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A busca frenética pelo domínio tecnológico do planeta – por consequência, econômico e militar – acirrou a disputa pelas chamadas ‘terras raras’, por parte das superpotências Estados Unidos e China, o que coloca o Brasil, detentor da segunda maior reserva mundial, no epicentro da sanha internacional.

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Escrito por Marcello Sigwalt Publicado em 30/06/2026 às 12:47 Atualizado em 30/06/2026 às 13:06
Corrida de superpotências pelo domínio tecnológico do planeta põe Brasil como ponto-chave do mercado de terras raras
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Só superado pela China, o país possui cerca de 21 milhões de toneladas (23% do total global) desses minerais críticos, mas responde por uma produção efetiva não superior a 1% da demanda mundial.

Total dependência do exterior é mentalidade recorrente

Esse contraste retrata a mentalidade tacanha tupiniquim, pois o mercado local se limita à extração de matéria-prima bruta, o que o torna totalmente dependente do processo de refino no exterior. 

Mas esse não é o único paradoxo por aqui. Enquanto o volume de pedidos de autorização de pesquisa ‘explodem’, a Agência Nacional de Mineração (ANM) enfrenta a iminência de bloqueios orçamentários, no montante de R$ 22,7 milhões, o que pode resultar no descumprimento de acordos internacionais.

Ao mesmo tempo, de 2023 e ao início de junho deste ano, foram contabilizados cerca de 3 mil pedidos de pesquisa, ao passo que, entre 1975 e 2022, estes somaram apenas 745 requerimentos.

Para melhor entendimento, explica-se que o requerimento de pesquisa é a primeira fase de um longo período até a concessão da lavra, quando uma empresa recebe autorização para explorar uma jazida.

ANM: compromissos externos requerem estrutura institucional

Na avaliação do diretor-presidente da ANM, Mauro Sousa. “Nós criamos compromissos internacionais e precisamos ter uma estrutura institucional capaz de dar as respostas adequadas. Quando isso acontece, perdemos a capacidade de cumprir aquilo com que o Estado brasileiro está se comprometendo”, disse.

Sousa acrescenta que “há uma contradição entre os objetivos estratégicos do país e a redução dos recursos destinados à autarquia” e que “somos falhos quando cortamos recursos que não permitem que aquilo que foi acordado seja efetivamente cumprido. Isso é uma contradição do Estado brasileiro”.

Bloqueio orçamentário deve interromper vistorias técnicas

Um dos reflexos negativos mais imediatos, caso a medida se confirme é a perspectiva de que 43 barragens e 18 pilhas de mineração que deveriam receber vistorias técnicas até o fim do ano poderão ficar fora do cronograma inicialmente planejado.

Constitui a categoria de ‘terras raras’ um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza (lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, escândio, túlio, itérbio, lutécio e ítrio), normalmente misturados a outros minérios de difícil extração e com alto valor comercial.

Aplicação de minerais críticos em novas tecnologias é estratégica

Sua aplicação é diversa, desde a fabricação de turbinas eólicas, baterias de carros elétricos, cabos de transmissão, foguetes, equipamentos médicos, até armas e dispositivos eletrônicos de última geração. Dessa forma, tais minérios desempenham papel vital na transição energética, sobretudo nos setores de defesa e produção de alta tecnologia, alvo de intensa disputa e negociações políticas pelos países centrais. 

Ao menos, em potencial, de acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), as principais reservas nacionais estão distribuídas em 12 estados, mas com maior concentração em cinco principais polos. São eles:

  • Minas Gerais (Araxá, Tapira e Poços de Caldas): Araxá abriga a única reserva oficialmente reconhecida e integrada a complexos de rochas alcalinas com nióbio e fosfato. Poços de Caldas possui depósitos de argila iônica altamente valorizados. 
  • Goiás (Minaçu e Nova Roma): Concentra alguns dos projetos mais promissores e de maior escala voltados especificamente para elementos pesados de terras raras.
  • Amazonas (Pitinga e Seis Lagos): Pitinga possui depósitos associados ao estanho. A região de Seis Lagos é uma das maiores fronteiras minerais intocadas, porém cercada de restrições ambientais.
  • Bahia e Sergipe: Apresentam forte potencial em depósitos costeiros (monazíticos) e formações de argila.  

Projetos específicos

  • Projeto Serra Verde (Minaçu): É a única planta comercial de terras raras em operação fora da Ásia. O projeto foca em argila de adsorção iônica (fácil extração) e foi recentemente adquirido pela norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões. O movimento gerou uma forte resposta geopolítica: a China impôs bloqueios de exportação contra a controladora americana, evidenciando o valor estratégico da operação de Goiás.  
  • Projeto Carina/Aclara Resources (Nova Roma): Investimento estimado em R$ 2,8 bilhões focado em argilas iônicas, com previsão de alta sustentabilidade por não demandar explosivos e reutilizar quase 100% da água.  
  • Projeto Viridis (Minas Gerais): Iniciativa que avança em negociações com a União Europeia para obter apoio financeiro e mecanismos de proteção de preços. O diferencial estratégico desse projeto é focar no refino local dos minerais, quebrando o padrão de apenas exportar material bruto. 
  • Projeto Serra Verde (Minaçu): É a única planta comercial de terras raras em operação fora da Ásia. O projeto foca em argila de adsorção iônica (fácil extração) e foi recentemente adquirido pela norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões.

O movimento gerou uma forte resposta geopolítica: a China impôs bloqueios de exportação contra a controladora estadunidense, evidenciando o valor estratégico da operação de Goiás.  

  • Projeto Carina/Aclara Resources (Nova Roma): Investimento estimado em R$ 2,8 bilhões focado em argilas iônicas, com previsão de alta sustentabilidade por não demandar explosivos e reutilizar quase 100% da água.  
  • Projeto Viridis (Minas Gerais): Iniciativa que avança em negociações com a União Europeia para obter apoio financeiro e mecanismos de proteção de preços. O diferencial estratégico desse projeto é focar no refino local dos minerais, quebrando o padrão de apenas exportar material bruto.

Implantação de indústrias nacionais de refino é questão central

Do ponto de vista estratégico, o maior desafio estrutural do Brasil é evitar o modelo histórico de exportação de commodities minerais brutas. Para agregar valor às terras raras, o país precisa superar a ausência de indústrias nacionais de separação/refino, carência tecnológica para fabricação de ímãs e entraves burocráticos e ambientais na mineração. 

Atualmente, o país se limita apenas à primeira das três etapas de exploração das terras raras, a upstream (mineração e extração), na qual apresenta projetos competitivos em depósitos de argilas de adsorção iônica.

Já na segunda (midstream, de separação e refino) e terceira (downstream, de ligas e imãs permanentes) etapas, o país não está presente.

Conforme especialistas, o maior gargalo do setor se refere à midstream – que consiste na transformação do minério em óxidos de alta pureza – cuja tecnologia hoje é dominada pela China. 

Já no caso do downstream – etapa de maior valor agregado, crucial para motores de carros elétricos e turbinas eólicas – o parque industrial brasileiro é incipiente. 

Os principais gargalos estruturais incluem:

Domínio tecnológico e cadeia de suprimentos: o conhecimento em separação química é restrito. Sem capacidade de refino em escala industrial no país, a tendência é que o material bruto seja exportado e depois recomprado já na forma de componentes tecnológicos caros.

Desafios ambientais e regulatórios: o processo químico de lixiviação exige alto volume de água, gerando riscos de escassez e poluição que exigem estudos complexos. Além disso, o licenciamento ambiental é lento e o aparato regulatório é desafiador, impactando inclusive áreas de preservação ou próximos a terras protegidas. 

Estrutura da ANM (Agência Nacional de Mineração): A ampliação do conhecimento geológico depende da agência reguladora. Órgãos técnicos têm sofrido com restrições e bloqueios orçamentários, o que afeta a velocidade de aprovação de pesquisas e liberações de áreas.

Falta de Escala e Demanda Local: O mercado consumidor interno para tecnologias que utilizam terras raras ainda está em desenvolvimento. A atração de capital global tem ocorrido mais por uma corrida geopolítica internacional (como interesse dos Estados Unidos em diversificar fornecedores) do que por um planejamento de industrialização nativa. 

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Marcello Sigwalt

Sou um profissional de comunicação, especializado em Economia, Política, Meio Ambiente, Ciência & Tecnologia, Educação, Esporte e Polícia, nas quais exerci as funções de editor, repórter, consultor de comunicação e assessor de imprensa. Destaco as atividades de edição e reportagem, mediante o uso de linguagem informativa e fluente que estimule o debate, a reflexão e a consciência crítica. No período de 2003-2011, em Brasília, atuei como assessor de imprensa no Congresso Nacional (na Câmara dos Deputados e no Senado federal); consultor de comunicação do Projeto de Gestão Ambiental Rural (PGAR), do Ministério do Meio Ambiente e das Nações Unidas, em 2006; editor da Assessoria de Comunicação do Ministério de Ciência e Tecnologia (Ascom/MCTI), em 2012. Como repórter especial, assinei a capa das revistas: Veja (prisão do senador Luiz Estevão, 2000); Galileu (Peritos criminais, 2010) e Conjuntura Econômica-FGV (Comércio exterior do Brasil e Crise Argentina, 2002). Atuei como editor-assistente do Portal iG para as eleições de 2010. Em 2013, cobri a cobertura do seminário internacional sobre energia, para a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham-Rio). De 2014 a 2015, atuei como repórter especial da revista Desafios do Desenvolvimento (Ipea); repórter da revista Brasil Energia Petróleo (RJ) e editor do site Janus Investimentos (SP), em 2018 e 2019, e redator e editor do site Capitalist. De 2022 a 2025, fui editor de Economia do jornal Correio da Manhã (RJ). Atualmente, produzo conteúdo para os sites Linkedin e Substack.

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