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A muralha submersa que salvou Veneza 154 vezes já pode estar com os dias contados: após gastar bilhões em barreiras contra enchentes, cidade corre atrás de plano B enquanto o mar avança, ameaça engolir a lagoa e pode transformar o cartão-postal italiano em água parada

Escrito por Ana Alice
Publicado em 13/06/2026 às 15:48
Atualizado em 13/06/2026 às 16:02
Veneza avalia plano B contra enchentes cinco anos após o Mose, diante do avanço do nível do mar e dos impactos na laguna veneziana. (Imagem: Ilustrativa)
Veneza avalia plano B contra enchentes cinco anos após o Mose, diante do avanço do nível do mar e dos impactos na laguna veneziana. (Imagem: Ilustrativa)
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Veneza volta a discutir sua defesa contra enchentes em meio ao avanço do nível do mar, ao uso crescente das barreiras móveis e ao impacto ambiental provocado pelos fechamentos sucessivos da laguna.

Veneza já discute uma nova estratégia de proteção contra enchentes cinco anos depois de colocar em operação o Mose, sistema de barreiras móveis usado para conter as acque alte que historicamente atingem a cidade italiana.

A estrutura tem evitado alagamentos desde 2020, mas o aumento do nível do mar e a necessidade de acionamentos mais frequentes levaram autoridades e pesquisadores a avaliar alternativas para as próximas décadas.

O Mose, sigla de modulo sperimentale elettromeccanico, funciona por meio de barreiras instaladas nas entradas da laguna de Veneza, entre o mar Adriático e a cidade.

Quando há previsão de maré excepcional, as comportas se erguem do fundo do mar e bloqueiam temporariamente a entrada da água.

Segundo o site oficial do projeto, o sistema é formado por quatro barreiras e 78 comportas móveis distribuídas nas bocas de porto de Lido, Malamocco e Chioggia.

A discussão sobre um plano B não ocorre porque o Mose tenha deixado de funcionar.

O ponto central, segundo especialistas ouvidos pelo The Guardian, é o efeito acumulado do fechamento repetido das barreiras sobre a laguna.

Quanto mais vezes o sistema é acionado, maior tende a ser a interrupção da troca natural de água, sedimentos e oxigênio entre a laguna e o Adriático.

Registros da Autorità per la Laguna di Venezia indicavam 156 fechamentos operacionais até 15 de maio de 2026, número acima dos 154 citados em reportagem do The Guardian publicada em 18 de abril de 2026.

Só em 2026, o balanço oficial apontava 32 acionamentos até aquela atualização.

Mose em Veneza vira parte de um desafio maior contra enchentes

A eficiência imediata do Mose é reconhecida por autoridades locais e por técnicos envolvidos na operação do sistema.

Desde que entrou em funcionamento, a estrutura reduziu o risco de alagamentos em áreas vulneráveis do centro histórico, incluindo a região da Praça de São Marcos.

Ainda assim, o avanço do nível do mar alterou as condições consideradas durante a concepção do projeto.

Em condições normais, a maré renova a água da laguna e ajuda a preservar o equilíbrio ecológico do ambiente.

Quando as barreiras ficam erguidas, esse fluxo é interrompido.

Fechamentos mais longos ou sucessivos podem favorecer a proliferação de algas e reduzir a oxigenação da água, com impacto sobre peixes, plantas marinhas e outros organismos, segundo pesquisadores que estudam a adaptação de Veneza às mudanças climáticas.

Andrea Rinaldo, chefe do comitê científico da recém-criada Autoridade da Laguna, afirmou ao The Guardian que uma elevação adicional de um metro no nível do mar poderia obrigar a cidade a fechar as barreiras, em média, 200 vezes por ano.

Nesse cenário, de acordo com ele, a laguna deixaria de se comportar como ambiente de transição entre água doce e salgada.

“You won’t have a lagoon. You won’t have a city”, disse Rinaldo, ao defender que a cidade deve acelerar o planejamento de novas soluções.

Um estudo publicado em 16 de abril de 2026 na revista Scientific Reports também aponta que a elevação relativa do nível do mar reduz progressivamente as opções de adaptação para Veneza e sua laguna.

Os autores afirmam que, sem mitigação climática suficiente e medidas adicionais, a estratégia atual de laguna aberta, apoiada no Mose, pode encontrar limites ainda neste século.

Veneza avalia plano B contra enchentes cinco anos após o Mose, diante do avanço do nível do mar e dos impactos na laguna veneziana. (Imagem: Ilustrativa)
Veneza avalia plano B contra enchentes cinco anos após o Mose, diante do avanço do nível do mar e dos impactos na laguna veneziana. (Imagem: Ilustrativa)

Enchentes históricas explicam a pressão por novas soluções em Veneza

O debate atual ocorre após décadas de investimentos e controvérsias em torno do Mose.

O sistema foi concebido como resposta à enchente histórica de 4 de novembro de 1966, quando a maré chegou a 194 centímetros, segundo o Centro de Previsão e Sinalização de Marés da cidade.

A obra passou por atrasos, questionamentos ambientais, aumento de custos e investigações de corrupção antes de entrar em operação em outubro de 2020.

Outra referência importante para os moradores é a acqua alta de 12 de novembro de 2019.

O Instituto Superior de Proteção e Pesquisa Ambiental da Itália registrou nível de 189 centímetros no Zero Mareográfico de Punta della Salute, em um evento superado apenas pela inundação de 1966.

O episódio foi associado a uma combinação de fatores meteorológicos, incluindo ventos fortes e um ciclone de pequena escala sobre o norte do Adriático e a laguna.

Depois da entrada em operação do Mose, a relação da cidade com as marés altas mudou.

Moradores que antes conviviam com sirenes, passarelas elevadas e botas impermeáveis passaram a ver o centro histórico permanecer seco em episódios que, no passado, provocariam alagamentos.

Giovanni Zarotti, diretor técnico do Mose, afirmou ao The Guardian que parte dos venezianos já trata o sistema como uma proteção incorporada à rotina.

“Many don’t even own waders any more. Imagine, if you’re six years old, you’ve never heard the sound of flood sirens”, disse.

Essa mudança de percepção influencia as decisões operacionais.

De acordo com Zarotti, a ordem de fechamento precisa ser tomada cerca de três horas antes do pico previsto da maré, com margem de erro de aproximadamente 10 centímetros.

Caso a previsão superestime o nível da água, a cidade pode arcar com um acionamento que talvez não fosse necessário.

Se a estimativa ficar abaixo do nível real, áreas mais baixas voltam a ficar expostas.

Custo do Mose e impacto no tráfego marítimo entram no debate

Cada acionamento do Mose custa mais de € 200 mil, segundo a reportagem do The Guardian.

O impacto financeiro inclui operação, manutenção e reflexos sobre a navegação.

O fechamento das barreiras também afeta o tráfego marítimo, especialmente na entrada de Malamocco, usada por embarcações que seguem para o porto de Marghera.

Durante o Carnaval de Veneza de 2026, as barreiras foram erguidas 26 vezes em três semanas, com custo superior a € 5 milhões, de acordo com o jornal britânico.

Para reduzir os impactos, a equipe técnica avalia formas de acionar as barreiras de maneira escalonada, alternando entradas em vez de fechar todo o sistema ao mesmo tempo.

Outra possibilidade em análise é elevar o nível de ativação para 130 centímetros em determinadas situações.

A medida, porém, teria de considerar o risco de pequenos alagamentos em áreas vulneráveis e a menor tolerância da população a esse tipo de ocorrência desde que o Mose passou a funcionar com regularidade.

Pesquisadores que analisam caminhos de adaptação de longo prazo citam alternativas como manter a laguna aberta com medidas complementares, proteger o centro histórico com diques, fechar a laguna de forma mais permanente ou discutir, em cenários extremos, retirada planejada de áreas vulneráveis.

O estudo publicado na Scientific Reports ressalta que todas as opções envolvem custos, impactos sociais e potenciais efeitos sobre patrimônio, ambiente, economia e vida cotidiana.

A bacia de São Marcos em Veneza. O fechamento das barreiras contra inundações custa à cidade mais de € 200.000 por vez. Fotografia: Emanuele Cremaschi/Getty Images
A bacia de São Marcos em Veneza. O fechamento das barreiras contra inundações custa à cidade mais de € 200.000 por vez. Fotografia: Emanuele Cremaschi/Getty Images

Plano B para Veneza ainda não tem formato definido

O plano B de Veneza ainda não tem formato definido.

Rinaldo defende uma chamada internacional de ideias que reúna especialistas de diferentes áreas, incluindo ciência, engenharia, economia, história e artes.

A proposta, segundo ele, é tratar Veneza como um caso de referência para políticas de adaptação climática em cidades costeiras.

Essa abordagem amplia o debate para além da infraestrutura.

Na avaliação de Rinaldo, a cidade também precisa discutir seu modelo econômico, fortemente ligado ao turismo, e os efeitos dessa dependência sobre moradia, serviços, mobilidade e permanência de moradores no centro histórico.

A pressão turística, segundo ele, representa outro fator de risco para a preservação de Veneza.

A definição de uma nova estratégia dependerá de decisões técnicas, ambientais, econômicas e políticas.

Enquanto o Mose segue como principal instrumento de proteção contra as marés altas, autoridades e pesquisadores tentam antecipar um cenário em que as barreiras talvez precisem ser acionadas com frequência incompatível com a dinâmica natural da laguna.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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