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A China está erguendo no Tibete uma megaobra de US$ 167 bilhões e 60 GW que pode se tornar a maior fonte individual de energia do mundo e, ao mesmo tempo, uma das maiores bombas geopolíticas da Ásia

Escrito por Ana Alice
Publicado em 06/04/2026 às 23:37
Assista o vídeoImagem: Wang Gang/Xinhua via Getty
Imagem: Wang Gang/Xinhua via Getty
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Megaobra no Tibete combina escala inédita, alto investimento e impacto regional em uma área estratégica da Ásia, reunindo energia renovável, engenharia extrema, sensibilidade geopolítica e preocupações ambientais em torno de um dos projetos hidrelétricos mais acompanhados do mundo.

A China levou adiante, no Tibete, um empreendimento hidrelétrico que pode se tornar o maior do planeta em capacidade instalada, com 60 gigawatts (GW) e geração estimada em 300 bilhões de quilowatts-hora por ano.

O projeto fica no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, na região conhecida como Grande Curva, e foi aprovado oficialmente no fim de dezembro de 2024.

Em julho de 2025, o governo chinês anunciou o início da construção.

O investimento divulgado por fontes oficiais chinesas e por veículos internacionais gira em torno de 1,2 trilhão de yuans, o equivalente a cerca de US$ 167 bilhões a US$ 170 bilhões.

A escala ajuda a explicar a repercussão internacional da obra.

A potência prevista supera a da usina de Três Gargantas, hoje a principal referência mundial em hidrelétricas de grande porte.

Para Pequim, o projeto integra a estratégia de ampliar a oferta de energia renovável, reforçar a segurança energética e apoiar a meta de neutralidade de carbono até 2060.

Em paralelo, a iniciativa ampliou preocupações sobre impactos ambientais, riscos geológicos e possíveis efeitos sobre países que dependem das águas do mesmo sistema fluvial.

Usina no Tibete pode superar Três Gargantas em geração de energia

A estimativa de geração anual de 300 bilhões de kWh colocaria o projeto tibetano em um patamar inédito no setor hidrelétrico.

Autoridades e analistas costumam comparar esse volume a cerca de três vezes a produção anual de Três Gargantas, embora a relação varie conforme o ano e as condições hidrológicas.

Ainda assim, o dado indica uma escala superior à das maiores barragens em operação no mundo.

O plano não se limita a uma estrutura isolada.

Reportagens recentes e informações associadas ao projeto apontam a previsão de cinco usinas em cascata, o que amplia a intervenção no vale do rio e o potencial de geração.

Nesse contexto, a obra passou a ser tratada pelo governo chinês como parte de um pacote mais amplo de infraestrutura energética e desenvolvimento regional.

Segundo a agência estatal Xinhua, o empreendimento também foi apresentado como instrumento para impulsionar a economia local e fortalecer a integração do Tibete à estratégia nacional de transição energética.

Fora da China, porém, observadores associam a barragem não apenas à produção de eletricidade, mas também ao peso estratégico do controle de uma bacia transfronteiriça.

Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons
Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

Engenharia na Grande Curva do Yarlung Tsangpo amplia desafio técnico

O trecho escolhido está entre os mais extremos do mundo para exploração hidrelétrica.

Na Grande Curva do Yarlung Tsangpo, o rio desce cerca de 2.000 metros em apenas 50 quilômetros, segundo informações publicadas recentemente por agências internacionais.

Esse desnível é apontado como um dos fatores centrais para o potencial energético da área.

Para aproveitar essa queda d’água, o projeto prevê obras subterrâneas de grande porte.

Estudos e análises sobre a iniciativa indicam um sistema de desvio de água por túneis e estruturas escavadas na montanha, alternativa que reduziria a dependência de um reservatório convencional do tamanho de Três Gargantas.

Mesmo assim, especialistas destacam que as dificuldades técnicas seguem elevadas.

O cânion do Yarlung Tsangpo reúne relevo acidentado, clima severo, geologia complexa e acesso logístico limitado.

Na prática, isso exige estabilização de encostas, escavações profundas e operação contínua em uma área sujeita a atividade tectônica relevante.

Em razão desse conjunto de fatores, o projeto passou a ser observado com atenção por pesquisadores e por autoridades de países vizinhos.

A preocupação aumentou depois do terremoto de magnitude 6,8 que atingiu o Tibete em janeiro de 2025 e causou danos a reservatórios na região, de acordo com a Reuters.

Após o tremor, especialistas ouvidos pela agência reforçaram que barragens instaladas em zonas sísmicas exigem padrões ainda mais rigorosos de monitoramento, engenharia e segurança operacional.

Índia e Bangladesh monitoram impactos do projeto no Brahmaputra

O Yarlung Tsangpo nasce no Tibete, segue para a Índia e passa a integrar o sistema do Brahmaputra antes de chegar a Bangladesh.

Por isso, a barragem é tratada como um tema transfronteiriço.

Em janeiro de 2025, o governo indiano informou ter levado suas preocupações a Pequim.

Mais tarde, Nova Délhi voltou a afirmar que acompanha o projeto e defende transparência sobre seus possíveis efeitos a jusante.

O ponto mais sensível é a gestão do fluxo de água.

A possibilidade de retenção ou modulação em um trecho estratégico do rio alimenta receios relacionados a abastecimento, agricultura, pesca e cheias sazonais.

A China afirma que o projeto não deverá causar impacto relevante sobre o meio ambiente nem comprometer o fornecimento hídrico aos países vizinhos.

Ainda assim, autoridades indianas mantêm o tema sob observação.

Parte dessa cautela se explica pelo histórico de compartilhamento de dados hidrológicos entre China e Índia.

O governo indiano registrou oficialmente que o memorando referente aos dados do Brahmaputra expirou em junho de 2023 e que o envio dessas informações foi interrompido a partir daquele momento.

Em um contexto de baixa previsibilidade, o avanço de uma obra desse porte tende a ampliar a sensibilidade diplomática em torno do rio.

Bangladesh também acompanha o caso porque depende do mesmo sistema hídrico em seu trecho final.

Além do abastecimento humano, o regime do Brahmaputra influencia a agricultura, a navegação e a dinâmica das cheias na planície deltaica.

Por isso, qualquer alteração relevante no comportamento do rio costuma ter repercussão regional.

Sedimentos, segurança hídrica e cooperação em bacias compartilhadas

O que está documentado é a existência de temor, por parte de países a jusante e de organizações ambientais, em relação a mudanças no regime hídrico, nos ecossistemas e na segurança da bacia.

Também entram nessa discussão os efeitos de grandes barragens sobre o transporte natural de sedimentos.

Em rios de alcance internacional, esse tema costuma ser tratado com cautela porque envolve fertilidade do solo, erosão, dinâmica de cheias e manutenção de habitats aquáticos.

No caso do Yarlung Tsangpo-Brahmaputra, especialistas e governos têm defendido mais transparência e cooperação técnica antes que os impactos possam ser avaliados com maior precisão.

Organismos ligados à governança da água, como a ONU-Água, vêm defendendo acordos de cooperação em bacias compartilhadas justamente para reduzir o risco de tensão entre países que dependem do mesmo curso fluvial.

Nesse tipo de cenário, o debate costuma ir além da engenharia e alcançar temas como segurança alimentar, prevenção de desastres e troca de informações hidrológicas.

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Energia renovável, desenvolvimento regional e pressão diplomática

Dentro da China, o projeto é apresentado como obra de interesse nacional, voltada à geração de eletricidade de baixa emissão e ao estímulo econômico.

No exterior, a iniciativa passou a ser acompanhada também por seu peso estratégico.

Em julho de 2025, quando a construção foi oficialmente lançada, os mercados chineses reagiram ao anúncio como parte de um movimento mais amplo de investimento em infraestrutura.

A controvérsia em torno da barragem, portanto, não se limita ao tamanho da usina.

O debate envolve biodiversidade, atividade sísmica, segurança de barragens, governança de águas internacionais e relações diplomáticas entre países asiáticos.

À medida que o cronograma avança, aumenta a pressão para que a China detalhe com mais clareza os impactos previstos, o desenho técnico da obra e os mecanismos de cooperação com os vizinhos que compartilham a bacia.

Nesse cenário, a discussão central deixou de ser apenas a capacidade de geração de energia.

O foco também recai sobre os efeitos regionais de uma infraestrutura dessa escala e sobre a forma como eles serão monitorados, negociados e informados aos países a jusante.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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