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Após quase desaparecer completamente do planeta, a onça-pintada passou a ter células clonadas em laboratório, embriões formados fora do útero e virou aposta científica para evitar uma extinção silenciosa

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Escrito por Jefferson Augusto Publicado em 25/01/2026 às 09:37
onça-pintada em laboratório durante processo de clonagem
Animais clonados representam nova fronteira da conservação genética
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Após quase desaparecer completamente do planeta, a onça-pintada passou a ter células clonadas em laboratório, embriões formados fora do útero e virou aposta científica para evitar uma extinção silenciosa

Imagine acompanhar uma caçada que não termina com a morte do animal, mas com a tentativa de salvá-lo do desaparecimento definitivo. Foi exatamente esse cenário que se desenrolou na Fazenda Bodoquena, em Miranda, no Mato Grosso do Sul, onde cientistas passaram dias tentando capturar uma onça-pintada para coletar algo mais valioso do que sangue ou sêmen: células capazes de manter viva a genética da espécie.

A informação foi divulgada em reportagem assinada por Xavier Bartaburu, com dados obtidos diretamente em campo junto a pesquisadores brasileiros especializados em reprodução assistida de animais silvestres. Conforme o material apurado, a ciência passou a apostar em uma fronteira sensível entre ética, tecnologia e sobrevivência da biodiversidade.

A captura que mudou o rumo da pesquisa com onças-pintadas

Primeiramente, a equipe chegou à Fazenda Bodoquena ao entardecer, após a identificação de uma carcaça de bovino. Como as onças costumam retornar ao local por alguns dias, a estratégia parecia segura. No entanto, a captura não seria simples. Em duas tentativas consecutivas, o animal conseguiu desarmar o laço e escapar.

Somente no terceiro dia, às 21h10, um macho adulto foi registrado pela câmera e acabou preso. Em seguida, iniciou-se uma operação de três horas. O animal recebeu anestesia, foi pesado — 113 quilos — e passou por uma série de coletas biológicas. Entre elas estavam sangue, pelos, carrapatos, sêmen e um pequeno fragmento da orelha.

Esse detalhe, aparentemente simples, tornou-se o ponto central da pesquisa. Embora o sêmen coletado estivesse inviável, possivelmente devido às baixas temperaturas da noite, o tecido da orelha guardava uma alternativa inesperada: células somáticas capazes de gerar embriões por clonagem.

O animal, batizado de Leonço, tinha cerca de oito anos. Na natureza, machos costumam viver até 13 anos, muitas vezes com marcas de brigas territoriais. Após o procedimento, ele despertou da anestesia e retornou à mata, enquanto seu material genético seguia para um laboratório.

Do Pantanal ao laboratório: como funciona a clonagem da onça-pintada

No dia seguinte, os pesquisadores retornaram a Campo Grande, onde funciona o laboratório do Reprocon, grupo de pesquisa ligado ao biotério central da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Ali começou uma nova etapa: o cultivo das células retiradas da orelha.

Essas amostras liberam fibroblastos, células somáticas da mesma família das células-tronco. Em apenas um mês, dois centímetros de tecido podem gerar entre 20 e 30 milhões de células, cada uma com potencial para originar um embrião clonado.

O processo envolve a remoção do material genético de um óvulo — chamado de oócito — e a inserção do fibroblasto. Em seguida, ocorre uma eletrofusão, que ativa o desenvolvimento embrionário. Posteriormente, o embrião precisa ser transferido para uma fêmea para completar a gestação.

Em 2023, o grupo conseguiu avançar até o estágio de mórula, três dias após a fecundação. Para 2025, a expectativa é iniciar as primeiras tentativas de transferência embrionária.

Esse avanço só foi possível porque o Reprocon mantém o maior biobanco de onças-pintadas do mundo, com:

  • sangue de cerca de 160 indivíduos;
  • tecido de 60 onças;
  • sêmen de 30 machos.

Todo o material permanece armazenado em botijões de nitrogênio líquido, garantindo preservação genética de longo prazo.

A realidade da onça-pintada no Brasil e o risco da extinção silenciosa

A onça-pintada é o maior felino das Américas e ocupa quase todos os biomas brasileiros, com exceção dos Pampas. No entanto, a situação varia drasticamente conforme a região.

Estudos recentes indicam:

  • entre 10 e 21 mil indivíduos na Amazônia;
  • até 5 mil no Pantanal;
  • cerca de mil no Cerrado;
  • menos de 250 adultos na Mata Atlântica e na Caatinga, onde a espécie está criticamente ameaçada.

Além disso, a fragmentação de habitat reduziu a dispersão natural dos machos, que normalmente percorrem grandes áreas. Dependendo da oferta de presas, o território de uma onça pode variar de 5 a 400 km². No Pantanal, alguns indivíduos ultrapassam 130 kg, enquanto na Caatinga podem pesar apenas 50 kg.

Entretanto, rodovias, expansão agropecuária e conflitos com humanos intensificaram as mortes por retaliação e atropelamento. Entre 2016 e 2023, por exemplo, 19 onças morreram apenas na BR-262, entre Miranda e Corumbá.

Nesse contexto, a clonagem não surge como solução única, mas como uma ferramenta complementar. Ela permite preservar material genético de populações isoladas, reduzir a consanguinidade e manter opções futuras de reintrodução.

Por que a clonagem não substitui a conservação tradicional

Apesar do impacto científico, os próprios pesquisadores alertam: clonagem não salva espécies sozinha. Antes de tudo, é essencial preservar áreas naturais, criar corredores ecológicos e reduzir conflitos com comunidades locais.

Ainda assim, em biomas fragmentados como a Mata Atlântica, onde conectar áreas se tornou inviável, a reprodução assistida surge como alternativa estratégica. Técnicas como inseminação artificial, fertilização in vitro e clonagem permitem levar genética de uma região para outra sem deslocar animais adultos.

Além disso, novas tecnologias ampliam as possibilidades. Dispositivos microfluídicos desenvolvidos no Brasil, que custam cerca de 15 dólares, substituem equipamentos caros de laboratório e podem ser usados diretamente no campo. Cada unidade pode ser reutilizada até nove vezes, facilitando a coleta e seleção de células viáveis.

Portanto, a clonagem da onça-pintada não representa um experimento isolado, mas parte de um esforço maior para evitar que a espécie desapareça sem que o mundo perceba.

O futuro da espécie entre ciência, ética e sobrevivência

À medida que a tecnologia avança, surgem também dúvidas éticas e científicas. Ainda não se sabe se um animal clonado viverá menos, se poderá se reproduzir ou se estará apto a retornar à natureza. Por isso, cada etapa exige acompanhamento rigoroso.

Mesmo assim, os pesquisadores defendem que deixar de agir seria mais arriscado. Em um cenário de mudanças aceleradas, armazenar genética hoje pode ser a única chance de recuperação amanhã.

No fim, a história da onça-pintada revela mais do que um avanço científico. Ela expõe o limite entre perda e esperança, mostrando que, quando a natureza já não consegue se salvar sozinha, a ciência pode — e talvez deva — tentar ajudar.


Até onde a ciência deve ir para evitar a extinção de uma espécie que já perdeu quase todo o seu espaço na natureza?

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Kleber
Kleber
30/01/2026 16:10

Tem quer muito alienado pra achar que Onça Pintada quase extinguiu… Isso só prova que não se conhece o Brasil….

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Jefferson Augusto

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