Megaobra no Tibete combina escala inédita, alto investimento e impacto regional em uma área estratégica da Ásia, reunindo energia renovável, engenharia extrema, sensibilidade geopolítica e preocupações ambientais em torno de um dos projetos hidrelétricos mais acompanhados do mundo.
A China levou adiante, no Tibete, um empreendimento hidrelétrico que pode se tornar o maior do planeta em capacidade instalada, com 60 gigawatts (GW) e geração estimada em 300 bilhões de quilowatts-hora por ano.
O projeto fica no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, na região conhecida como Grande Curva, e foi aprovado oficialmente no fim de dezembro de 2024.
Em julho de 2025, o governo chinês anunciou o início da construção.
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O investimento divulgado por fontes oficiais chinesas e por veículos internacionais gira em torno de 1,2 trilhão de yuans, o equivalente a cerca de US$ 167 bilhões a US$ 170 bilhões.
A escala ajuda a explicar a repercussão internacional da obra.
A potência prevista supera a da usina de Três Gargantas, hoje a principal referência mundial em hidrelétricas de grande porte.
Para Pequim, o projeto integra a estratégia de ampliar a oferta de energia renovável, reforçar a segurança energética e apoiar a meta de neutralidade de carbono até 2060.
Em paralelo, a iniciativa ampliou preocupações sobre impactos ambientais, riscos geológicos e possíveis efeitos sobre países que dependem das águas do mesmo sistema fluvial.
Usina no Tibete pode superar Três Gargantas em geração de energia
A estimativa de geração anual de 300 bilhões de kWh colocaria o projeto tibetano em um patamar inédito no setor hidrelétrico.
Autoridades e analistas costumam comparar esse volume a cerca de três vezes a produção anual de Três Gargantas, embora a relação varie conforme o ano e as condições hidrológicas.
Ainda assim, o dado indica uma escala superior à das maiores barragens em operação no mundo.
O plano não se limita a uma estrutura isolada.
Reportagens recentes e informações associadas ao projeto apontam a previsão de cinco usinas em cascata, o que amplia a intervenção no vale do rio e o potencial de geração.
Nesse contexto, a obra passou a ser tratada pelo governo chinês como parte de um pacote mais amplo de infraestrutura energética e desenvolvimento regional.
Segundo a agência estatal Xinhua, o empreendimento também foi apresentado como instrumento para impulsionar a economia local e fortalecer a integração do Tibete à estratégia nacional de transição energética.
Fora da China, porém, observadores associam a barragem não apenas à produção de eletricidade, mas também ao peso estratégico do controle de uma bacia transfronteiriça.

Engenharia na Grande Curva do Yarlung Tsangpo amplia desafio técnico
O trecho escolhido está entre os mais extremos do mundo para exploração hidrelétrica.
Na Grande Curva do Yarlung Tsangpo, o rio desce cerca de 2.000 metros em apenas 50 quilômetros, segundo informações publicadas recentemente por agências internacionais.
Esse desnível é apontado como um dos fatores centrais para o potencial energético da área.
Para aproveitar essa queda d’água, o projeto prevê obras subterrâneas de grande porte.
Estudos e análises sobre a iniciativa indicam um sistema de desvio de água por túneis e estruturas escavadas na montanha, alternativa que reduziria a dependência de um reservatório convencional do tamanho de Três Gargantas.
Mesmo assim, especialistas destacam que as dificuldades técnicas seguem elevadas.
O cânion do Yarlung Tsangpo reúne relevo acidentado, clima severo, geologia complexa e acesso logístico limitado.
Na prática, isso exige estabilização de encostas, escavações profundas e operação contínua em uma área sujeita a atividade tectônica relevante.
Em razão desse conjunto de fatores, o projeto passou a ser observado com atenção por pesquisadores e por autoridades de países vizinhos.
A preocupação aumentou depois do terremoto de magnitude 6,8 que atingiu o Tibete em janeiro de 2025 e causou danos a reservatórios na região, de acordo com a Reuters.
Após o tremor, especialistas ouvidos pela agência reforçaram que barragens instaladas em zonas sísmicas exigem padrões ainda mais rigorosos de monitoramento, engenharia e segurança operacional.
Índia e Bangladesh monitoram impactos do projeto no Brahmaputra
O Yarlung Tsangpo nasce no Tibete, segue para a Índia e passa a integrar o sistema do Brahmaputra antes de chegar a Bangladesh.
Por isso, a barragem é tratada como um tema transfronteiriço.
Em janeiro de 2025, o governo indiano informou ter levado suas preocupações a Pequim.
Mais tarde, Nova Délhi voltou a afirmar que acompanha o projeto e defende transparência sobre seus possíveis efeitos a jusante.
O ponto mais sensível é a gestão do fluxo de água.
A possibilidade de retenção ou modulação em um trecho estratégico do rio alimenta receios relacionados a abastecimento, agricultura, pesca e cheias sazonais.
A China afirma que o projeto não deverá causar impacto relevante sobre o meio ambiente nem comprometer o fornecimento hídrico aos países vizinhos.
Ainda assim, autoridades indianas mantêm o tema sob observação.
Parte dessa cautela se explica pelo histórico de compartilhamento de dados hidrológicos entre China e Índia.
O governo indiano registrou oficialmente que o memorando referente aos dados do Brahmaputra expirou em junho de 2023 e que o envio dessas informações foi interrompido a partir daquele momento.
Em um contexto de baixa previsibilidade, o avanço de uma obra desse porte tende a ampliar a sensibilidade diplomática em torno do rio.
Bangladesh também acompanha o caso porque depende do mesmo sistema hídrico em seu trecho final.
Além do abastecimento humano, o regime do Brahmaputra influencia a agricultura, a navegação e a dinâmica das cheias na planície deltaica.
Por isso, qualquer alteração relevante no comportamento do rio costuma ter repercussão regional.
Sedimentos, segurança hídrica e cooperação em bacias compartilhadas
O que está documentado é a existência de temor, por parte de países a jusante e de organizações ambientais, em relação a mudanças no regime hídrico, nos ecossistemas e na segurança da bacia.
Também entram nessa discussão os efeitos de grandes barragens sobre o transporte natural de sedimentos.
Em rios de alcance internacional, esse tema costuma ser tratado com cautela porque envolve fertilidade do solo, erosão, dinâmica de cheias e manutenção de habitats aquáticos.
No caso do Yarlung Tsangpo-Brahmaputra, especialistas e governos têm defendido mais transparência e cooperação técnica antes que os impactos possam ser avaliados com maior precisão.
Organismos ligados à governança da água, como a ONU-Água, vêm defendendo acordos de cooperação em bacias compartilhadas justamente para reduzir o risco de tensão entre países que dependem do mesmo curso fluvial.
Nesse tipo de cenário, o debate costuma ir além da engenharia e alcançar temas como segurança alimentar, prevenção de desastres e troca de informações hidrológicas.
Energia renovável, desenvolvimento regional e pressão diplomática
Dentro da China, o projeto é apresentado como obra de interesse nacional, voltada à geração de eletricidade de baixa emissão e ao estímulo econômico.
No exterior, a iniciativa passou a ser acompanhada também por seu peso estratégico.
Em julho de 2025, quando a construção foi oficialmente lançada, os mercados chineses reagiram ao anúncio como parte de um movimento mais amplo de investimento em infraestrutura.
A controvérsia em torno da barragem, portanto, não se limita ao tamanho da usina.
O debate envolve biodiversidade, atividade sísmica, segurança de barragens, governança de águas internacionais e relações diplomáticas entre países asiáticos.
À medida que o cronograma avança, aumenta a pressão para que a China detalhe com mais clareza os impactos previstos, o desenho técnico da obra e os mecanismos de cooperação com os vizinhos que compartilham a bacia.
Nesse cenário, a discussão central deixou de ser apenas a capacidade de geração de energia.
O foco também recai sobre os efeitos regionais de uma infraestrutura dessa escala e sobre a forma como eles serão monitorados, negociados e informados aos países a jusante.


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