Estrutura gigante em alta altitude transforma montanha chinesa em laboratório de partículas extremas, combinando milhares de detectores, água purificada e telescópios para captar sinais raros do cosmos e avançar na busca pela origem dos raios cósmicos mais energéticos já registrados.
A mais de 4.400 metros de altitude, no monte Haizi, em Daocheng, na província de Sichuan, o observatório LHAASO consolidou a China em uma área estratégica da astrofísica ao reunir escala inédita, operação contínua e sensibilidade voltada aos fenômenos mais energéticos conhecidos.
De acordo com a Academia Chinesa de Ciências, a instalação ocupa cerca de 1,36 quilômetro quadrado e combina detectores em solo, reservatórios de água e telescópios de amplo campo para rastrear partículas e fótons raros que chegam à Terra depois de atravessar o cosmos.
Estrutura do observatório LHAASO
O complexo foi desenhado para observar os chamados chuveiros atmosféricos, cascatas de partículas produzidas quando raios cósmicos e raios gama de altíssima energia atingem a atmosfera, deixando rastros indiretos que precisam ser reconstruídos com grande precisão por instrumentos espalhados em larga área.
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Essa tarefa exige uma arquitetura pouco comum mesmo entre grandes projetos científicos, porque os eventos buscados são escassos e se confundem com um volume imenso de partículas mais comuns, o que torna indispensável medir direção, energia e composição por diferentes técnicas ao mesmo tempo.
Como funcionam os detectores do LHAASO

O principal conjunto do observatório é o KM2A, instalado sobre uma área de um quilômetro quadrado, com 5.216 detectores de partículas eletromagnéticas e 1.188 detectores de múons, combinação usada para separar melhor os sinais associados a fótons muito energéticos daqueles produzidos por raios cósmicos carregados.
Ao lado dele funciona o WCDA, um arranjo Cherenkov em água com 3.120 células de detecção distribuídas em 78 mil metros quadrados, além do WFCTA, formado por 18 telescópios, que ampliam o campo de visão e ajudam a refinar a leitura dos eventos observados.
No sistema aquático, a água purificada funciona como meio de registro da luz Cherenkov emitida por partículas secundárias, e a própria academia informa que esse setor usa cerca de 360 mil toneladas de água e 6.240 tubos fotomultiplicadores instalados sob a superfície.
Essa combinação não foi montada apenas para aumentar números impressionantes de engenharia, mas para permitir medições compostas em uma faixa muito ampla de energia, condição vista como central para enfrentar um dos problemas mais persistentes da astrofísica de altas energias.
Origem dos raios cósmicos em foco
No centro da agenda científica do LHAASO está a tentativa de esclarecer de onde vêm os raios cósmicos mais energéticos produzidos na Via Láctea e por quais mecanismos naturais o Universo acelera partículas a patamares acima dos alcançados por aceleradores construídos em laboratório.

Esse esforço ganhou importância adicional porque a distribuição de energia dos raios cósmicos apresenta uma quebra conhecida como “joelho” do espectro, região em que físicos tentam entender quais fontes astrofísicas conseguem alimentar partículas com energias próximas da escala de petaelétron-volt.
Por que a altitude de Daocheng é estratégica
A escolha de Daocheng não foi casual, já que a altitude média de 4.410 metros reduz a espessura de atmosfera entre o detector e os chuveiros de partículas, o que melhora a qualidade do registro e aumenta a eficiência para identificar eventos de energia extrema.
Além da altura, a instalação foi concebida para operar com amplo campo de visão e alto ciclo de trabalho, algo decisivo para monitorar o céu de forma contínua e registrar tanto fontes persistentes quanto fenômenos transitórios, como explosões e surtos energéticos de curta duração.
Descobertas envolvendo buracos negros e microquasares
Entre os resultados mais relevantes associados ao observatório está a identificação de emissão gama de ultra-alta energia ligada a microquasares, sistemas formados por buracos negros de massa estelar que acumulam matéria de uma estrela companheira e podem lançar jatos relativísticos para o espaço.
Esse achado reforçou a hipótese de que ambientes ligados a jatos de buracos negros também funcionam como aceleradores naturais de partículas, aproximando duas frentes que por muito tempo apareceram separadas no debate público: a física dos buracos negros e a origem dos raios cósmicos galácticos.
Ao observar sinais desse tipo em diferentes sistemas, o LHAASO ampliou o peso das evidências de que processos violentos em torno desses objetos contribuem para a população de partículas extremas detectadas na Terra, sobretudo nas energias próximas da região do “joelho”.
Cooperação científica e impacto global
O observatório passou por construção principal entre 2017 e 2021, entrou em operação instrumental completa em julho de 2021 e depois avançou para a formalização de sua entrada em operação após a aceitação nacional anunciada em maio de 2023, segundo informações oficiais chinesas.
Operado pelo Instituto de Física de Altas Energias da Academia Chinesa de Ciências, o projeto também funciona sob cooperação internacional e reúne dezenas de universidades e institutos, além de cerca de 280 cientistas, o que amplia seu papel como plataforma compartilhada de pesquisa básica.
Essa dimensão colaborativa ajuda a explicar por que o LHAASO aparece não só como vitrine tecnológica chinesa, mas como infraestrutura científica com alcance global, capaz de produzir dados relevantes para estudos sobre astrofísica de altas energias, raios cósmicos e buscas indiretas por matéria escura.
Por que o LHAASO chama atenção mundial
A raridade dos fótons na faixa de petaelétron-volt faz com que cada detecção tenha peso desproporcional no avanço do campo, e isso transforma a montanha onde o observatório foi construído em um ponto estratégico para examinar processos físicos que não podem ser reproduzidos integralmente na Terra.
Mais do que registrar eventos isolados, a instalação foi projetada para vigiar o céu de maneira ampla, contínua e multienergética, convertendo uma região elevada do planalto Qinghai-Xizang em laboratório natural para investigar a origem e a evolução dos fenômenos mais violentos do Universo.


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