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Plantaram rosas para abastecer floristas de Londres e Amsterdã às margens de um lago africano, mas a flor virou símbolo de água sugada, contaminação e colapso ambiental em uma região onde a indústria emprega 50 mil pessoas

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 24/06/2026 às 21:54 Atualizado em 24/06/2026 às 21:56
Assista o vídeoLago Naivasha, no Quênia, expõe o custo hídrico e ambiental das rosas exportadas para a Europa e agora enfrenta até a alta das águas.
flor virou símbolo de água sugada, contaminação e colapso ambiental
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Lago Naivasha, no Quênia, expõe o custo hídrico e ambiental das rosas exportadas para a Europa e agora enfrenta até a alta das águas.

Quando flamingos começaram a aparecer no Lago Naivasha, no Quênia, o sinal soou como um alerta ecológico. A Circle of Blue registrou que essas aves costumam preferir lagos salinos, como o Lago Nakuru, e não um lago de água doce como Naivasha, a cerca de 100 quilômetros a noroeste de Nairóbi.

Foi nesse mesmo lago que a indústria de flores encontrou, desde o início da década de 1970, uma combinação rara de vantagens para crescer. A reportagem relata que o setor foi atraído pela água doce, pelo sol equatorial, pelo clima favorável o ano inteiro e pela conexão aérea com a Europa, a ponto de rosas e cravos saírem do Quênia e chegarem a floriculturas de Londres em 48 horas, enquanto 97% das flores cortadas dali terminavam em buquês europeus.

Lago Naivasha perdeu água limpa e recebeu poluição

O retrato mais conhecido da degradação de Naivasha foi resumido pela própria Circle of Blue em duas frentes centrais: água demais saindo e água poluída demais voltando. Segundo a reportagem, as preocupações em torno das fazendas de flores se concentravam justamente em quantidade e qualidade da água, com retirada excessiva para irrigação e devolução de água mais contaminada ao sistema.

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Naquele retrato, o lago já havia encolhido para cerca de 10.700 hectares, algo próximo de metade do tamanho registrado duas décadas antes. A mesma apuração afirma que mais de 50 fazendas margeavam o lago e respondiam por cerca de metade de toda a retirada de água de Naivasha, segundo o pesquisador David Harper, da Universidade de Leicester.

A crise ambiental não se limitava ao nível da água. A reportagem registra ainda um episódio em que mais de mil peixes apareceram mortos após fortes chuvas, e o governo queniano atribuiu a mortalidade a baixos níveis de oxigênio.

Ao mesmo tempo, a própria indústria de flores contestava a ideia de culpa exclusiva e apontava também para secas severas e variabilidade climática.

Água virtual das rosas do Quênia expõe a pegada hídrica do lago

O caso de Naivasha ganhou força internacional porque se conecta diretamente ao conceito de água virtual, usado para mostrar como o consumo de água de uma região pode ser transferido indiretamente para outros mercados por meio dos produtos exportados. Em estudo publicado na revista Water Resources Management, os pesquisadores M.M. Mekonnen, A.Y. Hoekstra e R. Becht analisaram a pegada hídrica das flores de corte produzidas na bacia do Lago Naivasha, no Quênia, e mostraram que a água usada no cultivo viaja, de forma invisível, junto com as flores destinadas ao mercado externo.

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O dado mais forte do trabalho é o da rosa individual. Segundo o estudo, a pegada hídrica de uma única rosa produzida na região de Lake Naivasha Basin foi estimada em algo entre 7 e 13 litros de água, um número que ajuda a dimensionar o peso oculto de milhões de hastes exportadas anualmente.

Os autores não tratam esse custo como um problema apenas local. O estudo afirma que mitigar a pegada hídrica das flores exportadas exige envolver também traders, varejistas e consumidores no exterior, porque o impacto não termina na fazenda: ele atravessa a cadeia global de consumo junto com cada buquê vendido fora do Quênia.

Lago Naivasha agora sobe e inunda estufas em vez de apenas secar

Nos últimos anos, porém, a história do lago ganhou uma virada importante. Reportagem da Associated Press, publicada em 22 de dezembro de 2025, mostrou que Lake Naivasha passou a subir de forma constante junto com outros lagos do Vale do Rift, deslocando moradores e atingindo diretamente a horticultura, com fazendas de flores sendo gradualmente engolidas pela água. A mesma reportagem cita um estudo segundo o qual a área dos lagos do leste africano aumentou 71.822 quilômetros quadrados entre 2011 e 2023. O texto também informa que, até 2021, mais de 75 mil famílias haviam sido deslocadas em diferentes áreas do Vale do Rift, enquanto, na região de Naivasha, cerca de 5 mil pessoas foram afetadas pelo avanço recente da água.

Lago Naivasha, no Quênia, expõe o custo hídrico e ambiental das rosas exportadas para a Europa e agora enfrenta até a alta das águas.
Lago Naivasha, no Quênia, expõe o custo hídrico e ambiental das rosas exportadas para a Europa e agora enfrenta até a alta das águas.

Nesse novo cenário, o problema deixou de ser apenas o esvaziamento do lago. A AP relata que cientistas associam a alta das águas principalmente ao aumento das chuvas e a mudanças de temperatura ligadas ao clima, com a sedimentação oriunda do uso agrícola do solo aparecendo como fator adicional.

Em outras palavras, o mesmo sistema pressionado por captação, poluição e expansão urbana passou a enfrentar também o risco oposto: a inundação.

Floricultura no Quênia sustenta empregos, mas o equilíbrio hídrico segue frágil

Esse quadro ajuda a explicar por que o caso de Naivasha é mais complexo do que uma narrativa simples de mocinhos e vilões. A Associated Press informa que a horticultura gerou pouco mais de US$ 1 bilhão em 2024 e respondeu por cerca de 40% das rosas vendidas na União Europeia, o que mostra o tamanho econômico do setor para o Quênia.

O lago pagou e continua pagando uma conta ambiental pesada.

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A Circle of Blue descreveu um ecossistema atingido por retirada excessiva de água e degradação da qualidade hídrica, enquanto o estudo da cirle mostrou que a água de Naivasha sai do país embutida nas flores. Já a AP registrou que, mais recentemente, a alta das águas passou a ameaçar moradores e até as próprias estufas.

No fim, o Lago Naivasha virou um retrato poderoso de como exportação, clima, água e emprego podem entrar em choque no mesmo território. O que chega como rosa fresca a uma mesa europeia pode carregar, na origem, um custo hídrico, ecológico e social muito mais profundo do que o consumidor imagina.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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