A inflação entra no radar máximo do governo com a combinação de tensão no Oriente Médio e maior chance de El Niño forte, que pode reduzir chuvas, elevar custo de geração e afetar preços de comida.
A inflação já preocupa o governo federal com a escalada de tensão no Oriente Médio, e um fator climático pode deixar o cenário ainda mais delicado: a possibilidade de um El Niño intenso em 2026. Com risco de impacto direto em energia e alimentos, o assunto ganhou prioridade porque mexe nos dois itens que mais rapidamente chegam ao bolso das famílias.
A meteorologia aponta transição de La Niña para um padrão neutro no próximo mês, e, na sequência, crescimento da probabilidade de El Niño no segundo semestre. Se o fenômeno vier mais forte, como indicam parte dos modelos, o Brasil pode enfrentar pressões adicionais de preços justamente quando a economia já tenta manter estabilidade.
Por que El Niño e guerra entram juntos no debate da inflação
Os efeitos econômicos de eventos climáticos costumam aparecer por duas vias principais: preço de alimentos e produção de energia hidrelétrica.
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Quando o clima desregula o padrão de chuvas, o impacto pode reduzir a geração nas hidrelétricas e encarecer a energia. Ao mesmo tempo, mudanças no regime de precipitação podem afetar safras e custos de produção, criando pressão de inflação em alimentos.
O cenário externo adiciona um segundo estresse. A guerra no Oriente Médio elevou o grau de preocupação com inflação e fez instituições revisarem projeções, com atenção especial a itens sensíveis como alimentos e energia.
O que a meteorologia sinaliza para o El Niño em 2026
A Agência Climática dos Estados Unidos elevou as chances de El Niño, com uma sequência de probabilidades que desenha o cenário:
A transição para padrão neutro tem maior chance de durar até maio-julho, com 55% de probabilidade.
De junho a agosto de 2026, é provável que o El Niño surja, com 62% de probabilidade, e persista pelo menos até o final de 2026.
Segundo o meteorologista pesquisador Angel Domínguez Chovert, os modelos indicam permanência das características da fase positiva até, ao menos, o fim do ano, influenciando o clima no final do inverno, primavera e verão.
Ele também aponta que há sinais de anomalias de temperatura relativamente elevadas em parte dos modelos, sugerindo um El Niño mais severo, com maior intensidade a partir do trimestre setembro, outubro e novembro.
Como o El Niño pode encarecer a energia e pressionar a inflação
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais no Pacífico Equatorial. No Brasil, isso pode desregular o clima e afetar chuvas.
Se houver redução de precipitação em áreas relevantes, os reservatórios podem cair, a geração hidrelétrica diminui e, para evitar falta de energia, entram fontes mais caras. Esse encadeamento tende a aumentar a conta e alimentar a inflação.
Esse risco aparece porque energia elétrica tem peso relevante no orçamento e também influencia custos de produção e serviços, ampliando o efeito de inflação além da conta de luz.
Bandeiras tarifárias: o que o Banco Central já prevê no cenário
O diretor de Política Econômica do Banco Central afirmou que o Relatório de Política Monetária já contempla os possíveis efeitos do El Niño. No documento, a previsão para as contas de energia indica a seguinte trajetória:
Bandeira verde até abril;
Bandeira amarela em maio;
Bandeira vermelha patamar 1 em junho e julho;
Bandeira vermelha patamar 2 em agosto e setembro;
Bandeira vermelha patamar 1 em outubro e novembro;
Bandeira amarela em dezembro.
O sistema de bandeiras sinaliza os custos reais de geração de energia elétrica e funciona assim:
Bandeira verde: condições favoráveis de geração, sem acréscimo na tarifa;
Bandeira amarela: acréscimo de R$ 0,01885 por kWh consumido;
Bandeira vermelha patamar 1: acréscimo de R$ 0,04463 por kWh consumido;
Bandeira vermelha patamar 2: acréscimo de R$ 0,07877 por kWh consumido.
A próxima divulgação da bandeira tarifária, referente ao mês de maio, está marcada para o dia 24.
Alimentos: onde a inflação pode voltar a apertar
No caso dos alimentos, a avaliação citada é que há recuo no momento, mas ainda existe espaço para acomodação. O ponto de atenção é a combinação entre problemas climáticos e riscos associados ao cenário externo, incluindo fertilizantes.
A leitura é que uma conjunção de problemas, como clima desfavorável e falta de fertilizantes para a próxima safra, pode gerar, a partir do segundo semestre, pressão de inflação por alimentos significativa, elevando o custo da cesta e ampliando o impacto sobre as famílias.
Projeções para 2026: revisões para cima entram no radar
Com a guerra influenciando expectativas, instituições já ajustaram números. Um banco elevou a projeção de inflação em 2026 de 3,8% para 4,2%, citando surpresas em itens como preços de alimentos e passagens aéreas, além do cenário externo adverso e da maior chance de El Niño no segundo semestre.
O Banco Central elevou a projeção de inflação de 2026 de 3,5% para 3,9%. Já o mercado, que antes previa algo na casa de 3,9%, passou a considerar 4,36% para a inflação de 2026.
Para contextualizar, o grupo alimentação e bebidas teve alta de 7,69% em 2024 e desacelerou para 2,95% no ano seguinte. A inflação total foi de 4,83% e 4,26%, respectivamente.
Você acha que a inflação em 2026 vai pesar mais na conta de luz com bandeiras vermelhas ou na comida, caso o El Niño forte atrapalhe a próxima safra?

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