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Comerciante paga 20 libras por um caderno num bazar na Inglaterra e descobre um raro registro da Primeira Guerra de 1915 com 900 voluntários, 140 deles mortos na guerra

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 27/06/2026 às 20:30 Atualizado em 27/06/2026 às 20:32
Raro registro da Primeira Guerra de 1915 com 900 voluntários foi achado por 20 libras num bazar na Inglaterra e, após o leilão, voltou para casa.
Raro registro da Primeira Guerra de 1915 com 900 voluntários foi achado por 20 libras num bazar na Inglaterra e, após o leilão, voltou para casa.
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Um comerciante de Maldon, na Inglaterra, pagou 20 libras por um velho caderno num bazar de porta-malas e descobriu um raro registro da Primeira Guerra, de 1915, com cerca de 900 voluntários, dos quais aproximadamente 140 morreram. O documento foi a leilão na Hansons e voltou para casa, no Norte do país.

Às vezes, um tesouro histórico está jogado no chão, à venda por trocados. Foi o que aconteceu na Inglaterra, quando um comerciante de materiais de construção, de Maldon, no condado de Essex, pagou apenas 20 libras por um velho caderno em um bazar de porta-malas. O que parecia papel antigo era, na verdade, um raro registro da Primeira Guerra Mundial. A história foi divulgada pela casa de leilões Hansons.

O instinto do comprador falou mais alto na hora. “Eu vi o livro de registro caído no chão e não consegui tirar o dinheiro da carteira rápido o suficiente”, contou o comerciante, que preferiu não se identificar. Por 20 libras, ele levou para casa um documento que conta a história de centenas de homens comuns que foram para a guerra.

O valor do achado, porém, não está no dinheiro, e sim na memória. O caderno reúne cerca de 900 voluntários que se alistaram em apenas três dias de dezembro de 1915, e dos quais aproximadamente 140 não voltaram vivos. Cada linha escrita à mão é o registro de uma vida marcada pela Primeira Guerra.

O caderno de 20 libras que era um tesouro de guerra

Raro registro da Primeira Guerra de 1915 com 900 voluntários foi achado por 20 libras num bazar na Inglaterra
Raro registro da Primeira Guerra de 1915 com 900 voluntários foi achado por 20 libras num bazar na Inglaterra

A cena tem tudo de improvável. Em um bazar de porta-malas, aqueles eventos onde as pessoas vendem objetos usados no estacionamento, um livro velho passava despercebido entre tranqueiras. Foi ali que o comerciante de Essex, com olho treinado para coisas antigas, percebeu que havia algo especial naquele caderno encardido.

A aposta de 20 libras se mostrou genial. Em vez de um diário qualquer, o documento era um registro oficial de alistamento da Primeira Guerra, do tipo que raramente sobrevive até hoje. O comprador entendeu, na hora, que tinha em mãos um pedaço de história britânica por um preço irrisório.

Esse tipo de garimpo é o sonho de qualquer colecionador. Pagar quase nada por algo de enorme valor histórico, num bazar de fim de semana, é o desfecho que move milhares de pessoas a vasculhar feiras e brechós. No caso do registro da Primeira Guerra, a sorte do comerciante acabou beneficiando a memória de toda uma comunidade.

Os bazares de porta-malas são um universo à parte na Inglaterra. Nesses encontros de fim de semana, vendedores espalham de tudo em mesas e no chão, e é comum surgirem relíquias misturadas a quinquilharias, justamente porque muita gente não sabe o valor do que herdou ou guarda. É nesse caldo de objetos esquecidos que aparecem achados como o registro da Primeira Guerra.

900 voluntários em poucos dias: o que o registro guarda

O registro tem um preço estimado de £1.000 a £1.500 no leilão de artigos militares em 25 de fevereiro.
O registro tem um preço estimado de £1.000 a £1.500 no leilão de artigos militares em 25 de fevereiro.

O conteúdo do caderno é o que o torna precioso. O registro lista cerca de 900 homens que se apresentaram como voluntários em apenas três dias, em dezembro de 1915, em plena Primeira Guerra. Ver tantos nomes reunidos, escritos à mão na mesma época, dá a dimensão do esforço de guerra daquele momento.

Os detalhes anotados impressionam pela minúcia. Para cada voluntário, o livro de registro traz nome, idade, altura, medida do tórax e até marcas distintivas no corpo, como cicatrizes. Era um cadastro completo, feito para identificar cada recruta, e que hoje funciona como uma fotografia escrita de centenas de pessoas reais.

Em apenas três dias, cerca de 900 homens assinaram o diário de “atestado” em resposta a um ataque de zepelim ocorrido seis meses antes.
Em apenas três dias, cerca de 900 homens assinaram o diário de “atestado” em resposta a um ataque de zepelim ocorrido seis meses antes.

Por trás dos números há gente de carne e osso. O registro guarda nomes como Theodore Stewart, apontador de horas, James McAtominey, encanador, e Anthony Coffey, operário de alto-forno, entre tantos outros. Não são soldados anônimos, mas trabalhadores com profissão e história, o que torna o documento ainda mais valioso para quem pesquisa a Primeira Guerra.

O Derby Scheme: alistar-se ou “atestar”

Raro registro da Primeira Guerra de 1915 com 900 voluntários foi achado por 20 libras num bazar na Inglaterra e, após o leilão, voltou para casa.
Raro registro da Primeira Guerra de 1915 com 900 voluntários foi achado por 20 libras num bazar na Inglaterra e, após o leilão, voltou para casa.

O registro nasceu de um esquema específico de recrutamento. Em 1915, o Reino Unido lançou o chamado Derby Scheme, uma campanha de alistamento voluntário voltada a homens de 18 a 40 anos. A ideia era convencer civis a se comprometerem com a guerra antes que o serviço militar obrigatório fosse imposto.

A regra dava duas opções aos voluntários. O homem podia se alistar imediatamente ou apenas “atestar”, isto é, declarar a disposição de servir e esperar para ser convocado mais tarde, voltando enquanto isso ao trabalho civil. Quem atestava recebia uma braçadeira cinza e um pequeno bônus em dinheiro, sinal público do compromisso assumido.

Esse contexto explica a multidão de assinaturas em poucos dias. O Derby Scheme criou uma corrida de alistamento por todo o país, e registros como esse documentavam cada homem que aderia. É por isso que o caderno achado no bazar é tão revelador: ele capta um momento exato em que a Primeira Guerra mobilizava cidades inteiras.

Operários do estaleiro Palmers que foram à guerra

Os voluntários do caderno tinham um endereço em comum. A maioria trabalhava no Palmers Shipbuilding and Iron Company, um grande estaleiro e siderúrgica em Jarrow, no nordeste da Inglaterra. Eram apontadores, encanadores, operários de alto-forno e outros trabalhadores braçais que trocaram a fábrica pela farda.

A guerra já havia batido à porta deles antes do alistamento. Seis meses antes, em junho de 1915, o estaleiro Palmers tinha sido alvo de um ataque de zepelim alemão, que matou 17 pessoas e feriu outras 72. Para os trabalhadores de Jarrow, a Primeira Guerra não era algo distante, e sim uma ameaça que já tinha atingido seu próprio chão de fábrica.

Depois de assinar, muitos seguiram para o mesmo destino militar. Boa parte dos voluntários acabou servindo no Durham Light Infantry, regimento de infantaria da região, enquanto outros foram para a Marinha Real. O caderno, assim, é também o retrato de uma comunidade operária inteira indo para o front, saída de um único estaleiro.

140 dos 900 não voltaram

A parte mais dura do registro é o que veio depois. Dos cerca de 900 voluntários listados, aproximadamente 140 morreram na guerra, quase um em cada seis. O caderno, que começou como uma lista de alistamento cheia de esperança, virou, com o tempo, o registro de uma geração ceifada pela Primeira Guerra.

Os números do estaleiro como um todo são ainda mais pesados. Um memorial de guerra dedicado aos funcionários do Palmers Shipbuilding lista 185 mortos no conflito, somando todos os trabalhadores da empresa, e não apenas os 900 do caderno. Seja qual for o recorte, a conta de vidas perdidas é dolorosa e real.

É essa dimensão humana que dá peso ao documento. Cada nome no registro pode ser o de alguém que não voltou, deixando família, ofício e cidade para trás. Mais do que uma curiosidade de leilão, o caderno é um memorial em forma de livro, que devolve identidade a homens que poderiam ter virado apenas estatística da Primeira Guerra.

Para as famílias, um documento desses pode ser um reencontro. Um descendente que procura o bisavô soldado pode encontrar, naquelas linhas, a idade, a altura e até as cicatrizes do antepassado, dados que praticamente nenhum outro arquivo guarda. O registro transforma nomes esquecidos em pessoas outra vez, e é por isso que vale tanto para a memória das famílias ligadas à Primeira Guerra.

Por que um registro desses é tão raro

A raridade do achado tem uma explicação quase trágica. Segundo os especialistas, registros de alistamento como esse deveriam ter sido destruídos após o fim da Primeira Guerra, como parte do descarte burocrático de documentos militares. Por isso, encontrar um exemplar intacto, fora de um arquivo oficial, é quase impossível.

A casa de leilões reforçou esse caráter excepcional. Para Matt Crowson, especialista em itens militares da Hansons, ter um registro original e primário de voluntários dessa época é algo praticamente inédito fora de um museu de regimento ou de um arquivo institucional. É o tipo de documento que normalmente só existe em coleções públicas.

Há ainda o valor para a pesquisa. Como os nomes do caderno provavelmente nunca foram digitalizados, o registro é uma fonte riquíssima para historiadores e para descendentes que buscam suas raízes. Cada dado ali pode preencher lacunas sobre soldados da Primeira Guerra que, de outra forma, estariam perdidos para sempre.

O leilão na Hansons e o valor do achado

Do bazar, o caderno seguiu para o martelo. O registro foi levado à Hansons Auctioneers e incluído no leilão de medalhas, itens militares e armas da casa, realizado em 25 de fevereiro de 2026, no salão da empresa em Etwall, perto de Derby. Um salto e tanto para um objeto comprado por 20 libras.

A expectativa de preço já indicava o valor histórico. A estimativa de venda girava entre 1.000 e 1.500 libras, ou seja, dezenas de vezes mais do que o comerciante havia pagado no bazar de porta-malas. Para um caderno achado no chão, era a confirmação de que a aposta tinha valido muito a pena.

Mais importante que a cifra, porém, foi quem arrematou o registro. Em vez de sumir em uma coleção particular, o documento foi comprado por uma instituição ligada à história militar da região, garantindo que aquele pedaço da Primeira Guerra ficasse acessível ao público. O destino do caderno acabou sendo tão simbólico quanto a sua descoberta.

O leilão de itens militares é, em si, uma vitrine de história. A Hansons é conhecida por arrematar curiosidades de origem humilde, do sótão ao bazar, e transformá-las em peças disputadas, e o registro da Primeira Guerra se encaixou nesse perfil. No pregão, o documento que custara 20 libras virou alvo de lances de quem entendia o seu valor, prova de que história bem preservada vale ouro.

De volta para casa: o registro voltou ao Norte

O desfecho da história é de fazer jus à memória dos 900. O registro foi adquirido pela DLI Friends, grupo ligado ao Durham Light Infantry, justamente o regimento em que muitos dos voluntários do caderno serviram. Depois de ter sido encontrado a centenas de quilômetros, em Essex, o documento voltou para casa, no nordeste da Inglaterra.

Hoje o caderno tem um lar à altura da sua importância. Ele está guardado no The Story, em Durham, espaço que abriga a coleção e o arquivo do Durham Light Infantry, e pode ser consultado mediante agendamento. De objeto perdido em um bazar, o registro passou a integrar um acervo histórico oficial.

Esse retorno tem um significado especial. O livro que listou centenas de homens de Jarrow rumo à guerra repousa agora no arquivo do próprio regimento que muitos deles integraram. É como se o registro tivesse completado um círculo, da fábrica ao front, do bazar de volta à casa de sua própria história.

Por que documentos assim importam, e o que o Brasil tem a ver

Casos como esse mostram que a história mora em objetos comuns. Um caderno velho pode guardar a memória de uma cidade inteira, e perdê-lo seria apagar nomes que mereciam ser lembrados. Resgatar um registro da Primeira Guerra é, no fundo, resgatar identidades que o tempo quase levou embora.

No Brasil, a lição vale para a preservação da nossa própria memória. O país tem documentos históricos espalhados por arquivos, igrejas, estações, antigas fábricas e até gavetas de família, muitos correndo risco de se perder por falta de cuidado. Valorizar esses registros é proteger a história da industrialização, das guerras e das migrações que formaram as cidades brasileiras.

Há também o convite ao garimpo consciente. Assim como o comerciante inglês achou um tesouro num bazar, brechós, feiras e antiquários brasileiros podem esconder papéis, fotos e livros de grande valor histórico. Olhar com atenção para o que parece tranqueira pode ser o primeiro passo para salvar um pedaço do passado.

A tecnologia pode ser uma aliada poderosa nessa preservação. Digitalizar documentos antigos garante que nomes e datas sobrevivam mesmo que o papel se perca, e ainda os torna acessíveis a pesquisadores de qualquer lugar do mundo. O caso inglês, em que o registro talvez nunca tenha sido digitalizado, mostra o risco de deixar toda uma memória presa a um único caderno frágil.

A história do caderno de 20 libras prova que grandes tesouros podem estar onde menos se espera: um raro registro da Primeira Guerra, com 900 voluntários e cerca de 140 mortos, achado num bazar de porta-malas na Inglaterra e hoje de volta ao arquivo do regimento, depois de passar por leilão na Hansons.

E você, já encontrou algum objeto antigo de valor em uma feira, brechó ou bazar, ou conhece alguém que achou um tesouro escondido assim? Conta aqui nos comentários o seu melhor achado e o que você acha que deveria ser feito para preservar documentos históricos como esse registro da Primeira Guerra.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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