Com orçamento reduzido aos níveis de 1961, NASA desativa sondas, paralisa colaborações internacionais e ameaça sua posição como potência espacial
A proposta orçamentária da NASA para 2026, publicada na noite de sexta-feira, revelou o impacto direto da ordem vinda do governo Trump: a agência espacial norte-americana será forçada a encerrar 41 missões científicas e eliminar cerca de um terço de sua força de trabalho. A medida representa o golpe mais duro em décadas na ciência espacial dos EUA, e coloca em xeque a liderança histórica do país na exploração do cosmos.
Entre os projetos que serão imediatamente suspensos estão nomes emblemáticos como a sonda New Horizons, que fez história ao sobrevoar Plutão; o orbitador Juno, que estuda Júpiter; e a nave OSIRIS-REx, atualmente em curso para interceptar o asteroide Apófis, próximo da Terra.
41 missões canceladas: o desmonte de um terço da ciência da NASA
Ao todo, os documentos divulgados listam 41 missões que serão encerradas — o que equivale a cerca de um terço de todo o portfólio científico da agência. Os cortes atingem principalmente os programas de observação terrestre e as iniciativas relacionadas a Marte, mas afetam praticamente todas as áreas de pesquisa espacial.
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O orçamento proposto prevê uma redução de 25% nos recursos da agência em comparação com 2025, o que levaria os investimentos da NASA a níveis semelhantes aos de 1961, quando ajustados pela inflação. A área científica será particularmente afetada: os cortes chegam a 47% em comparação com o orçamento atual. Além disso, está previsto um enxugamento de pessoal, com o número de funcionários financiados diretamente caindo de 17.391 para 11.853 — uma perda de mais de um terço da equipe.

Terra, Marte, Lua: o impacto em todas as frentes
Os cortes afetam tanto missões que estavam em pleno funcionamento quanto projetos estratégicos em fases iniciais. A missão de retorno de amostras de Marte (Mars Sample Return), por exemplo, será interrompida, assim como os orbitadores Mars Odyssey e MAVEN, que ainda monitoram o planeta vermelho.
A Agência Espacial Europeia (ESA) também foi atingida indiretamente. Isso porque a NASA decidiu cancelar o fornecimento de propulsores e o veículo lançador que havia prometido para a missão do rover Rosalind Franklin, comprometendo seriamente o futuro do projeto europeu.
O desmonte não poupa nem mesmo as iniciativas mais acessíveis: New Horizons e Juno, que operam com orçamentos reduzidos, também serão desativadas. Já o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman seguirá adiante, mas com apenas metade dos recursos inicialmente previstos.
Na área de exploração lunar, a situação é crítica. A plataforma orbital Gateway, que seria essencial para operações em torno da Lua, será cancelada. O foguete Space Launch System (SLS) e a cápsula Orion, fundamentais para o programa Artemis — que previa enviar astronautas ao satélite natural —, terão seu desenvolvimento interrompido a partir de 2027. Sem eles, a missão lunar tripulada perde seu principal meio de transporte.
Uma “extinção científica”, segundo especialistas
A resposta da comunidade científica foi imediata — e contundente. A Planetary Society, uma das entidades mais respeitadas na defesa da exploração espacial, classificou a proposta como um “evento de extinção” para a ciência da NASA. “Vai prejudicar profundamente a força de trabalho altamente qualificada da agência, abandonar prioridades nacionais e enfraquecer a educação e divulgação em STEM”, afirma a entidade em nota oficial.
Ainda segundo o comunicado, o corte representa uma desistência explícita do papel de liderança global dos EUA no espaço: “A mensagem é clara: não podemos liderar a exploração do espaço profundo, não podemos colaborar com nossos aliados e não podemos investir em nossa força de trabalho científica e industrial”.
José Carlos del Toro, pesquisador do Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA-CSIC) e ex-gestor do programa espacial espanhol, resumiu sua reação em três palavras: “tristeza, perplexidade e raiva”. Para ele, trata-se de uma tragédia para a ciência global. “É uma pena enorme. Muitas dessas missões envolviam colaboração europeia. Quando os americanos as abandonam, nos deixam no escuro, mesmo com todo o trabalho e investimento já realizado”, alertou. Ainda assim, del Toro reconhece: “Mesmo com os cortes, os EUA ainda estarão melhores que a Europa ou a Espanha em termos de investimento — o sistema deles é muito mais robusto”.
Pedro León, escritor e especialista em exploração espacial, foi direto: “É uma matança”. Segundo ele, pelo menos 15 missões de observação da Terra foram canceladas, e outras tantas receberam apenas verba para mais um ano. “Os cortes se concentraram nas missões de meio ambiente e nas científicas gerenciadas por universidades”, lamenta. León observa que o Congresso pode ainda reverter parte dos cortes, como costuma acontecer, “mas da forma como está, até mesmo algumas missões que sobreviveram podem cair depois”.
Eva Villaver, vice-diretora do Instituto de Astrofísica das Canárias (IAC), ainda nutre esperanças de que o Congresso reverta parte da proposta. “A NASA tem o maior orçamento do mundo em ciência espacial, então o impacto é global, especialmente para a ESA”, destaca. Para ela, o mais preocupante foi o foco nos cortes das missões de observação da Terra e mudança climática. “Essas missões são vitais para o futuro da humanidade e para nosso entendimento do planeta”, ressalta.

Vênus também sofre e China avança
Daniel Marín, astrofísico e um dos maiores divulgadores de ciência espacial da Espanha, considera a proposta um desastre tanto para o funcionamento interno da NASA quanto para a ciência. Ele lembra que, além das perdas em Marte e na Lua, o campo de estudo de Vênus será um dos mais prejudicados. “Missões já planejadas como DAVINCI e VERITAS estão canceladas, assim como a participação da NASA na missão europeia EnVision. Não se sabe se ela poderá continuar sem a colaboração americana”, disse.
Marín ainda aponta para o componente geopolítico dos cortes: “Na prática, os EUA estão entregando a liderança da exploração lunar para a China, a menos que a SpaceX consiga uma solução milagrosa”. E, curiosamente, destaca o especialista, “mesmo com o orçamento sendo dizimado, há dinheiro reservado para o programa marciano de Elon Musk”.
Pedro León concorda: “É um suicídio estratégico. A missão chinesa de retorno de amostras de Marte está programada para 2029-30. Eles já estão ganhando essa corrida”. O mesmo vale para a Lua, segundo ele: “A cápsula tripulada chinesa está avançando bem, e é provável que astronautas deles pisem na Lua antes dos americanos”.
José Carlos del Toro reforça: “Mesmo que ainda dependam de algumas tecnologias americanas, os chineses deram um salto impressionante. Esses cortes só facilitam que eles assumam a dianteira na nova corrida espacial”.
O legado ameaçado
Para José Antonio Rodríguez Manfredi, pesquisador do Centro de Astrobiologia (CAB-INTA-CSIC), as consequências podem ser duradouras. “Parte significativa dos programas que eram símbolo da exploração espacial será cancelada. Mesmo que alguns apresentassem altos custos ou fossem inviáveis financeiramente, essa guinada drástica compromete a liderança da NASA no curto prazo e pode abalar os laços internacionais construídos ao longo de décadas”.
Carlos Briones, também do CAB-INTA-CSIC, foi ainda mais direto: “Na minha visão, isso faz parte de um plano da Casa Branca para desmontar a ciência e a tecnologia nos Estados Unidos”. Ele conclui: “A única beneficiada será a China. O desprezo irracional de Trump e sua equipe pela ciência — e pela cultura em geral — é um insulto à humanidade”.

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