A perfuração de 22 anos pelo AARI da Rússia atingiu em 5 de fevereiro de 2012 o Lago Vostok a 3.769 metros sob o gelo da Antártida, o maior lago subglacial do planeta isolado por 15 a 25 milhões de anos, mas os achados biológicos foram contestados por suspeita de contaminação.
Em 5 de fevereiro de 2012, uma equipe do Arctic and Antarctic Research Institute (AARI) da Rússia completou uma das operações de perfuração mais longas e difíceis da história da ciência ao atingir a superfície do Lago Vostok, reservatório de água líquida localizado sob 3.769 metros de gelo no leste da Antártida. A perfuração começou em 1990, foi suspensa em 1998 a 130 metros da água por preocupações com contaminação biológica, retomada em 2003 com novos protocolos e concluída 22 anos depois do início, sob temperaturas que na estação Vostok já atingiram o recorde mundial de menos 89,2 graus Celsius registrado em 1983. O lago que os cientistas alcançaram está isolado da atmosfera terrestre por estimados 15 a 25 milhões de anos, período anterior à evolução dos primatas modernos e que faz do Vostok uma cápsula do tempo geológica sem paralelo no planeta.
A importância da perfuração vai além do feito técnico: o Lago Vostok é considerado o análogo terrestre mais próximo dos oceanos subterrâneos que missões espaciais buscam explorar em luas geladas de Júpiter e Saturno. Se o lago abrigar formas de vida que sobreviveram isoladas por milhões de anos em escuridão total, sob pressão equivalente a 4 km de profundidade oceânica e a temperatura de menos 2,5 graus Celsius mantida líquida pela pressão do gelo acima e por possível geotermia abaixo, a descoberta reforçaria a hipótese de que vida pode existir em Europa (lua de Júpiter) e Encélado (lua de Saturno), onde condições similares foram identificadas por sondas espaciais. No entanto, os achados biológicos da expedição russa permanecem disputados pela comunidade científica, e a resposta definitiva sobre o que vive nas águas do Vostok ainda não foi dada com a certeza que a ciência exige.
Como o Lago Vostok foi descoberto décadas antes da perfuração começar

A história do Lago Vostok começa muito antes da perfuração que o alcançou em 2012. A estação Vostok foi instalada pela União Soviética em 1956 no leste antártico, e entre 1959 e 1964 o cientista russo Andrey Kapitsa propôs pela primeira vez, com base em medições sísmicas, que um corpo de água líquida poderia existir sob os quilômetros de gelo abaixo da estação, hipótese que levou décadas para ser confirmada. Medições de radar de penetração nos anos 1970 e 1980 reforçaram a possibilidade, mas a confirmação definitiva só veio em 1996, quando estudo conjunto de pesquisadores britânicos e russos publicado na revista Nature comprovou a existência do maior lago subglacial conhecido do planeta.
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O lago revelado pelas medições tem dimensões que surpreendem por estarem escondidas sob gelo milenar. Com cerca de 12.500 quilômetros quadrados de área (comparável ao estado de Sergipe), 250 quilômetros de comprimento e profundidade que chega a 800 metros em alguns pontos, o Lago Vostok contém volume estimado de 5.400 quilômetros cúbicos de água, mantida em estado líquido apesar de temperaturas superficiais que fazem da estação Vostok o ponto mais frio já registrado na Terra. A perfuração que começaria em 1990 enfrentaria não apenas a espessura do gelo e o frio extremo, mas também um dilema científico e ético: como acessar um ecossistema isolado por milhões de anos sem destruí-lo com contaminação no processo.
Por que a perfuração foi interrompida e o que mudou quando recomeçou

A suspensão da perfuração em 1998 aconteceu por pressão da própria comunidade científica internacional. O Comitê Científico de Pesquisa Antártica (SCAR) recomendou a paralisação quando a broca estava a apenas 130 metros da superfície do lago, argumentando que o fluido de perfuração à base de querosene usado pelos russos poderia contaminar o ecossistema lacustre e destruir exatamente o que a expedição buscava encontrar. A perfuração ficou parada por cinco anos enquanto a equipe russa desenvolvia novos protocolos que prometiam evitar que o fluido de perfuração entrasse em contato direto com a água do lago, solução que envolveu criar pressão negativa no poço para que a água do lago subisse naturalmente pelo furo em vez de o fluido descer.
A retomada em 2003 marcou o início da fase final da perfuração que duraria mais nove anos até o contato com a água. Os cientistas trabalhavam apenas durante o verão austral, entre dezembro e janeiro, quando as temperaturas na estação Vostok sobem dos menos 89 graus do inverno para “apenas” menos 30 graus, e cada temporada avançava metros ou dezenas de metros na camada de gelo que separava a broca da superfície do lago. Em 5 de fevereiro de 2012, a perfuração atingiu 3.769,3 metros e a água do Lago Vostok subiu pelo furo, congelando ao entrar em contato com o ambiente mais frio do poço e formando um cilindro de gelo que os cientistas extraíram nas temporadas seguintes como amostra do material lacustre.
O que os cientistas encontraram nas amostras e por que o debate continua
A análise do material extraído do Lago Vostok produziu anúncio que gerou entusiasmo e controvérsia em medida semelhante. Em 2013, cientistas do St. Petersburg Nuclear Physics Institute liderados por Sergei Bulat anunciaram ter identificado nas amostras uma bactéria com apenas 86% de correspondência com espécies conhecidas em bancos de dados internacionais, percentual que sugeriria forma de vida potencialmente nova, descoberta que se confirmada tornaria o Lago Vostok o primeiro ecossistema isolado da Terra onde vida desconhecida foi documentada. Em análises posteriores do mesmo material, pesquisadores identificaram sinais genéticos de até 3.507 espécies potenciais, incluindo bactérias, fungos e eucariotos.
A contestação veio de dentro da própria equipe russa. Vladimir Korolyov, chefe de um dos laboratórios envolvidos na análise, discordou publicamente dos resultados em março de 2013, apontando que a bactéria identificada poderia usar querosene como fonte de energia, material idêntico ao fluido de perfuração, levantando suspeita de que o organismo era contaminante, não residente do lago. Estudos realizados em 2014, 2015 e 2018 identificaram 255 espécies como contaminantes, e o paper mais recente, de 2022, com amostras coletadas em 2018, sugere que a maior parte do material genético encontrado nas primeiras análises é de contaminação. O achado mais sólido até agora é a bactéria Methylobacterium sp. strain V23, isolada do gelo de acreção (não da água direta do lago), cujo genoma foi sequenciado e publicado, mas que também não está livre de dúvidas sobre contaminação.
O que o Lago Vostok tem a ver com Europa e a busca por vida fora da Terra
A conexão entre a perfuração na Antártida e a exploração espacial é o que dá ao Lago Vostok relevância que ultrapassa a geologia terrestre. Europa, lua de Júpiter, possui evidências de oceano de água líquida sob crosta de gelo estimada entre 15 e 25 quilômetros de espessura, e Encélado, lua de Saturno, lança jatos de água ao espaço a partir de oceano subterrâneo, ambientes que compartilham com o Lago Vostok as condições básicas de escuridão total, pressão extrema, temperatura abaixo de zero e isolamento da atmosfera. As técnicas de perfuração desenvolvidas pelos russos e os protocolos de proteção contra contaminação testados em Vostok são considerados ensaio para futuras missões que tentarão perfurar o gelo de Europa, desafio que a NASA Europa Clipper, lançada em outubro de 2024, começará a preparar ao estudar a lua entre 2030 e 2034.
Os debates sobre contaminação que cercam os achados de Vostok também servem como alerta para missões espaciais. Se a ciência não consegue garantir que amostras extraídas de um lago na Terra estejam livres de contaminação pelo próprio processo de extração, o desafio de fazer o mesmo em Europa ou Encélado, onde os custos e a complexidade são incomparavelmente maiores, exige soluções que ainda não existem. A perfuração de 22 anos no gelo antártico pode ser, portanto, menos uma conquista isolada e mais o prólogo de uma história que as próximas décadas de exploração espacial continuarão escrevendo em mundos gelados a centenas de milhões de quilômetros da Antártida.
E você, acha que o Lago Vostok abriga vida desconhecida ou os achados são contaminação? Deixe sua opinião nos comentários.


Nāo deu en nada…nem precisava
Dis-se a lenda, não meche com Que está quieto.
Ou seja, perigo real é imediato. O ser humano as vezes faz coisas que custam muitas vidas e na maiorias destas perdidas nunca é daqueles que criaram a ideia. Sempre são os filhos dos outros sacrificados no processo.
Você poderia “aprofundar” seus estudos de português.
Mentira