Água quente no Mar de Amundsen acelera derretimento basal, recuo de geleiras e risco de alta do nível do mar na Antártida.
Em 2026, uma análise liderada pela University of California, Irvine, nos Estados Unidos, colocou o Mar de Amundsen, na Antártida Ocidental, no centro de uma das maiores preocupações da glaciologia moderna. Segundo comunicado publicado em 2 de março de 2026 pela universidade, o estudo usou três décadas de dados de satélite e mostrou que a Antártida perdeu 12.820 km² de gelo aterrado entre 1996 e 2025, com os recuos mais dramáticos concentrados nos setores do Mar de Amundsen e de Getz.
A região reúne geleiras como Thwaites, Pine Island e Smith, nomes que aparecem repetidamente em estudos científicos porque funcionam como portas de saída do gelo da Antártida Ocidental para o oceano. No mesmo levantamento, Pine Island recuou 33 km, Thwaites recuou 26 km e Smith chegou a um recuo de 42 km, enquanto a linha de aterramento da camada de gelo antártica retrocedeu em média 442 km² por ano.
O ponto central é simples e preocupante: o problema não está apenas no ar mais quente, mas na água oceânica relativamente quente que entra por baixo das plataformas de gelo e derrete a estrutura pela base. É esse mecanismo, invisível para quem olha a Antártida apenas por cima, que transforma o Mar de Amundsen em uma das áreas mais sensíveis para projeções de elevação do nível do mar.
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Mar de Amundsen concentra algumas das geleiras mais vulneráveis da Antártida Ocidental e virou referência global para entender o derretimento basal
O Mar de Amundsen fica no setor da Antártida Ocidental voltado para o Pacífico Sul e abriga uma sequência de geleiras e plataformas flutuantes que drenam parte expressiva da camada de gelo continental.
A diferença entre uma plataforma de gelo e uma geleira aterrada é decisiva: a plataforma flutua sobre o oceano, enquanto o gelo aterrado ainda está apoiado no leito rochoso. Quando a água quente corrói a base da plataforma, ela perde capacidade de segurar o gelo que vem de trás, como se uma barreira natural começasse a enfraquecer.
A linha de aterramento é a fronteira onde o gelo deixa de estar apoiado no continente e passa a flutuar. Quando essa linha recua para o interior, o sistema pode permitir que mais água oceânica alcance áreas antes protegidas, aumentando o derretimento basal e acelerando o fluxo do gelo em direção ao mar. É por isso que a medição dessa fronteira por radar de satélite se tornou uma das principais ferramentas para avaliar a estabilidade da Antártida.
No Mar de Amundsen, esse processo é especialmente sensível porque várias geleiras estão assentadas sobre terrenos abaixo do nível do mar e com geometria desfavorável.
Quando a linha de aterramento se desloca para regiões mais profundas, a água consegue avançar por baixo do gelo, reduzindo a resistência que segurava o fluxo glacial. O estudo publicado em The Cryosphere em 16 de março de 2026 descreve a região como área de interesse especial justamente por seu recuo rápido em bacias profundas e por seu potencial de instabilidade futura.
Satélites revelaram perda de 12.820 km² de gelo aterrado e recuos extremos nas geleiras Pine Island, Thwaites e Smith
O estudo liderado por Eric Rignot, da University of California, Irvine, analisou dados de várias missões de satélite para mapear a migração da linha de aterramento ao redor de toda a Antártida. A pesquisa mostrou que 77% da costa antártica não apresentou migração da linha de aterramento desde 1996, mas os setores vulneráveis perderam uma área enorme de gelo aterrado, equivalente a quase 5 mil milhas quadradas, ou cerca de 12.820 km².
A informação mais forte para o Mar de Amundsen está na distribuição dessa perda. Segundo a UC Irvine, as mudanças mais dramáticas ocorreram nos setores do Mar de Amundsen e de Getz, onde geleiras recuaram entre 10 km e cerca de 40 km.

O recuo individual de Smith chegou a 42 km, Pine Island recuou 33 km e Thwaites recuou 26 km, números que ajudam a explicar por que a região é tratada como uma das frentes mais críticas da Antártida Ocidental.
A Agência Espacial Europeia também destacou que o maior recuo detectado da linha de aterramento ocorreu ao longo da costa do Mar de Amundsen, onde o gelo recuou em alguns pontos até 42 km entre 1996 e 2025. A ESA apontou ainda que as áreas mais afetadas ficam próximas às geleiras East Getz, Smith, Thwaites e Pine Island, todas ligadas a setores onde correntes oceânicas quentes alcançam leitos glaciais profundos por canais submarinos.
Água Circumpolar Profunda entra sob plataformas de gelo e transforma o derretimento basal em motor de instabilidade
O mecanismo físico por trás desse recuo envolve a chamada Água Circumpolar Profunda, uma massa de água relativamente quente e salgada que pode ser transportada para a plataforma continental e alcançar cavidades sob as plataformas de gelo. O British Antarctic Survey descreve a plataforma Dotson, no setor do Mar de Amundsen, como parte de uma região de rápida perda de massa glacial por derretimento basal impulsionado pelo oceano.
Em publicação de 15 de dezembro de 2025, o British Antarctic Survey informou que pesquisadores coletaram dados em mais de 100 km de trajetos submarinos sob a plataforma Dotson usando o veículo autônomo AutoSub Long Range.
As medições observaram velocidade oceânica, dissipação de energia turbulenta e fluxos de calor, justamente para entender como a água quente se movimenta dentro de cavidades que permanecem inacessíveis à observação direta tradicional.
Esse tipo de dado é essencial porque o derretimento basal não ocorre de maneira uniforme. O BAS apontou que a mistura turbulenta é maior em regiões de entrada de fluxo rápido e sobre topografia irregular, com fluxos verticais de calor chegando a máximos de 52 W/m² nas observações, embora valores maiores ainda sejam necessários em áreas não acessadas para sustentar as taxas médias de derretimento observadas na plataforma Dotson.
NASA mostra como correntes mais quentes circulam sob o gelo e corroem a base de plataformas flutuantes
Uma visualização científica da NASA, divulgada em 24 de agosto de 2021, ajuda a entender a geometria desse processo.
A simulação mostra como a circulação oceânica no Mar de Amundsen se move ao redor e sob plataformas de gelo e geleiras, com correntes mais frias próximas à superfície e águas relativamente mais quentes em profundidade.
Na visualização, a NASA descreve o deslocamento ao longo da costa do Mar de Amundsen, passando pela plataforma Getz, pela plataforma Dotson, pela baía de Pine Island e pela língua flutuante da geleira Thwaites.
As temperaturas representadas no modelo variam de cerca de -1,25 °C a +1,25 °C, diferença que parece pequena para o cotidiano, mas que é enorme em um ambiente onde o gelo está em contato direto com água salgada sob alta pressão.
Thwaites e Pine Island funcionam como portas de drenagem da Antártida Ocidental e preocupam por sua geometria instável
A preocupação com o Mar de Amundsen não começou em 2026. Em 16 de maio de 2014, o Earth Observatory da NASA já destacava dois estudos que apontavam um declínio aparentemente irreversível em uma parte da camada de gelo da Antártida Ocidental.
Segundo a NASA, o segmento do Mar de Amundsen havia iniciado um processo de perda que poderia resultar em colapso ao longo dos próximos séculos.
A NASA descreveu a região como composta por várias geleiras de fluxo rápido, incluindo Pine Island, Thwaites, Haynes, Pope, Smith e Kohler.
O ponto físico mais delicado é que há pouca plataforma de gelo fixa no setor do Mar de Amundsen para funcionar como barreira, permitindo que essas geleiras fluam com menor contenção para o oceano. Segundo a agência, esses rios de gelo drenam um terço da camada de gelo da Antártida Ocidental.
Outro dado histórico ajuda a dimensionar o problema. A NASA informou que, entre 1992 e 2011, a linha de aterramento da geleira Pine Island havia recuado 31 km, enquanto Smith/Kohler recuaram 35 km, Thwaites recuou 14 km e Haynes recuou 10 km.
A explicação central era a mesma observada nos estudos mais recentes: a maior parte do derretimento ocorre por baixo, quando correntes oceânicas quentes corroem e afinam a base do gelo.
Estudo na Nature Climate Change indica que aquecimento oceânico no Mar de Amundsen pode ser três vezes mais rápido que o histórico
Em 23 de outubro de 2023, um estudo publicado na Nature Climate Change por Kaitlin A. Naughten, Paul R. Holland e Jan De Rydt reforçou a gravidade do cenário.
O artigo afirma que o derretimento de plataformas de gelo impulsionado pelo oceano no Mar de Amundsen é atualmente o principal processo que controla a contribuição da Antártida para a elevação do nível do mar.
O estudo usou um modelo oceânico regional para projetar o derretimento futuro das plataformas de gelo no Mar de Amundsen e concluiu que um aquecimento rápido, de aproximadamente três vezes a taxa histórica, provavelmente já está comprometido ao longo do século XXI. Os autores também indicaram aumentos generalizados no derretimento basal, inclusive em regiões cruciais para a estabilidade da camada de gelo.
Esse resultado não significa que reduzir emissões deixou de importar para o sistema climático global. O que o estudo indica é mais específico: considerando a variabilidade interna do clima, os cenários de emissões intermediárias e as metas mais ambiciosas do Acordo de Paris não apresentaram diferença significativa no aquecimento projetado para o Mar de Amundsen no século XXI.
Em outras palavras, parte do aquecimento oceânico regional já pode estar embutida na trajetória física do sistema.
O Mar de Amundsen já vive o regime quente que cientistas temem para plataformas gigantes como Ross e Filchner-Ronne
Em 20 de setembro de 2024, outro estudo na Nature Climate Change, liderado por Emily A. Hill, G. Hilmar Gudmundsson e David M. Chandler, analisou o risco de transição de um regime oceânico frio para um regime quente sob as plataformas Filchner-Ronne e Ross, as duas maiores plataformas de gelo da Antártida. O estudo concluiu que essa mudança poderia desestabilizar algumas áreas e levar ao recuo irreversível da linha de aterramento.
O ponto que conecta esse estudo ao Mar de Amundsen é direto. Os autores afirmam que, quando essa mudança para um estado quente ocorre, as condições começam a se parecer com as do setor atual do Mar de Amundsen, responsável pela maior parte da perda de gelo antártica observada no presente.
Ou seja, o Mar de Amundsen não é apenas uma área em crise, mas um exemplo real do que pode acontecer se outros setores hoje mais frios passarem por transição semelhante.
Segundo o estudo, a mudança de temperatura sob plataformas de gelo pode elevar as taxas de derretimento de poucos metros para dezenas de metros por ano, reduzindo o efeito de sustentação das plataformas, acelerando o fluxo de gelo através das linhas de aterramento e abrindo caminho para recuo instável. Esse é o tipo de processo que torna a observação contínua do Mar de Amundsen tão relevante para modelos de risco global.
Linha de aterramento, leito profundo e relevo inclinado criam uma retroalimentação difícil de interromper
O estudo publicado em The Cryosphere em 2026 ajuda a explicar por que o recuo no Mar de Amundsen preocupa tanto. A pesquisa aponta que a aceleração glacial está ligada ao enfraquecimento das plataformas de gelo, causado pela entrada de água quente e salgada sob as estruturas flutuantes. O derretimento tende a atingir intensidade maior perto da linha de aterramento, justamente onde a transição entre gelo apoiado e gelo flutuante controla a estabilidade do sistema.
A mesma pesquisa informa que a perda de massa da Antártida Ocidental aumentou de 39,5 ± 19 gigatoneladas por ano entre 1992 e 2001 para 103,6 ± 10,8 gigatoneladas por ano entre 2002 e 2020. Esses números mostram que o problema não é um evento isolado, mas uma tendência de aceleração em um setor onde o gelo descarregado para o oceano tem impacto direto sobre o nível do mar.
O dado mais forte do artigo é o potencial de elevação do nível do mar associado à região. Segundo a publicação, o Amundsen Sea Embayment contém gelo equivalente a 1,26 ± 0,02 metro de elevação potencial do nível do mar, o que explica por que pequenas mudanças na linha de aterramento são acompanhadas com tanta atenção pela comunidade científica.
O que o Mar de Amundsen revela sobre o futuro da Antártida e da elevação do nível do mar
O Mar de Amundsen mostra que o futuro da Antártida depende menos de imagens superficiais de gelo e mais da física escondida sob as plataformas flutuantes.
A água quente que alcança cavidades profundas pode afinar a base do gelo, reduzir o suporte mecânico das plataformas, acelerar geleiras aterradas e empurrar linhas de aterramento para bacias mais profundas, criando uma retroalimentação que os modelos climáticos tentam representar com cada vez mais precisão.
Os estudos mais recentes não permitem afirmar que todo o colapso da Antártida Ocidental ocorrerá em prazo curto, nem que todos os setores responderão da mesma forma.
O que eles mostram, com base em satélites, medições oceânicas e modelagem, é que o Mar de Amundsen já reúne sinais fortes de instabilidade, com recuos extremos em geleiras-chave e aquecimento oceânico projetado em ritmo muito superior ao observado historicamente.
A pergunta que fica é se o Mar de Amundsen será tratado apenas como uma anomalia distante no mapa ou como um aviso real de como a interação entre oceano quente, gelo profundo e plataformas enfraquecidas pode redesenhar o futuro do nível do mar nas próximas décadas.


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