Em entrevista ao Estadão, Sami Hassuani detalha a reestruturação da maior indústria bélica do país após quatro anos de paralisação e defende a integração entre BNDES, orçamento federal e inovação tecnológica
Conforme reportagem publicada pelo Estadão, assinada pelo jornalista Marcelo Godoy, o ministro da Defesa José Múcio Monteiro Filho já havia advertido recentemente que o Brasil está sem defesa adequada. Agora, é a vez de Sami Youssef Hassuani, CEO da Avibras Aeroco — maior indústria bélica do país — lançar um alerta semelhante: sem estoques e capacidade de produção escalável, o Brasil será derrotado em um eventual conflito moderno. Segundo ele, é preciso interligar os recursos destinados à inovação com o dinheiro do BNDES e com o orçamento federal, organizando as empresas da base industrial de defesa em torno de projetos estruturados — um movimento que, na avaliação do executivo, se tornou necessário diante da nova realidade geopolítica mundial.
Hassuani lidera um complexo industrial de 2,7 milhões de metros quadrados, com 18 unidades fabris, situado no meio da Serra do Mar, próximo à Rodovia dos Tamoios. Ali, a segurança é rigorosa: não se entra com celular ou computador, ninguém circula entre unidades sem controle rígido, e o servidor de engenharia da empresa não se comunica com a internet. Nada é copiado sem autorização prévia.
Da paralisação à retomada: R$ 300 milhões e 90% da cadeia restabelecida
A trajetória recente da empresa é marcada por uma reviravolta significativa. A antiga Avibras permaneceu quatro anos parada, em razão de dívidas e de um processo de recuperação judicial. A reestruturação começou em agosto de 2025, com a mudança de controle da empresa e a criação da Avibras Aeroco, companhia nova que herdou todos os ativos, a propriedade intelectual e o legado tecnológico da antiga Avibras.
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“Esse é um processo que nós começamos em agosto de 25 com a mudança do controle da Avibras e, na sequência, dentro do processo de recuperação judicial, criou-se a Avibras Aeroco, uma empresa nova que herdou todos os ativos da Avibras”, explicou Hassuani ao Estadão.
A empresa recebeu R$ 300 milhões de investidores, entre os quais os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS. Com esse aporte, noventa por cento da cadeia logística de fornecedores já foi restabelecida, e o setor industrial acaba de retomar suas atividades após o longo período de paralisação. Segundo Hassuani, todas as diligências clássicas — jurídica, contábil, financeira, tecnológica e industrial — constataram que a tecnologia da empresa permanecia intacta: servidores, propriedade intelectual, desenhos e maquinário, tudo preservado. “Nós constatamos que a tecnologia estava intacta, servidores, a propriedade intelectual, desenhos, tudo estava intacto e a parte industrial, também todo o maquinário, todo o parque estava intacto”, afirmou.
Foguetes, mísseis e a corrida para entregar antes dos Estados Unidos

Nas unidades fabris, o Estadão acompanhou a retomada da produção das estiradeiras de aço — processo a frio essencial para a construção de foguetes e mísseis. Existem apenas cinco máquinas desse tipo em todo o Brasil, e quatro delas pertencem à Avibras. A capacidade de produção pode alcançar até 5 mil foguetes envelopados por mês.
Entre os produtos vistos durante a visita, estão os foguetes SS-80 e SS-40, destinados ao Exército, à Força Aérea Brasileira e a clientes do Golfo Pérsico, além dos foguetes de 70 mm do sistema Skyfire-70, usados pelos Super Tucanos exportados pela Embraer e por helicópteros militares brasileiros. Em uma área isolada do complexo, às margens da represa do Jaguari, estavam duas unidades do novo Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) em fase de preparação, com lançamento previsto para novembro.
O MTC tem alcance inicial de 300 quilômetros, podendo atingir alvos a até 450 quilômetros com precisão de 9 metros, segundo dados divulgados pela própria empresa. Faltam ainda três voos para concluir o processo de certificação. O míssil é disparado pelo sistema Astros de artilharia, também produzido pela Avibras, e a expectativa é vender até 200 unidades por ano, com exportação voltada a países do Golfo e do Sudeste Asiático.
“Os americanos estão entregando só em 2032 o que é encomendado agora. Nós vamos poder entregar para a exportação em dois anos”, afirmou Hassuani, comparando o prazo de entrega da Avibras com o de fabricantes internacionais.
Novos produtos: míssil hipersônico e portfólio de drones

Além do MTC, a empresa está desenvolvendo, em parceria com o Exército brasileiro, o Míssil Tático Balístico S+100 — um produto mais barato, hipersônico, com alcance de 120 quilômetros. Diferente do MTC, que navega por waypoints, o novo míssil seguirá trajetória direta ao alvo, modelo de engajamento amplamente utilizado nos conflitos da Ucrânia e do Golfo nos últimos anos.
A Avibras também planeja abrir um portfólio de drones, com foco em equipamentos de maior alcance e autonomia de voo, voltados tanto para vigilância quanto para ataque. “Todos os nossos clientes querem drones”, resumiu Hassuani. Segundo o executivo, os drones são mais baratos que os mísseis e ampliam a capacidade de vigilância em campo de batalha, com tempo de resposta praticamente imediato para engajamento de alvos. A empresa já possui um protótipo de VANT pronto, além de um sistema antidrone projetado para deter ataques coordenados por meio de uma cortina criada pela fragmentação de explosivos no céu.
A previsão é que, em 2027, a empresa entregue novas encomendas tanto para o Exército quanto para a Força Aérea Brasileira, além de realizar as primeiras entregas para clientes internacionais. “Estaremos em pleno vapor em 2028, quando nossa previsão é faturar R$ 500 milhões. Em 2029, começaremos a trabalhar em dólar”, projetou Hassuani. Atualmente, a empresa já conta com 500 funcionários, dois meses após a reabertura, e em julho deve iniciar a montagem de novos foguetes e o corte de chapas para blindados do Exército.
O argumento central: soberania industrial como tripé estratégico
Para Hassuani, contudo, o ponto mais importante de toda essa retomada vai além dos números de produção — é uma mudança de paradigma sobre o próprio conceito de soberania nacional. Segundo ele, o mundo passou a entender que soberania depende de três pilares interligados: capacidade de negociação diplomática, Forças Armadas equipadas e treinadas, e capacidade industrial de repor estoques rapidamente em momentos de conflito.
“A soberania industrial define um conflito moderno. Um país precisa não apenas de capacidade de negociar e Forças Armadas preparadas e equipadas. É necessário ter estoques e capacidade de produzir de forma perene e escalável”, afirmou o executivo. Segundo ele, as guerras recentes — incluindo o conflito na Ucrânia — mostraram que estoques se esgotam rapidamente em cenários de combate prolongado. “Quem não tem capacidade industrial está perdendo a guerra, apesar de ter capacidade de negociar e capacidade inicial de enfrentar o conflito. Só que depois de 4 dias você tá desarmado”, explicou.
Nesse sentido, Hassuani defende que empresas nacionais como Avibras, SIATT e Mac Jee estabeleçam parcerias e consórcios, seguindo o modelo já adotado por países europeus, de modo que os recursos de pesquisa — geridos pela Finep e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) — estejam integrados ao financiamento industrial do BNDES e ao orçamento do Ministério da Defesa. Segundo ele, esse tipo de integração já é exigido por países europeus como condição para liberar verbas de inovação: sem um cronograma claro de industrialização e entrega, o financiamento simplesmente não é aprovado.
“Não dá para cooperar sem ter um programa, que nasce das Forças e deve ter inovação, capacidade industrial e compra”, resumiu o CEO da Avibras Aeroco, ao defender que o Brasil unifique sua base industrial de defesa em torno de objetivos estratégicos compartilhados, em vez de manter empresas atuando de forma isolada.
A Marinha brasileira, por exemplo, já utiliza o sistema Astros, da Avibras, para disparar os mísseis antinavio Mansup pelas baterias de defesa costeira do Corpo de Fuzileiros Navais — equipamento fabricado pela SIATT, empresa com 50% de participação do Grupo Edge, dos Emirados Árabes. Recentemente, a Avibras também participou da Eurosatory, feira de defesa realizada em Paris, onde Hassuani manteve contato com fornecedores e potenciais parceiros internacionais, incluindo a MBDA, a Rheinmetall, a KNDS francesa, a turca Aselsan, a Baykar, a israelense Elbit, entre outras companhias do setor.
Diante de um cenário global de conflitos que se arrastam por anos e consomem estoques militares em ritmo acelerado, a retomada da Avibras Aeroco levanta uma questão que vai além da própria empresa: será que o Brasil conseguirá, de fato, integrar inovação, indústria e orçamento a tempo de construir a capacidade de defesa que Hassuani descreve como indispensável — ou o país seguirá repetindo o modelo fragmentado que, segundo ele, já não serve mais para os conflitos do século 21?
