A cidade submersa na barragem do Rio São Bento em Siderópolis (SC) guarda torre de igreja mantida intacta a pedido das famílias da comunidade de São Pedro desapropriadas por volta de 2000, num lago de 450 hectares que abastece seis municípios e virou cartão-postal inusitado do Sul catarinense.
Quem visita a barragem do Rio São Bento em Siderópolis, no Sul de Santa Catarina, encontra cenário que parece saído de filme: a ponta de uma torre de igreja se ergue solitária em meio às águas de um lago artificial de 450 hectares, como se uma cidade submersa inteira descansasse sob a superfície. A realidade não está longe do que a paisagem sugere: a comunidade de São Pedro, que abrigava cerca de 80 famílias por volta do ano 2000, foi desapropriada para dar lugar à barragem construída como resposta à crise hídrica que a mineração de carvão agravou no Sul catarinense, e quando as últimas famílias deixaram suas casas pediram que a torre da igreja fosse preservada como símbolo da fé que unia o grupo. Os executores da barragem atenderam ao pedido, e a torre que deveria desaparecer sob as águas se transformou no cartão-postal mais improvável da cidade submersa que a região criou para resolver um problema e acabou produzindo uma atração turística.
O lago que inundou a antiga comunidade não é apenas paisagem: é infraestrutura que abastece centenas de milhares de pessoas. A barragem do Rio São Bento fornece água para seis municípios do Sul de Santa Catarina: Siderópolis, Criciúma, Forquilhinha, Maracajá, Içara e Nova Veneza, função que justificou a desapropriação da cidade submersa e que permanece como razão de existir da estrutura mais de duas décadas depois da realocação das famílias de São Pedro para áreas nas proximidades do antigo local. A região Sul do estado enfrentava crise hídrica agravada pelos danos ambientais da mineração de carvão, atividade que durante décadas contaminou rios e nascentes e comprometeu o abastecimento de água potável, contexto que tornou a construção da barragem decisão de sobrevivência, não de escolha.
Como a mineração de carvão criou a crise que resultou na cidade submersa

A relação entre a cidade submersa de Siderópolis e o carvão mineral é parte da história industrial do Sul de Santa Catarina. A mineração de carvão foi durante décadas a principal atividade econômica da região, empregando milhares de pessoas e alimentando usinas termelétricas como o Complexo Jorge Lacerda em Capivari de Baixo, mas o legado ambiental dessa atividade inclui rios contaminados por drenagem ácida de mina, nascentes comprometidas e áreas degradadas que tornaram a água da região imprópria para consumo em diversos pontos. A crise hídrica que levou à construção da barragem do Rio São Bento e à inundação da comunidade de São Pedro foi consequência direta desse passivo ambiental que a mineração deixou e que o Sul catarinense enfrenta até hoje em programas de recuperação que custam centenas de milhões de reais.
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A decisão de criar a barragem exigiu sacrifício de uma comunidade inteira. As cerca de 80 famílias de São Pedro foram desapropriadas e realocadas nas proximidades, processo que envolveu negociação, indenizações e a perda de um modo de vida construído ao longo de gerações naquele pedaço de terra que hoje está sob metros de água. A torre da igreja que permanece visível acima da superfície é, ao mesmo tempo, monumento à fé da comunidade que deixou suas casas e lembrete permanente de que a cidade submersa existiu como lugar real onde pessoas nasceram, cresceram e viveram antes de a água cobrir tudo, exceto a ponta de concreto e fé que as últimas famílias pediram para manter de pé.
Por que a torre da igreja da cidade submersa virou cartão-postal

O contraste visual entre a torre solitária e a vastidão do lago é o que transforma a cidade submersa de Siderópolis em atração que surpreende visitantes. A torre se ergue como elemento vertical único em meio à superfície plana da água, cercada por Mata Atlântica nas margens da barragem, e o cenário produz efeito que fotógrafos e turistas buscam especialmente em dias de céu limpo, quando o reflexo da torre na água cria imagem simétrica que se tornou uma das mais compartilhadas do turismo catarinense nas redes sociais. O fato de a torre ter sido mantida a pedido da comunidade, e não por decisão técnica ou turística, adiciona camada emocional que diferencia a cidade submersa de outras atrações artificiais e que dá à paisagem significado que vai além da estética.
A história por trás da torre é o que faz visitantes permanecerem mais tempo do que o necessário para uma foto. Quem chega à barragem do Rio São Bento e descobre que ali embaixo havia uma comunidade com casas, ruas, escola e igreja costuma refletir sobre o que significa sacrificar um lugar inteiro para resolver um problema coletivo, reflexão que a torre silenciosa provoca sem precisar de placa explicativa. A cidade submersa de Siderópolis se junta a outros casos brasileiros de comunidades inundadas por barragens, como Canoas de Pedra no Rio Grande do Sul e a velha Jaguara em Minas Gerais, histórias que combinam necessidade de infraestrutura com perda de identidade local e que a torre da igreja representa melhor do que qualquer documento.
Como visitar a cidade submersa e a torre da igreja em Siderópolis
A barragem do Rio São Bento é aberta ao público e o acesso à paisagem onde a torre da cidade submersa se destaca não exige ingresso para observação à distância. Quem quiser ver a torre de perto pode procurar o Parque Aguaí, empreendimento privado localizado às margens da barragem que oferece aluguel de caiaques e pedalinhos para navegar até as proximidades da torre, além de passeio de gôndola que permite visualizar a cidade submersa de ângulo privilegiado sobre a água. O valor de acesso ao parque é de R$ 20 por pessoa, e além dos passeios aquáticos o local oferece tirolesa, trilhas pela Mata Atlântica, museu do agricultor, almoço, café colonial e bar com drinques, programação que permite transformar a visita à torre em passeio de dia inteiro.
A região da barragem também é procurada para piqueniques e contemplação da natureza que se regenerou ao redor do lago artificial. A Mata Atlântica que circunda os 450 hectares de água criou ecossistema que abriga aves, peixes e vegetação nativa, ambiente que contrasta com as áreas degradadas pela mineração de carvão que ainda existem em outros pontos do município de Siderópolis e que reforça o paradoxo da cidade submersa: a mesma atividade que destruiu o meio ambiente e provocou a crise hídrica que justificou a barragem acabou gerando, involuntariamente, reserva ambiental e destino turístico que hoje movimentam a economia local. Para quem visita o Sul de Santa Catarina com roteiro que inclui praias de Criciúma, gastronomia italiana de Nova Veneza ou a rota do carvão em Lauro Müller, a cidade submersa de Siderópolis é parada que adiciona ao passeio combinação rara de história, paisagem e reflexão sobre as escolhas que comunidades fazem quando a água falta.
E você, conhecia a história da cidade submersa de Siderópolis? Já visitou a torre da igreja na barragem? Deixe sua experiência nos comentários.


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