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A Itália está cultivando alface e ervas dentro de domos subaquáticos no Mediterrâneo, usando um sistema fechado com umidade natural e energia solar

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 20/01/2026 às 13:02
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Na costa italiana, o Nemo’s Garden cultiva alface, manjericão e morangos em biosferas subaquáticas, aproveitando luz solar, estabilidade térmica e hidroponia.

Quando se fala em agricultura inovadora, poucas ideias soam tão surreais quanto cultivar hortaliças no fundo do mar — e ainda assim, o primeiro projeto do tipo já existe e funciona na Itália. Localizado a poucas dezenas de metros da costa de Noli, na região da Ligúria, o Nemo’s Garden é uma instalação pioneira de fazendas subaquáticas em domos translúcidos, onde alface, manjericão, feijão, morangos e outras espécies crescem em um ambiente controlado sob a superfície do Mar Mediterrâneo.

Esse “jardim submarino”, concebido por Sergio Gamberini, fundador da Ocean Reef Group, começou como uma pergunta: seria possível cultivar plantas terrestres embaixo d’água, aproveitando condições naturais como temperatura estável e alto teor de umidade? A resposta mostrou que sim, e com vantagens que tornam esse sistema um laboratório vivo para o futuro da produção alimentar sustentável.

Como funcionam os domos subaquáticos

A ideia central do Nemo’s Garden é relativamente simples e ao mesmo tempo engenhosa: biosferas de plástico translúcido são ancoradas no leito marinho, entre 6 e 11 metros de profundidade, onde a luz solar ainda penetra o suficiente para sustentar a fotossíntese.

Cada cúpula é recheada com cerca de 2.000 litros de ar, criando microssistemas de cultivo com atmosfera própria.

A Itália está cultivando alface e ervas dentro de domos subaquáticos no Mediterrâneo, usando um sistema fechado com umidade natural e energia solar
A Itália está cultivando alface e ervas dentro de domos subaquáticos no Mediterrâneo, usando um sistema fechado com umidade natural e energia solar

Dentro desses domos que lembram balões futuristas flutuando sobre o fundo marinho, a hidroponia é a técnica usada para cultivar as plantas: soluções nutritivas substituem o solo, e raízes ficam expostas a água rica em nutrientes, eliminando a necessidade de terra cultivável tradicional.

Essa abordagem permite 80–95% de economia de água em comparação com a agricultura convencional, segundo estudos sobre hidroponia.

A água do mar desempenha um papel indireto importante: as paredes da biosfera, aquecidas pelo sol, geram condensação que fornece água doce para as plantas. Esse ciclo natural de evaporação e condensação reduz a dependência de recursos externos e apoia um ambiente de cultivo praticamente autossustentável.

Por que cultivar debaixo d’água?

A proposta de Gamberini e sua equipe vai além da curiosidade científica. Os domos submarinos foram pensados como uma resposta a desafios globais como escassez de terras aráveis, mudanças climáticas e stress hídrico, problemas que ameaçam a produção de alimentos em escala mundial.

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Ao aproveitar o mar como espaço cultivável, o projeto explora vantagens únicas:

  • Temperatura mais estável que minimiza o choque térmico para as plantas;
  • Proteção natural contra pragas e variações climáticas extremas da superfície;
  • Uso intensivo da luz solar filtrada, associada a painéis solares e turbinas eólicas para energia das instalações;
  • Produção de alimentos em locais onde a terra é limitada ou improdutiva.

Essas características tornam o Nemo’s Garden uma experiência pioneira em agricultura sustentável, potencialmente relevante para regiões costeiras áridas e ilhas dependentes de importações de alimentos frescos, como as Maldivas, onde a agricultura terrestre é limitada e caras cadeias de abastecimento importam quase tudo.

O que já está sendo cultivado e os desafios

Atualmente, dentro das biosferas subaquáticas já foram plantadas e observadas com sucesso dezenas de espécies, incluindo:

  • Alface e outras hortaliças de folha
  • Manjericão e outras ervas aromáticas
  • Feijões e ervilhas
  • Morangos
  • Tomate e outras hortaliças menores

Essa diversidade demonstra que o sistema pode acomodar mais de 100 plantas por biosfera, algo que surpreendeu pesquisadores pela qualidade nutricional e aromática das plantas, que em alguns casos se mostraram mais ricas em certos compostos do que equivalentes cultivados em terra.

Pesquisas preliminares indicam, por exemplo, que o manjericão cultivado em condições subaquáticas pode apresentar diferenças na composição de óleos essenciais e pigmentos compostos valorizados tanto em gastronomia quanto em aplicações farmacêuticas.

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Mas nem tudo é fácil: manter uma fazenda no fundo do mar exige lidar com pressão da água, salinidade e corrosão de materiais, além de logística complexa para colheita e transporte, feitas por mergulhadores que acessam as biosferas periodicamente para monitorar, ajustar e colher as plantas.

Energia, sustentabilidade e integração com a superfície

Embora grande parte da ideia funcione de forma natural, o projeto se apoia também em energia renovável na superfície, como painéis solares e turbinas eólicas, para alimentar sensores, iluminação suplementar e sistemas de monitoramento, especialmente durante períodos de menor luminosidade.

A base em terra a Control Tower supervisiona via sensores e comunicação os parâmetros dentro de cada biosfera, como temperatura, umidade e níveis de CO₂, permitindo ajustes remotos e coleta de dados de pesquisa em tempo real.

O que o Nemo’s Garden representa para o futuro da alimentação

Mais do que uma curiosidade tecnológica, o Nemo’s Garden se configura como um laboratório vivo para soluções agrícolas do século XXI. Ao provar que plantas essenciais podem crescer debaixo d’água em um ambiente controlado, o projeto abre portas para:

  • alternativas de cultivo em áreas costeiras com solo pobre;
  • modelos híbridos de agricultura em regiões insulares e remotas;
  • sistemas experimentais que possam inspirar agricultura em ambientes extremos, inclusive em missões espaciais.
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Em um mundo onde a população global deve ultrapassar 9 bilhões até meados do século, iniciativas como essa que combinam tecnologia, biologia e meio ambiente de formas não convencionais — oferecem pistas de caminhos inéditos para aumentar a segurança alimentar e reduzir a pressão sobre ecossistemas tradicionais.

Apesar das dificuldades técnicas e dos desafios de escala, o Nemo’s Garden é um exemplo convincente de como a criatividade humana pode reimaginar nossos sistemas de produção de alimentos, aproveitando o espaço que tradicionalmente não era considerado cultivável.

Seja um experimento audacioso ou um protótipo de um futuro híbrido de agricultura costeira e oceânica, o Jardim do Nemo está lançando sementes — literais e figurativas — para o próximo capítulo da inovação agrícola global.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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