O alimento que mais encareceu no Brasil em março de 2026 não foi a carne, nem o café, nem o ovo. Foi o leite. Segundo dados do IBGE divulgados na segunda semana de abril, o preço do leite subiu 11,74% em um único mês, a maior alta entre todos os itens de alimentação no domicílio. No atacado de São Paulo, o aumento foi ainda maior: 19,3%, de acordo com o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP). E o motivo por trás dessa disparada é tão surpreendente quanto o número: o leite ficou barato demais em 2025.
Em 2025, uma combinação de produção recorde e importações elevadas gerou sobreoferta de leite no mercado brasileiro. Segundo o Centro de Inteligência do Leite da Embrapa, o preço pago ao produtor caiu 22,6% ao longo de 2025, chegando a R$ 1,99 por litro em dezembro. Com margens tão apertadas, milhares de produtores cortaram investimentos, reduziram rebanhos e diminuíram a produção. O resultado apareceu em 2026: menos leite disponível, preço disparando nas prateleiras.
Esse ciclo é conhecido no setor como “ciclo perverso do leite”: quando o preço cai, o produtor reduz a produção; quando a oferta diminui, o preço sobe; quando o preço sobe, o produtor investe de novo, mas a resposta leva meses. No meio desse intervalo, quem paga a conta é o consumidor.
Quem sente mais o impacto e por que ninguém fala nisso?

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Famílias de baixa renda gastam proporcionalmente mais com lácteos do que famílias de alta renda, o que torna a alta de 11,74% em um mês um problema direto de segurança alimentar.
Enquanto os portais e telejornais focaram na gasolina (+4,59%) e no diesel (+13,90%) por causa da crise em Ormuz, o leite subiu quase três vezes mais que a gasolina e passou despercebido.
O IPCA de março fechou em 0,88%, com o acumulado de 12 meses chegando a 4,14%, perigosamente próximo do teto da meta de inflação (4,5%).
O grupo de alimentação e bebidas contribuiu com 0,33 ponto percentual, puxado justamente pelo leite e derivados (+4,26% na categoria ampla) e por tubérculos, raízes e legumes (+16,78%, alta sazonal). Mas o leite é diferente: não é sazonal, é estrutural.
O problema não é uma chuva que estragou a safra, é um setor inteiro que parou de produzir porque o preço não pagava as contas.
O Brasil importou cerca de 2,2 bilhões de litros de leite em 2025, segundo o IBGE, e o déficit da balança comercial de lácteos chegou a 177 milhões de litros equivalentes só em fevereiro de 2026.
Com a alta do dólar e a crise geopolítica global encarecendo fretes, o leite importado também ficou mais caro, fechando as duas portas de abastecimento ao mesmo tempo.
A Embrapa projeta que o preço do leite pode continuar subindo em abril e maio, com a aproximação da entressafra, período em que a produção naturalmente cai por causa do clima seco e da menor disponibilidade de pastagem.
Para o consumidor, a alternativa é comparar preços entre marcas, aproveitar promoções e considerar leite em pó, normalmente mais barato por litro reconstituído.
O leite subiu mais que a gasolina em março e quase ninguém percebeu. Comenta aí: você notou a diferença no supermercado?

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