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Após ataque dos EUA e captura de Maduro, Venezuela entra em cenário explosivo, militares viram peça central da sucessão e especialistas alertam para risco de guerra civil e disputa interna pelo poder

Escrito por Carla Teles
Publicado em 03/01/2026 às 12:34
Após ataque dos EUA e captura de Maduro, Venezuela entra em cenário explosivo, militares viram peça central da sucessão e especialistas alertam para risco de guerra civil
Análise da captura de Maduro e da crise na Venezuela, com foco na sucessão política, nas Forças Armadas e no risco real de guerra civil no país.
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Especialistas avaliam que a captura de Maduro após o ataque dos Estados Unidos abriu uma fase explosiva na Venezuela, em que a disputa pelo comando do país deixou de ser apenas política e passou a envolver diretamente a cúpula militar. A operação da madrugada, que removeu o ditador do Palácio de Miraflores, não encerrou a crise, apenas mudou o tipo de conflito.

Pela Constituição, a vice-presidente Delcy Rodríguez seria a primeira na fila para assumir, seguida pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez. Mas, como explica o pesquisador Vitélio Brustolin, esse desenho foi pensado para situações internas, não para um cenário em que uma força estrangeira derruba e promove a captura de Maduro. Na prática, a sucessão virou um xadrez em que cada peça mede força com as Forças Armadas para ver quem consegue governar de fato.

O que muda na Venezuela depois da captura de Maduro

A captura de Maduro rompeu o pouco de previsibilidade que ainda existia na política venezuelana. Até o ataque americano, o regime se sustentava em três pilares principais: controle institucional, apoio militar e repressão sistemática à oposição. Com o líder fora de cena, o país entra em uma fase de transição sem roteiro claro.

Brustolin lembra que, tecnicamente, Delcy Rodríguez já se apresentou como sucessora, chegou a pedir provas de vida de Maduro e tenta ocupar o espaço de comando. O problema é que a legitimidade dessa sucessão está sendo contestada dentro e fora da Venezuela, o que agrava a incerteza. A dúvida não é apenas quem assume no papel, mas quem controla, na prática, ministérios, estatais, empresas estratégicas e, principalmente, os quartéis.

Linha sucessória em choque com a intervenção externa

A Constituição da Venezuela prevê que a vice-presidente assuma em caso de ausência do presidente, para depois, se necessário, passar a faixa ao presidente da Assembleia Nacional.

Em tese, seria um processo linear, com Delcy Rodríguez à frente e Jorge Rodríguez logo atrás.

Só que a captura de Maduro pelas mãos dos Estados Unidos criou uma situação de exceção. Brustolin destaca que a lógica constitucional foi elaborada para crises internas, não para uma deposição promovida por um ataque estrangeiro.

Parte da elite política e militar pode considerar que esse tipo de afastamento quebra o sentido original da sucessão e abre espaço para interpretações diferentes da mesma regra.

É aí que surgem riscos concretos: grupos próximos à vice-presidência, à Assembleia Nacional e a outras figuras do regime podem tentar reivindicar o comando ao mesmo tempo, cada um usando a Constituição a seu favor.

Sem um consenso mínimo, o país pode ver nascer governos paralelos e lealdades divididas, com impacto direto na rua, nas instituições e na economia.

Forças Armadas: de sustentação do regime a árbitro do pós-Maduro

Se a política entrou em curto-circuito, os holofotes se voltam para o único ator capaz de decidir, na prática, quem governa: as Forças Armadas.

Segundo Brustolin, a Venezuela tem mais de 2 mil generais para um efetivo de cerca de 340 mil membros, incluindo forças paramilitares, um número muito acima de países como o Brasil, que possui aproximadamente 300 generais para um contingente semelhante.

Esse inchaço não é por acaso. Ao longo dos anos, Maduro distribuiu postos e privilégios, colocando militares no comando de áreas estratégicas, como emissoras de TV estatais, setores de mineração e órgãos de controle econômico.

Há relatórios que ligam parte desses oficiais a atividades ilícitas, como tráfico de drogas e câmbio paralelo, o que torna a permanência no poder uma questão de sobrevivência pessoal para muitos deles.

Em um cenário de captura de Maduro, a pergunta central é: qual fração das Forças Armadas aceitará negociar uma transição e qual preferirá resistir para preservar privilégios e evitar responsabilizações?

A resposta a essa pergunta define se o país caminha para uma saída pactuada ou para um confronto interno.

Anistia, guerra civil e pressão sobre os militares

Uma das propostas colocadas na mesa antes mesmo da captura de Maduro vinha do candidato Edmundo Gonzalez nas eleições de 2024: oferecer algum tipo de anistia aos militares para facilitar uma transição sem derramamento de sangue.

A ideia é criar um incentivo para que generais abandonem o núcleo duro do regime sem temer automaticamente prisões e julgamentos.

Brustolin destaca que Gonzalez enxerga a anistia como uma possível barreira contra uma guerra civil. Se a queda de Maduro for seguida de promessas de punição imediata e irrestrita, a tendência é que setores armados lutem até o fim para não perder tudo.

Por outro lado, uma anistia ampla demais pode ser vista como impunidade diante de acusações de perseguição, tortura e assassinatos documentadas em relatórios da ONU.

Esse dilema coloca a Venezuela em uma encruzilhada: como equilibrar justiça mínima para as vítimas, estabilidade política e desmobilização de militares envolvidos com o regime?

Sem um acordo razoável, a combinação de armas, medo e desejo de vingança pode empurrar o país para um conflito interno de grandes proporções.

A população civil no meio do fogo cruzado

Enquanto elites políticas e militares calculam movimentos, a população venezuelana continua sendo a parte mais vulnerável do tabuleiro. Segundo Brustolin, a sociedade sofre há mais de 25 anos sob um regime autoritário, com crises econômicas sucessivas, migração em massa e deterioração de serviços básicos.

Em um cenário de tensão após a captura de Maduro, civis não têm meios para enfrentar forças armadas bem equipadas.

A população, em grande parte desarmada e já exausta, corre o risco de se tornar refém de confrontos entre grupos rivais que disputam ministérios, territórios e fontes de renda.

Qualquer erro de cálculo na transição pode se traduzir em repressão mais dura, deslocamentos forçados e aumento da violência em grandes cidades e fronteiras.

O que está em jogo no dia seguinte à captura de Maduro

A captura de Maduro não resolveu a crise venezuelana, apenas inaugurou uma fase nova e mais instável. O que está em jogo agora é se a Venezuela será capaz de usar essa ruptura como ponto de partida para reconstruir instituições e negociar uma saída menos traumática, ou se o país vai deslizar para uma espiral de radicalização, com as Forças Armadas divididas e a ameaça real de guerra civil.

Para isso, será decisivo observar três movimentos:
1. Como Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez vão se posicionar na disputa pela sucessão política.
2. Que tipo de garantia ou anistia será oferecida a militares e civis ligados ao núcleo duro do regime.
3. Qual será o papel da comunidade internacional, que pode tanto mediar quanto ampliar tensões, dependendo de como agir.

No fim, por trás de siglas, cargos e estratégias, está uma população cansada, que vê na queda do ditador a chance de virar a página, mas que teme pagar de novo a conta de decisões tomadas nos bastidores.

Diante desse cenário, você acredita que uma transição negociada depois da captura de Maduro é possível ou acha que a Venezuela está mais perto de uma guerra civil do que de um acordo político real?

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Carla Teles

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