Tumba de 4.100 anos encontrada em Saqqara revela médico do faraó que era dentista-chefe, especialista em venenos e diretor de plantas medicinais no Antigo Egito
Descoberta arqueológica em Saqqara revela tumba de médico da corte do faraó no Antigo Egito: No vasto platô de Saqqara, ao sul do Cairo, onde milhares de sepulturas se espalham pela areia desde os primeiros séculos da civilização egípcia, uma tumba aparentemente comum acabou revelando uma das evidências mais interessantes sobre a medicina especializada no Antigo Egito. Durante a temporada arqueológica de 2024, a equipe franco-suíça da Missão Arqueológica de Saqqara (MAFS) abriu um pequeno poço escavado na rocha. A estrutura parecia semelhante a muitas outras encontradas na região: construída com tijolos de barro cru, com teto abobadado e dimensões relativamente modestas.
Esse tipo de sepultura é conhecido pelos arqueólogos como “tumba-forno”, um modelo bastante comum na necrópole e que, na maioria dos casos, foi saqueado ao longo dos séculos. Normalmente, esse tipo de descoberta não traz grandes surpresas, pois os objetos funerários e os sarcófagos costumam desaparecer muito antes da chegada das equipes científicas.
Por isso, os pesquisadores inicialmente não esperavam encontrar nada extraordinário. Tudo mudou quando começaram a analisar as inscrições gravadas nas paredes da tumba. As inscrições hieroglíficas revelaram que o ocupante do túmulo havia sido um dos médicos mais importantes da corte do faraó há mais de quatro mil anos.
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Sarcófago revela currículo médico impressionante no Antigo Egito
No sarcófago de pedra encontrado na tumba, os arqueólogos identificaram o nome Tetinebefou, acompanhado por uma série de títulos raramente vistos juntos em qualquer inscrição funerária egípcia. As inscrições listavam funções altamente especializadas:
- médico-chefe do palácio
- sacerdote
- dentista-chefe
- diretor de plantas medicinais
- invocador da deusa Serqet
A presença de todos esses títulos no mesmo sarcófago chamou imediatamente a atenção dos pesquisadores. A inscrição sugere que Tetinebefou não era apenas um médico comum, mas o principal responsável pela saúde do faraó e da corte real.
Entre os títulos, um se destacou particularmente: o de “Invocador da deusa Serqet”.
Serqet era a divindade egípcia associada à proteção contra venenos e picadas de escorpiões. Segundo Philippe Collombert, líder da missão arqueológica e pesquisador da Universidade de Genebra, esse título indica que Tetinebefou provavelmente era um especialista em envenenamentos causados por animais peçonhentos. Em termos modernos, isso significa que há cerca de 4.100 anos já existia na corte egípcia um médico especializado no tratamento de picadas de serpentes e escorpiões.
Tetinebefou serviu durante o reinado do faraó Pepi II
As inscrições encontradas na tumba indicam que Tetinebefou viveu durante o período da Sexta Dinastia do Antigo Egito, provavelmente durante o reinado do faraó Pepi II. Pepi II é conhecido por ter tido um dos reinados mais longos da história egípcia. De acordo com estimativas históricas, ele governou por algo entre 60 e 90 anos, tendo subido ao trono ainda criança.
Ainda não está totalmente claro exatamente quais faraós Tetinebefou serviu durante sua carreira. É possível que ele tenha trabalhado diretamente para Pepi II ou para governantes que vieram logo depois. O que parece evidente, segundo os arqueólogos, é a posição extremamente elevada que ele ocupava dentro da hierarquia da corte.
Como explicou Collombert em entrevista à Live Science: “Ele certamente era o médico principal da corte real e provavelmente tratou o próprio faraó.”
Dentista-chefe do palácio revela medicina especializada no Egito antigo
Entre os títulos registrados no sarcófago, um dos mais surpreendentes para os pesquisadores foi o de “dentista-chefe”. Esse título é extremamente raro nos registros históricos egípcios.

Segundo o professor Roger Forshaw, especialista em odontologia do Antigo Egito da Universidade de Manchester, evidências de dentistas na sociedade egípcia são escassas e muito valorizadas pelos historiadores da medicina.
Apesar disso, sabe-se que os egípcios tratavam diversos problemas dentários. Registros médicos indicam que eles realizavam procedimentos como:
- tratamento de cáries
- extração de dentes
- drenagem de abscessos
- tratamento de inflamações gengivais
- remoção de cálculo dentário
Esses conhecimentos aparecem documentados em textos médicos famosos como os Papiros Edwin Smith e Ebers. Há inclusive evidências arqueológicas de drenagens cirúrgicas de abscessos mandibulares já durante a Quarta Dinastia (cerca de 2625–2510 a.C.).
A existência de um dentista-chefe na corte indica que o faraó tinha um profissional dedicado exclusivamente à saúde bucal.
Especialista em venenos revela relação entre medicina e religião no Egito
O título de “Invocador de Serqet” também revela outro aspecto importante da medicina egípcia: a forte ligação entre práticas médicas e rituais religiosos. Serqet era representada como uma mulher com um escorpião sobre a cabeça e era considerada a protetora contra venenos.
No Egito antigo, medicina e religião não eram campos separados. Tratamentos médicos frequentemente combinavam remédios naturais com rituais sagrados e invocações divinas. Quando alguém era picado por uma serpente ou escorpião na corte real, Tetinebefou provavelmente era o profissional responsável pelo tratamento.
Textos médicos antigos confirmam que esse tipo de especialização existia. O Papiro de Brooklyn, por exemplo, descreve pelo menos 21 espécies de serpentes, incluindo os efeitos de suas mordidas e possíveis tratamentos. Entre as terapias registradas aparecem bandagens locais, misturas com cebola, sal, cerveja fermentada e fórmulas mágicas.
Diretor de plantas medicinais sugere papel semelhante ao de farmacêutico-chefe
Outro título encontrado no sarcófago de Tetinebefou também chamou a atenção dos pesquisadores: “Diretor de Plantas Medicinais”. Esse cargo é extremamente raro nas inscrições egípcias.
Até hoje, esse título só havia sido identificado em apenas uma outra inscrição conhecida na literatura arqueológica. A função provavelmente envolvia a supervisão do uso de plantas medicinais na corte, incluindo coleta, armazenamento e preparação de remédios.

Em termos modernos, isso poderia ser comparado ao cargo de farmacêutico-chefe da corte real. O famoso Papiro de Ebers, escrito por volta de 1550 a.C., registra 876 receitas médicas contendo 328 ingredientes diferentes, a maioria de origem vegetal. O documento possui cerca de 20 metros de comprimento e é considerado o tratado médico mais completo da antiguidade.
Tetinebefou provavelmente fazia parte de uma tradição médica semelhante, séculos antes da compilação desse papiro.
Tumba foi saqueada, mas inscrições preservaram a história do médico
Embora a tumba tenha sido saqueada há muito tempo — com o desaparecimento do corpo e dos objetos funerários — as inscrições nas paredes sobreviveram. Segundo Collombert, o interior havia sido “quase completamente saqueado”, algo comum em tumbas do Antigo Egito.

Mesmo assim, as paredes preservaram elementos decorativos importantes. A tumba contém entalhes, pinturas vibrantes e uma porta falsa pintada, elemento típico das tumbas do Reino Antigo. Essa porta simbólica representava a passagem entre o mundo dos vivos e o além, permitindo que oferendas chegassem ao espírito do falecido.
As pinturas também mostram recipientes, vasos e jarros que podem ter feito parte do trabalho médico de Tetinebefou.
Heródoto já descrevia médicos especializados no Egito antigo
Séculos depois da morte de Tetinebefou, o historiador grego Heródoto visitou o Egito e ficou impressionado com a organização da medicina local. Ele escreveu que os médicos egípcios eram especializados em diferentes áreas, cada um responsável por tratar um tipo específico de doença.
Segundo Heródoto:
“Cada médico trata apenas uma doença. Há médicos para os olhos, médicos para os dentes, médicos para o estômago e médicos para doenças ocultas.”
A tumba de Tetinebefou confirma arqueologicamente que essa especialização médica já existia muito antes da visita de Heródoto ao Egito.
Saqqara continua revelando segredos da medicina do Antigo Egito
A necrópole de Saqqara continua sendo uma das áreas arqueológicas mais importantes do mundo. O local abriga monumentos que remontam às primeiras dinastias egípcias, há cerca de 5.000 anos, incluindo a famosa Pirâmide de Djoser.

Desde 2022, a Missão Arqueológica de Saqqara escava a região sul do sítio arqueológico e identificou a tumba de Tetinebefou em meio a um conjunto de sepulturas menores localizadas diante de uma mastaba maior. A combinação dos cinco títulos registrados no sarcófago — médico-chefe, dentista-chefe, sacerdote, especialista em venenos e diretor de plantas medicinais — é considerada extremamente rara.
Essa descoberta sugere que o Antigo Egito possuía uma estrutura médica altamente especializada muito antes do surgimento dos sistemas médicos clássicos da Grécia ou de Roma.
Estudos futuros podem revelar mais sobre a medicina egípcia
Os arqueólogos continuam analisando os pigmentos das pinturas e as inscrições da tumba em detalhes. Pesquisas futuras podem revelar mais informações sobre os medicamentos utilizados por Tetinebefou, as plantas medicinais que ele administrava e a forma como a medicina era praticada na corte da Sexta Dinastia.
Uma questão ainda permanece aberta para os pesquisadores: Tetinebefou era um caso isolado ou existia uma rede inteira de médicos especializados trabalhando na corte do faraó? Por enquanto, a descoberta já é suficiente para alterar a compreensão histórica sobre a medicina antiga.
A tumba de Tetinebefou demonstra que um sistema médico altamente especializado já existia no Egito cerca de quatro mil anos antes da medicina clássica ocidental.

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