Em 1973, o criador de cavalos Peter Andrews comprou a arruinada Tarwyn Park, em Nova Gales do Sul, e se recusou a arrancar os salgueiros que todos chamavam de praga. Por décadas foi denunciado e ignorado, até a sua Agricultura de Sequência Natural reabastecer riachos secos e virar referência.
Peter Andrews foi denunciado pelos vizinhos durante 30 anos, perdeu a fazenda para o banco e viu o casamento desmoronar, mas o método de recuperação de paisagens que o governo australiano rejeitou por três décadas acabou reconhecido pela ONU como um dos cinco exemplos de agricultura sustentável do mundo. A virada coroou a trajetória de um criador de cavalos de corrida sem diploma, que ousou contrariar toda a ciência oficial sobre o manejo da água.
O reconhecimento veio acompanhado de uma honraria oficial. Segundo informações do portal da ABC & climatewaterproject, em 26 de janeiro de 2011, o mesmo governo que havia rejeitado o seu trabalho por décadas concedeu a Peter Andrews a Medalha da Ordem da Austrália, e, em 2016, as Nações Unidas reconheceram a fazenda Mulloon Creek, onde a Agricultura de Sequência Natural foi aplicada, como um dos únicos cinco exemplos de agricultura genuinamente sustentável do planeta. Foi a reviravolta de uma ideia que, por anos, rendeu apenas inspeções, denúncias e prejuízo.
A fazenda arruinada de 1973 e as cadeias de lagoas que a Austrália perdeu

A história começou com um terreno que parecia perdido. Em 1973, Peter Andrews, criador de cavalos de corrida, comprou a propriedade de 12.200 hectares de Tarwyn Park, no Vale Bylong, em Nova Gales do Sul. A terra estava erodida e salinizada, o riacho central havia virado uma ravina de 2 metros de profundidade, e os cursos de água que antes cruzavam o local drenavam tudo em vez de reter.
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Para entender o desastre, é preciso saber o que a Austrália havia perdido. Antes da colonização europeia, boa parte do sudeste do país não tinha rios como os imaginamos hoje, e sim cadeias de lagoas, sequências de poças profundas ligadas por pântanos, cercadas por vegetação densa cujas raízes seguravam as margens e cujos juncos filtravam o sedimento, deixando a água infiltrar devagar e recarregar os aquíferos. Quando os colonizadores limparam a vegetação, drenaram os pântanos e deixaram o gado pisotear as margens, as lagoas viraram ravinas, e a água que ficava meses na paisagem passou a escoar em dias.
Salgueiros e barreiras: o método que contrariava a política oficial

Peter Andrews enxergou o que os cientistas não viram. Ele estudou os padrões secos onde antes existiam as lagoas e fez a pergunta que ninguém ousava: e se houver água justamente onde há salgueiros? Em vez de tratar os salgueiros como ladrões de água, ele os via como indicadores, plantas que só crescem onde a água já existe, os últimos sobreviventes de um ciclo hidrológico interrompido. A política oficial australiana classificava o salgueiro como praga de importância nacional, a ser arrancada de todos os cursos de água, e o país gastou milhões removendo a planta de mais de 30.000 km de rios.

Ele fez exatamente o contrário. Peter ergueu pequenas barreiras permeáveis no riacho, feitas de pedras do local, troncos caídos e até fardos de feno, cada uma custando entre 200 e 400 dólares australianos, e depois plantou juncos, gramíneas e salgueiros, tudo o que cresce rápido na água.

O salgueiro avança até 3 metros por ano, tolera enchentes e tem raízes que estabilizam as margens e freiam a correnteza. A lógica era simples: a água mais lenta deposita sedimento em vez de erodir, o sedimento eleva o leito, e o riacho elevado volta a se conectar com a planície aluvial.
Denunciado, falido e com o casamento desfeito
A resistência ao trabalho de Peter Andrews durou três décadas. Por 30 anos, os vizinhos o denunciaram repetidamente às autoridades de bacias hidrográficas, inspetores apareceram exigindo que ele removesse a vegetação considerada invasora, e os cientistas do governo rejeitaram as suas ideias. Cada agência que avaliou as técnicas as descartou, e todo pedido de apoio oficial foi negado.

O preço foi também pessoal. Sucessivas crises financeiras o obrigaram a perder o controle da propriedade mais de uma vez, o banco executou a hipoteca e o casamento desmoronou. Mas o filho, Stuart Andrews, conseguiu recomprar Tarwyn Park e seguiu aplicando o método do pai. Já em 1976, apenas três anos após a compra original, Peter tinha um modelo funcionando, com produtividade triplicada, mais carbono no solo e riachos antes secos correndo com água permanente.
Das provas em campo ao reconhecimento da ONU
A primeira rachadura no ceticismo veio de um bilionário. Jerry Harvey, fundador da varejista Harvey Norman, era dono do degradado haras Baramul, no Vale Widen, e, embora descrente, deixou Peter Andrews reconstruir parte da propriedade. Em dois anos, os resultados eram inegáveis. Depois veio Tony Coote, dono de uma propriedade no riacho Mulloon, que em 2005 chamou Peter para tratar um curso de água profundamente erodido, com obras iniciadas em 2006 ao longo de 3 km, com barreiras, cercas para conter o gado e milhares de plantas.
O teste definitivo veio com a seca. Sete anos depois, em meio aos sete meses mais secos já registrados na região, com menos de 150 mm de chuva, o riacho Mulloon continuava correndo, com a planície aluvial funcionando como uma esponja gigante que devolvia a água armazenada. A capacidade de suporte subiu 60% e a fazenda alimentava mais gado do que nunca durante a estiagem. Coote fundou o Instituto Mulloon em 2011 e, em 2016, as Nações Unidas reconheceram a Mulloon Creek Natural Farms como um dos cinco únicos exemplos de agricultura genuinamente sustentável do mundo.
Os limites do método e o que a ciência publicada mostra
A história também é uma lição de prudência. A evidência científica publicada ainda é limitada. Uma análise da Universidade de Melbourne, de 2018, apontou muitas anedotas e pouca ciência revisada, descrevendo resultados modestos, como reidratação da planície aluvial, pouca mudança no fluxo dos riachos e alguma retenção de sedimento, animadores, mas longe de milagrosos. Já um relatório da Universidade da Austrália Ocidental concluiu que o método funciona melhor em solos de baixa salinidade, paisagens planas e perto de fontes de água, e alertou que, em solos muito salgados, as estruturas de fluxo podem aumentar a salinidade em vez de reduzir o problema.
Há ainda uma ironia no centro do método. Os salgueiros consomem muito mais água que a vegetação nativa, cerca de 15 mm por dia contra menos de 2 mm do eucalipto nativo, e estudos calculam que remover os salgueiros pode economizar 5,5 megalitros por hectare de copa ao ano. A resposta de Peter Andrews sempre foi que um riacho tão escavado a ponto de não alcançar mais a planície aluvial não tem água a economizar, então a prioridade é reparar a hidrologia com o que for mais rápido e depois migrar para espécies nativas. Um estudo da ARC mostrou que a casuarina, nativa australiana, pode igualar o salgueiro na estabilização das margens, só que cresce mais devagar, e a sucessão ecológica, como lembra a Enciclopédia Britânica, costuma começar justamente por espécies pioneiras tidas como ervas daninhas antes de dar lugar a plantas mais resistentes.
A mina de carvão que quase apagou o legado
O desfecho, porém, não foi totalmente feliz. Em 2010, a empresa coreana Kepco adquiriu a licença de exploração de uma mina de carvão no Vale Bylong por US$ 43 milhões e passou a comprar propriedades na região, incluindo Tarwyn Park. Stuart Andrews resistiu por três anos, mas, com os vizinhos já tendo vendido e a pressão financeira aumentando, a venda se tornou inevitável em 2015, registrada pelo programa Australian Story, da ABC, que voltou ao Vale Bylong pela quarta vez para tratar de Peter Andrews, um recorde na história da atração.
A reviravolta veio da própria política ambiental. Em setembro de 2019, a Comissão de Planejamento Independente de Nova Gales do Sul rejeitou o projeto da mina, ao considerar que ele não atendia ao interesse público, diante dos impactos sobre o clima, as águas subterrâneas, as terras agrícolas e o patrimônio do vale. O legado de Peter Andrews, o método rejeitado por 30 anos, acabou virando parte do argumento para barrar uma mina avaliada em centenas de milhões de dólares.
Peter Andrews, criador de cavalos vindo do interior empoeirado de Broken Hill e sem diploma em hidrologia ou ciências ambientais, transformou a arruinada Tarwyn Park ao se recusar a arrancar os salgueiros, e viu o método que lhe custou denúncias, a falência e o casamento ser reconhecido pela ONU como um dos cinco exemplos de agricultura sustentável do mundo e ser premiado com a Medalha da Ordem da Austrália em 2011.
O seu livro virou sucesso de vendas e o episódio que contou a sua história foi o mais popular da década no programa que o acompanhou. Hoje, a Tarwyn Park Training ensina o método a agricultores de todo o país, com mais de mil pessoas formadas até o fim de 2022, enquanto o Instituto Mulloon estuda a Agricultura de Sequência Natural em escala de bacia, sobre 23.000 hectares. Aos mais de 80 anos, ele deixa uma pergunta no ar: quantos outros Peter Andrews estão sendo ignorados por não terem as credenciais certas.
E você, conhece alguém que foi ignorado por anos antes de ter razão comprovada, seja na agricultura, na medicina ou na tecnologia? Acredita que a experiência de campo pode valer tanto quanto a ciência das instituições? Comente a sua história e troque ideias com outros leitores sobre agricultura regenerativa, com respeito às diferentes visões.


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