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Aos 96 anos o último sobrevivente de colônia de japoneses que chegou à Amazônia em 1929 viu sua comunidade criar um método agrícola que transforma pastagens destruídas em florestas que produzem comida o ano inteiro e atraem pesquisadores do mundo todo

Publicado em 06/04/2026 às 15:19
Atualizado em 06/04/2026 às 15:23
Assista o vídeoJaponeses de Tomé-Açu na Amazônia criaram agroflorestas que recuperam pastagens e produzem cacau e pimenta-do-reino o ano todo. Conheça essa história centenária.
Japoneses de Tomé-Açu na Amazônia criaram agroflorestas que recuperam pastagens e produzem cacau e pimenta-do-reino o ano todo. Conheça essa história centenária.
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Os japoneses que chegaram a Tomé-Açu no Pará sobreviveram à malária foram perseguidos na Segunda Guerra e perderam tudo com uma praga nos anos 70 mas observando ribeirinhos e resgatando técnicas milenares criaram agroflorestas que recuperam áreas degradadas produzem 12 meses por ano e exportam cacau premium para o Japão

Segundo o portal BBC News Brasil, Hajime Yamada tem 96 anos e é a última pessoa viva que integrou a primeira leva de japoneses a desembarcar em Tomé-Açu, no interior do Pará, em 1929. Chegou bebê, com dois anos de idade, e se criou no meio da mata. “Nós morávamos numa barraca, casa de madeira, coberta de cavaco, piso de chão. Pobre mesmo, sempre foi pobre”, conta ele. A história dos japoneses que vieram parar na Amazônia é feita de perda, adaptação e reinvenção e culmina num método agrícola que hoje atrai pesquisadores do mundo inteiro.

O que essa comunidade de japoneses criou em Tomé-Açu é algo que nenhuma campanha ambientalista conseguiu em escala: um sistema de plantio que recupera solos esgotados e áreas desmatadas enquanto produz alimentos o ano todo, sem agrotóxicos e sem fertilizantes químicos. Pastagens abandonadas que há 15 anos não tinham uma única árvore hoje parecem floresta fechada com cacau, açaí, pimenta-do-reino e dezenas de espécies convivendo num sistema que os japoneses de Tomé-Açu moldaram observando a própria natureza da Amazônia.

Como os japoneses foram parar na Amazônia nos anos 1920

Nos anos 1920, o Japão vivia uma grave recessão econômica. O governador do Pará entrou em contato com o embaixador japonês no Rio de Janeiro para pleitear a vinda de imigrantes que ajudassem no desenvolvimento agrícola da região.

Cada família de japoneses que chegava recebia um lote de 25 hectares coberto por floresta densa, onde precisava derrubar árvores para construir casas e abrir espaço para plantações de arroz, feijão, fumo e cacau.

A ideia original era temporária: os japoneses ficariam alguns anos, juntariam dinheiro e voltariam para o Japão. Mas isso não aconteceu para a maioria. As famílias fincaram raízes na Amazônia e enfrentaram de tudo malária, isolamento e condições de vida precárias.

Uma coisa, porém, deixou os japoneses à vontade: a abundância de madeira. Eles já sabiam trabalhar com ela e usaram as árvores locais para construir casas tradicionais japonesas com técnicas de encaixe que não usam nenhum prego ou parafuso.

A perseguição durante a guerra e a bomba que destruiu a cidade natal de Hajime

Hajime Yamada

Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo, os japoneses de Tomé-Açu foram considerados inimigos do Estado.

Passaram a ser vigiados de perto pelas autoridades e perderam liberdades básicas. Se a polícia encontrava três japoneses conversando juntos, eram presos. Os mais velhos descrevem aquele período como uma espécie de campo de concentração.

O fim da guerra trouxe alívio mas também uma notícia devastadora para Hajime Yamada. Sua cidade natal, Hiroshima, havia sido destruída por uma bomba atômica.

“Bomba atômica deixou muita gente doido. Queimava a pele da gente. Acho que se eu tivesse ficado lá, teria morrido”, lembra o sobrevivente. Aos 96 anos, ele reconhece que a decisão da família de vir para o Brasil salvou sua vida.

Os japoneses que ficaram no Japão enfrentaram a destruição; os que vieram para a Amazônia construíram uma comunidade que perdura quase um século depois.

A era da pimenta-do-reino e a praga que destruiu tudo

A partir dos anos 1960, a comunidade de japoneses em Tomé-Açu viveu seu apogeu graças ao cultivo de pimenta-do-reino, que estava com preços altos no mercado internacional.

Várias famílias se dedicaram à atividade e prosperaram construíram os principais edifícios do município, incluindo um hospital nos anos 50. Os japoneses eram a força econômica de Tomé-Açu.

Até que na década de 1970, uma praga chamada fusariose dizimou as plantações e encerrou o ciclo de prosperidade de uma vez. Os produtores ficaram sem fonte de renda e precisaram procurar alternativas desesperadamente.

A crise fez muitos japoneses de Tomé-Açu migrarem de volta para o Japão em busca de trabalho. O budismo perdeu força entre as novas gerações. Famílias ficaram divididas entre os dois países. A colônia que havia prosperado entrou em declínio mas foi justamente dessa crise que nasceu a inovação que tornaria os japoneses de Tomé-Açu famosos no mundo.

Como os japoneses criaram florestas que produzem comida o ano inteiro

Sem a pimenta-do-reino, os agricultores precisavam de um novo caminho. Um dos dirigentes da cooperativa dos japoneses deu um conselho que mudaria tudo: “Olhe a natureza. Aprenda com a natureza.” Observando como os ribeirinhos da Amazônia viviam com fruteiras ao redor da casa, consumindo alimentos frescos durante 12 meses, os japoneses começaram a testar um sistema de plantio que se espelhava na própria floresta.

O método privilegia a diversidade de espécies, incorpora técnicas ancestrais japonesas como o conceito de mottainai nunca desperdiçar e rejeita completamente agrotóxicos e fertilizantes químicos. As cascas de cacau são jogadas no próprio campo para virar adubo. Insetos que outros agricultores chamariam de praga são mantidos porque cumprem funções de polinização e controle natural.

Não existe o conceito de planta daninha toda espécie desempenha algum papel no sistema. Os japoneses de Tomé-Açu fundaram o que hoje se conhece como Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu, referência internacional em produção sustentável.

O que as agroflorestas dos japoneses produzem hoje em Tomé-Açu

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A propriedade de Michinori Konagano, um dos agricultores nipo-brasileiros mais conhecidos da região, tem 230 hectares cultivados com o sistema agroflorestal.

Cacau, açaí, pimenta-do-reino e dezenas de espécies florestais convivem produzindo 12 meses do ano numa área que há 15 anos era pastagem degradada e abandonada. Com o retorno da vegetação, animais voltaram a aparecer: preguiças, raposas, tatus, pacas, gaviões e corujas circulam pela propriedade.

O cacau de alta qualidade é o carro-chefe da produção. Passa por processo de fermentação e secagem antes de ser exportado, via cooperativa dos japoneses, para empresas chocolateiras no Japão. “Hoje eu me sinto culpado por ter derrubado, queimado. Com um palito de fósforo incendiamos toda a floresta”, admite Michinori, que agora dedica parte do tempo a ensinar o método agroflorestal para outros agricultores do Brasil e de outros países.

“Eu vejo essa imensidão de gente necessitando. Por que não passar esse conhecimento para todo mundo, independente de colônia japonesa?”

Você conhecia a história dos japoneses de Tomé-Açu? Acha que o sistema agroflorestal deles deveria ser replicado em toda a Amazônia? Conta nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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