O aumento dos custos com moradia, saúde e serviços essenciais está levando americanos de diferentes idades a adotarem arranjos multigeracionais e intergeracionais como solução prática, econômica e socialmente necessária.
Nos Estados Unidos, morar com a família deixou de ser visto como um sinal de dificuldade ou fracasso financeiro e passou a ser, cada vez mais, uma decisão estratégica. À medida que o custo de vida avança em ritmo acelerado, famílias americanas estão voltando a dividir o mesmo teto — ou, em muitos casos, nunca chegaram a se separar. Esse movimento reflete uma mudança estrutural no modo como diferentes gerações encaram moradia, economia doméstica e apoio social.
A informação foi divulgada pelo Business Insider, em reportagem assinada por Eliza Relman, que analisou dados recentes sobre o crescimento de lares multigeracionais nos Estados Unidos e as razões econômicas e sociais por trás dessa tendência. Segundo o levantamento, viver em família deixou de ser exceção e passou a representar uma resposta direta às pressões financeiras que afetam milhões de americanos.
O avanço das moradias multigeracionais nos Estados Unidos
O retorno das famílias ao mesmo espaço físico não é apenas uma percepção subjetiva, mas um fenômeno mensurável. De acordo com dados do Pew Research Center, o número de pessoas vivendo em lares multigeracionais — definidos como aqueles que reúnem duas ou mais gerações adultas — quadruplicou entre 1971 e 2021. Nesse intervalo, a proporção da população americana vivendo nesse tipo de arranjo saltou de 7% para 18%.
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Esse crescimento acompanha transformações profundas no mercado imobiliário. A National Association of Realtors identificou um aumento significativo na procura por imóveis projetados especificamente para moradia multigeracional, com espaços independentes dentro do mesmo terreno ou residência. Ao mesmo tempo, a plataforma Zillow registrou, em 2025, uma alta nacional nas buscas por unidades habitacionais acessórias, conhecidas como granny flats, além de suítes para parentes e áreas adaptadas para idosos.
Esse tipo de imóvel permite que pais, filhos adultos e até avós compartilhem o mesmo endereço, mas mantenham certo grau de autonomia. Assim, o modelo atende tanto às necessidades financeiras quanto às preferências de privacidade, algo cada vez mais valorizado.
Economia doméstica, cuidado e combate ao isolamento social
O principal motor dessa mudança é financeiro. Ao dividir despesas como aluguel, hipoteca, contas de serviços e manutenção, famílias conseguem reduzir significativamente o custo mensal de vida. Além disso, morar junto permite economizar com creches, cuidadores e serviços de assistência de longo prazo para idosos, que costumam ter valores elevados nos Estados Unidos.
No entanto, os benefícios vão além do orçamento. Esse tipo de convivência também atua como uma barreira contra o isolamento social, especialmente entre idosos. Antes da Segunda Guerra Mundial, era incomum que pessoas mais velhas vivessem sozinhas ou recebessem cuidados fora do ambiente familiar. Jovens adultos, por sua vez, raramente deixavam a casa dos pais antes do casamento.
Com o passar das décadas, esse padrão se transformou. Famílias passaram a viver mais distantes umas das outras, os serviços de moradia independente para idosos se expandiram e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho alterou a dinâmica familiar. Ao mesmo tempo, cresceu o número de pessoas que envelhecem sozinhas, sem filhos ou sem vínculos familiares próximos.
“Temos cada vez mais pessoas envelhecendo sozinhas, que não tiveram filhos, não se casaram ou não mantêm mais relação com seus familiares”, afirmou Bob Kramer, fundador do National Investment Center for Seniors Housing and Care. Segundo ele, esse grupo enfrenta desafios adicionais justamente por não contar com uma rede familiar tradicional.
Para esses chamados solo-agers, viver em arranjos familiares ou intergeracionais pode ser decisivo. “A necessidade básica dessas pessoas é comunidade”, explicou Sara Zeff Geber, consultora especializada em envelhecimento independente. De acordo com ela, encontrar soluções criativas ou tradicionais para não envelhecer isolado será essencial para garantir qualidade de vida.
Comunidades intergeracionais surgem como alternativa estrutural
Além das famílias que dividem a mesma casa, cresce também o interesse por modelos de moradia intergeracional, nos quais pessoas de diferentes idades — nem sempre parentes — compartilham espaços residenciais ou comunitários. Esse conceito abrange desde um idoso que aluga um quarto para um jovem até condomínios inteiros projetados para misturar gerações.
Um relatório publicado em 2024 destacou exemplos concretos desse modelo, como o One Flushing, no bairro de Queens, em Nova York. O complexo possui 231 apartamentos, sendo 66 reservados para pessoas idosas. O espaço conta ainda com um centro comunitário que promove atividades conjuntas, incluindo programas em que estudantes do ensino médio ajudam moradores mais velhos com tecnologia e informática.
Outras iniciativas semelhantes existem em estados como Oregon, Massachusetts e Illinois, muitas delas mantidas por organizações sem fins lucrativos. Esses projetos reúnem idosos e famílias acolhedoras, criando uma rede de apoio mútuo que beneficia ambos os lados.
Apesar dos avanços, o custo continua sendo um obstáculo relevante. Pessoas de renda média frequentemente enfrentam dificuldades, pois ganham demais para se qualificar a programas assistenciais do governo, mas não o suficiente para arcar com opções privadas de mercado. “O que preocupa é a falta de alternativas para quem tem renda modesta”, afirmou Robyn Stone, vice-presidente sênior da LeadingAge, entidade que representa provedores de serviços para o envelhecimento e que também contribuiu para o relatório.
Especialistas ressaltam que não existe uma solução única que funcione para todas as gerações. Preferências, orçamento e necessidades variam amplamente entre baby boomers, geração Z e outros grupos. Ainda assim, o consenso é que a moradia compartilhada, seja familiar ou intergeracional, tende a ganhar espaço à medida que os custos continuam subindo e o envelhecimento da população se intensifica.

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