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Em Cabo Verde, a 12 km da Praia, o projeto de reciclagem Ekonatura processa 100 kg de vidro e plástico por hora e transforma o lixo em carteiras escolares

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 27/06/2026 às 20:30 Atualizado 27/06/2026 às 20:34
Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.
Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.
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Em São Francisco, a cerca de 12 km da Praia, em Cabo Verde, o projeto comunitário de reciclagem Ekonatura processa cerca de 100 kg de vidro e plástico por hora e transforma o lixo em carteiras escolares, cadeiras e outros produtos, um exemplo de economia circular que leva mobiliário às escolas.

O que para muita gente é lixo, para o projeto Ekonatura é matéria-prima. Em São Francisco, a cerca de 12 quilômetros da Praia, capital de Cabo Verde, uma iniciativa comunitária recolhe vidro e plástico descartados e os transforma em carteiras escolares, cadeiras e até material de construção. A história foi divulgada pela agência Xinhua.

A escala chama atenção para um projeto de bairro. Segundo a reportagem, a Ekonatura tem capacidade média de reciclagem de cerca de 100 quilos de vidro e plástico por hora, o que permite tirar das ruas um volume considerável de resíduos e devolvê-los à comunidade em forma de objetos úteis. É lixo virando solução, hora após hora.

O destino mais simbólico desse trabalho são as salas de aula. Boa parte do que sai da Ekonatura vira mobiliário escolar, levando carteiras e cadeiras a escolas que precisam, ao mesmo tempo em que reduz o lixo acumulado em um arquipélago onde cada resíduo pesa. É um encontro entre meio ambiente e educação.

O projeto Ekonatura: lixo que vira mobiliário escolar

Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.
Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.

A Ekonatura nasceu como uma aposta comunitária. O projeto foi criado em 2019, dentro da iniciativa Raiz Azul, e é tocado pela Associação Comunitária de Desenvolvimento de São Francisco, em parceria com instituições como a EcoCV, a Universidade de Cabo Verde e a indústria local. A ideia, desde o início, foi unir geração de renda e cuidado com o ambiente.

O foco recaiu sobre dois materiais que sufocam qualquer cidade: vidro e plástico. Em vez de deixar garrafas e embalagens se acumularem em lixões, a Ekonatura passou a recolher esses resíduos junto a moradores e empresas parceiras e a transformá-los em produtos de valor. O lixo deixou de ser problema e virou insumo.

A motivação está nas palavras de quem comanda o projeto. “A ideia era promover uma gestão sustentável dos resíduos, proteger o meio ambiente e melhorar o bem-estar das pessoas da comunidade”, afirmou João Ferreira, gestor da Ekonatura e presidente da associação local, em entrevista citada pela imprensa. É uma missão social tanto quanto ambiental.

Depois de uma pausa durante a pandemia, o projeto retomou as atividades por volta de 2021 e 2022 e seguiu crescendo. O que começou pequeno, com poucas máquinas e voluntários, foi ganhando corpo e reconhecimento, até chamar a atenção da imprensa internacional pela criatividade de transformar lixo em carteiras escolares.

100 kg por hora: como o lixo vira matéria-prima

Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.
Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.

Por trás das carteiras há um processo bem definido. Primeiro vem a coleta e a triagem, separando o vidro do plástico e tirando o que não serve. Depois, os materiais passam por trituração e por prensagem a quente, etapas que derretem e moldam o plástico e moem o vidro, transformando o resíduo bruto em matéria-prima pronta para virar produto.

A capacidade dá a dimensão do trabalho. Com cerca de 100 quilos de vidro e plástico processados por hora, a Ekonatura consegue dar conta de um fluxo constante de resíduos, em um ritmo industrial para os padrões de um projeto comunitário. Quanto mais material entra, mais mobiliário e objetos podem sair na outra ponta.

As máquinas têm uma história à parte. Segundo o portal Xinhua, parte dos equipamentos, como o triturador de vidro, foi fabricada em oficinas de uma escola técnica em São Vicente, e o processador de plástico contou com parceria da indústria local. É engenhosidade nacional para viabilizar a reciclagem com o que se tem em mãos.

Há, claro, limites técnicos a superar. O projeto trabalha principalmente com um tipo de plástico, o PEAD, e ainda não dá conta de outros, como o PET das garrafas de refrigerante, por falta de equipamento específico. Mesmo assim, só em vidro a iniciativa já produziu cerca de 100 toneladas de areia reciclada, fruto de centenas de milhares de garrafas reaproveitadas.

De resíduo a carteira escolar

Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.
Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.

O produto mais marcante da Ekonatura é a carteira escolar. Em muitos casos, o projeto não fabrica o móvel do zero, e sim recupera estruturas de carteiras danificadas, substituindo encostos e assentos quebrados por peças feitas de plástico reciclado. Assim, uma carteira velha e inutilizada volta para a sala de aula como nova.

O próprio gestor explica a lógica do reaproveitamento. “Reutilizamos as estruturas de carteiras danificadas e trocamos os encostos e as bases por materiais reciclados”, contou João Ferreira. É uma forma inteligente de economizar, já que aproveita o metal que ainda serve e troca apenas as partes desgastadas, com plástico que viria do lixo.

A produção, porém, não para nas carteiras. Além das cadeiras escolares, das quais já foram entregues cerca de 160 unidades a escolas da região, a Ekonatura fabrica contentores de lixo de vários tamanhos, vasos de plantas, pavês para calçadas e objetos decorativos. Cada item é uma prova de que o lixo tem mais valor do que parece.

Essa variedade é parte da estratégia de sobrevivência do projeto. Ao diversificar os produtos, a Ekonatura amplia as fontes de renda e o impacto, atendendo escolas, calçadas e casas ao mesmo tempo. A carteira escolar é o carro-chefe, mas a reciclagem alimenta toda uma pequena linha de produtos comunitários.

As escolas que ganharam o mobiliário

Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.
Em Cabo Verde, a reciclagem do projeto Ekonatura transforma o lixo em carteiras escolares, num exemplo de economia circular que abastece as escolas.

O impacto mais visível está nas salas de aula. As carteiras e cadeiras produzidas pela Ekonatura têm sido distribuídas a escolas da região da Praia, com prioridade para a comunidade de São Francisco, mas também chegando a localidades como Calabaceira e Castelão. Onde faltava mobiliário, o lixo reciclado ajudou a preencher a lacuna.

Para uma escola com poucos recursos, isso muda a rotina. Uma sala com carteiras suficientes e em bom estado permite que mais alunos estudem com conforto, sem dividir cadeira ou escrever no colo. O que parece um detalhe faz diferença direta na qualidade do ensino, sobretudo em comunidades de menor renda.

Há ainda um simbolismo poderoso nesse mobiliário. Cada carteira escolar feita de plástico reciclado carrega uma mensagem silenciosa para os alunos: a de que o lixo pode virar algo útil e bonito. A própria sala de aula vira um exemplo vivo de economia circular, ensinando pelo exemplo antes mesmo de qualquer lição.

Energia e baixo impacto: reciclar com responsabilidade

A reciclagem da Ekonatura nasce com a marca da sustentabilidade. Segundo reportagens locais, o projeto busca operar com baixo impacto ambiental e chegou a apostar em energia solar para alimentar parte da operação, reduzindo a pegada de carbono de um trabalho que já existe para proteger o meio ambiente. Reciclar gastando pouca energia limpa fecha o ciclo de forma coerente.

O ganho ambiental vai além da economia de energia. Cada quilo de vidro e plástico reciclado é um quilo a menos em lixões e na natureza, onde esses materiais levam séculos para se decompor. Em um arquipélago pequeno e turístico como Cabo Verde, manter o lixo fora das praias e ruas tem valor ambiental e econômico.

É essa soma que torna o modelo atraente. Reciclar localmente, com energia limpa e mão de obra da própria comunidade, evita o transporte caro de resíduos e a importação de móveis prontos. A Ekonatura mostra que a solução ambiental mais eficiente costuma ser também a mais próxima e a mais simples.

Economia circular numa ilha: por que faz tanto sentido

Em uma ilha, a lógica da economia circular deixa de ser teoria e vira necessidade. Cabo Verde é um país de recursos limitados, que importa boa parte do que consome e tem pouco espaço para acumular lixo. Reaproveitar o que já está no território, em vez de descartar e comprar de fora, é quase uma questão de sobrevivência.

A Ekonatura encarna essa ideia de forma concreta. Ao transformar resíduos locais em produtos locais, o projeto fecha o ciclo dentro da própria comunidade: o lixo de hoje vira a carteira de amanhã, sem sair da ilha. É economia circular no sentido mais literal, do descarte ao novo uso, de porta em porta.

Um colaborador resumiu essa filosofia em três palavras. “Lixo é dinheiro”, disse Miguel Alves, responsável por operações ligadas ao projeto, em depoimento à imprensa cabo-verdiana. A frase captura a mudança de mentalidade que a iniciativa promove: enxergar valor onde antes só se via sujeira e descarte.

Esse raciocínio é ainda mais forte por se tratar de uma ilha. Cabo Verde importa boa parte do que consome, do mobiliário aos materiais de construção, o que encarece tudo o que vem de fora. Produzir localmente, a partir do lixo que já está no país, corta custos de importação e mantém o dinheiro girando dentro da própria comunidade, em vez de escoar para o exterior.

Educar as crianças para reciclar

A Ekonatura não para na produção de móveis, ela também ensina. Junto com a entrega das carteiras, o projeto promove ações de educação ambiental nas escolas beneficiadas, explicando às crianças e aos jovens a importância de reciclar e de descartar o lixo corretamente. A ideia é formar uma geração mais consciente.

Esse trabalho com os estudantes tem efeito multiplicador. Uma criança que aprende a separar o lixo leva o hábito para casa e influencia a família inteira, espalhando a cultura da reciclagem pela comunidade. Ensinar desde cedo é plantar uma semente que rende frutos por décadas, muito além do pátio da escola.

Por trás de tudo isso há gente da própria comunidade. O projeto envolve um pequeno grupo de voluntários, homens e mulheres, que recebem uma compensação modesta e tocam o dia a dia da reciclagem. É renda local, inclusão social e educação ambiental no mesmo pacote, tudo movido pelo que a cidade jogava fora.

Os desafios: falta de dinheiro e de máquinas

Apesar do sucesso, a Ekonatura caminha no limite. A procura das escolas por carteiras e cadeiras cresce, mas o projeto esbarra na falta de recursos financeiros e de equipamentos para acompanhar essa demanda. Sobra vontade e matéria-prima, faltam dinheiro e máquinas.

O próprio gestor reconhece o gargalo. “Temos limitações em recursos financeiros e em maquinário, e isso afeta a nossa capacidade de resposta”, admitiu João Ferreira. Em um projeto comunitário, cada equipamento novo significa mais lixo reciclado e mais carteiras nas salas, mas comprar máquinas exige um investimento que nem sempre existe.

Mesmo assim, o potencial de crescimento é claro. Com mais apoio, parcerias e investimento, a Ekonatura poderia ampliar a operação, processar outros tipos de plástico e levar o modelo a mais ilhas e escolas de Cabo Verde. O que falta não é ideia nem demanda, e sim estrutura para escalar uma solução que já provou funcionar.

Há caminhos concretos para dar esse salto. Parcerias com empresas, apoio de governos e até mecanismos como os créditos de reciclagem, que remuneram quem retira resíduos do meio ambiente, poderiam injetar recursos no projeto. Com mais máquinas, a iniciativa passaria a reciclar também o PET e outros plásticos hoje deixados de fora, multiplicando o volume de lixo transformado em carteiras.

O que o Brasil tem a ver com isso

A história de Cabo Verde conversa diretamente com o Brasil. O país convive com toneladas de lixo mal aproveitado, baixos índices de reciclagem e milhares de catadores que vivem justamente de dar destino a vidro e plástico. Um modelo comunitário como a Ekonatura mostra um caminho para agregar valor a esse trabalho.

A ponte com a educação também é forte por aqui. Muitas escolas públicas brasileiras carecem de mobiliário em bom estado, enquanto montanhas de resíduos plásticos são descartadas todos os dias. Conectar a reciclagem à produção de carteiras escolares poderia, em tese, resolver dois problemas de uma vez, como acontece em São Francisco.

O Brasil já tem ferramentas para isso no papel. A Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê a logística reversa e valoriza o trabalho das cooperativas de catadores, mas a reciclagem ainda engatinha, com o país reaproveitando apenas uma fração do que descarta. Iniciativas comunitárias como a Ekonatura mostram um jeito de transformar essas regras em produto concreto dentro dos bairros, gerando renda e mobiliário ao mesmo tempo.

No fim, o recado é sobre enxergar o lixo de outro jeito. A Ekonatura prova que, com organização comunitária e economia circular, é possível transformar resíduo em renda, mobiliário e consciência ambiental. É uma lição barata e replicável para qualquer cidade brasileira disposta a tratar o próprio lixo como recurso.

E você, levaria essa ideia para a sua cidade?

O projeto Ekonatura mostra que é possível unir meio ambiente e educação com criatividade: a cerca de 12 km da Praia, em Cabo Verde, a iniciativa faz a reciclagem de cerca de 100 kg de vidro e plástico por hora e transforma o lixo em carteiras escolares e outros produtos para a comunidade, num exemplo concreto de economia circular.

E você, acha que a sua cidade poderia adotar um projeto assim, que transforma lixo reciclado em carteiras escolares e gera renda na própria comunidade? Conta aqui nos comentários se você conhece alguma iniciativa parecida no Brasil e o que acha que falta para a reciclagem deslanchar por aqui.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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