como uma das principais fontes globais de proteína animal de alto valor agregado. Países como Noruega e Chile lideram a produção mundial, baseada em estruturas flutuantes instaladas em fiordes e áreas costeiras protegidas.

Entretanto, esse modelo enfrenta desafios técnicos crescentes. Parasitas como o piolho-do-mar, doenças bacterianas, escapes de peixes para o ambiente natural e impactos ambientais associados a dejetos acumulados sob as gaiolas pressionam reguladores e consumidores. Além disso, restrições ambientais e limites de expansão costeira impõem barreiras ao crescimento da capacidade produtiva.

É nesse cenário que sistemas RAS passaram a ganhar relevância. Ao transferir a produção para ambientes fechados em terra firme, elimina-se o contato direto com o oceano, reduzindo a exposição a patógenos externos e permitindo controle rigoroso de temperatura, oxigenação, qualidade da água e densidade populacional.

A Atlantic Sapphire foi uma das empresas que decidiram levar essa lógica ao extremo: criar salmão em escala industrial em plena Flórida, distante milhares de quilômetros dos fiordes noruegueses.

O funcionamento do sistema RAS e a engenharia por trás da recirculação de 99% da água

O sistema RAS utilizado na Bluehouse baseia-se em um circuito fechado de água que passa por múltiplas etapas de filtragem e tratamento antes de retornar aos tanques de cultivo.

O processo envolve filtragem mecânica para remoção de sólidos, biofiltros que convertem amônia em nitrato por meio de bactérias nitrificantes, degaseificação para retirada de dióxido de carbono, controle preciso de oxigênio dissolvido e ajustes de pH e temperatura. A água é constantemente monitorada por sensores automatizados que medem parâmetros químicos e físicos em tempo real.

O índice de recirculação de 99% significa que apenas cerca de 1% da água é substituída diariamente. Essa taxa reduz drasticamente o consumo hídrico quando comparada a sistemas convencionais de fluxo contínuo.

Além do controle hídrico, a estrutura inclui tanques circulares de grande diâmetro, projetados para otimizar o fluxo hidráulico e permitir que resíduos sejam direcionados automaticamente aos sistemas de coleta. A densidade de estocagem é calculada com base em capacidade de oxigenação e remoção de resíduos metabólicos, evitando estresse excessivo nos peixes.

Essa engenharia transforma o cultivo de salmão em uma operação industrial de alta precisão, mais próxima de uma planta de processamento químico do que de uma fazenda tradicional.

Tecnologia aplicada, controle sanitário e padronização industrial

Um dos pilares estratégicos do projeto é o controle sanitário. Em sistemas marinhos abertos, surtos de doenças podem se espalhar rapidamente entre fazendas conectadas pelo mesmo ambiente oceânico. Em um sistema fechado, a biosegurança é reforçada por barreiras físicas, controle de acesso e protocolos de desinfecção.

A Atlantic Sapphire também controla artificialmente a temperatura da água, permitindo crescimento contínuo ao longo do ano. Em ambientes naturais, variações sazonais impactam diretamente o ciclo produtivo. No RAS, o salmão cresce sob condições térmicas estáveis, acelerando previsibilidade e planejamento de abate.

Outro diferencial é a proximidade com o mercado consumidor norte-americano. Ao produzir na Flórida, a empresa reduz a necessidade de transporte aéreo de salmão fresco vindo da Europa ou do Chile, diminuindo tempo de entrega e emissões associadas à logística internacional.

Essa estratégia se insere em um movimento maior de regionalização da produção de alimentos, buscando reduzir cadeias longas e vulneráveis.

Escala produtiva, números industriais e impacto econômico

A unidade Bluehouse foi projetada em fases. A meta divulgada pela empresa para capacidade total do projeto gira em torno de dezenas de milhares de toneladas anuais quando totalmente expandido. Nos primeiros anos de operação comercial, a produção foi gradualmente escalada, atingindo milhões de quilos por ano.

É fundamental diferenciar produção efetiva anual de capacidade instalada projetada. A capacidade final anunciada refere-se ao potencial máximo após conclusão de todas as fases de expansão. Já os números de produção anual refletem volumes efetivamente colhidos e comercializados em cada exercício fiscal.

A construção da planta envolveu investimentos de centenas de milhões de dólares, tornando-se um dos maiores aportes em aquicultura terrestre do mundo. O projeto também gerou empregos locais e posicionou os Estados Unidos como um player emergente em salmão cultivado em terra firme.

A proposta, contudo, não se limita a volume. Trata-se de redefinir o padrão tecnológico da indústria, demonstrando que é possível produzir proteína marinha de alto valor sem depender diretamente do oceano.

Desafios técnicos, riscos e limites do modelo

Apesar da promessa tecnológica, sistemas RAS em larga escala não são isentos de riscos. Falhas elétricas, problemas de bombeamento ou falhas no sistema de biofiltração podem comprometer rapidamente a qualidade da água. Em ambientes de alta densidade, minutos podem ser decisivos.

Além disso, o consumo energético é elevado. Bombas, sistemas de oxigenação, controle térmico e monitoramento contínuo demandam fornecimento constante de energia. Isso levanta questionamentos sobre pegada de carbono e eficiência energética do modelo, dependendo da matriz elétrica utilizada.

Outro desafio é o custo inicial de implantação. O CAPEX de uma instalação RAS de grande porte é significativamente superior ao de uma fazenda marinha convencional. O retorno financeiro depende de eficiência operacional, controle de mortalidade e estabilidade de mercado.

Há ainda o fator biológico. O salmão é uma espécie migratória adaptada a ambientes naturais complexos. Reproduzir artificialmente condições ideais exige ajustes contínuos, pesquisa genética e manejo técnico especializado.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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