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Commonwealth Fusion Systems instala recipiente de 48 toneladas e chega a 75% do reator SPARC em Massachusetts

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 17/05/2026 às 11:15
Atualizado em 17/05/2026 às 11:19
Recipiente de vácuo de 48 toneladas do tokamak SPARC sendo instalado pela Commonwealth Fusion Systems em Devens, Massachusetts
Segunda metade do vaso de vácuo do SPARC chega à fábrica em Devens: tokamak agora está cerca de 75% pronto. Imagem: representação artística baseada em fotos da CFS.
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A Commonwealth Fusion Systems chegou a 75% do tokamak SPARC em Massachusetts ao instalar a segunda metade de 48 toneladas do recipiente que vai abrigar plasma a mais de 100 milhões de graus para tentar ganho líquido de energia em 2027.

Em maio de 2026, em Devens, Massachusetts, engenheiros da Commonwealth Fusion Systems baixaram pela ponte rolante a segunda metade do vaso de vacuo sparc. Trata-se de um anel de aço de 48 toneladas.

Segundo a reportagem do portal Interesting Engineering, a instalação leva o tokamak a 75% de conclusão. A empresa promete primeiro plasma em 2026 e ganho líquido de energia em 2027.

O marco é relevante. Coloca o setor privado dos EUA à frente de gigantes públicos como o ITER, cujo cronograma foi adiado para 2039.

De fato, a CFS quer disputar o título de primeira reação de fusão com retorno positivo do mundo fora de laboratórios estatais.

Para o Brasil, o tema importa por dois motivos. Em primeiro lugar, a próxima geração de plantas comerciais pode redesenhar a oferta de eletricidade.

Além disso, empresas brasileiras de equipamentos pesados já buscam parcerias em supercondutores e instrumentação criogênica.

O vaso de vacuo sparc por dentro

Bobina supercondutora de alta temperatura usada no vaso de vacuo sparc da Commonwealth Fusion Systems
As bobinas supercondutoras de alta temperatura desenvolvidas pela CFS no MIT são o coração tecnológico do SPARC. Imagem: representação editorial.

O recipiente recém-instalado completa o vaso onde o plasma da máquina será confinado. Trata-se de uma câmara em formato de rosca.

As paredes são de aço inoxidável de espessura controlada. Elas suportam vácuo profundo e fluxos intensos de nêutrons.

De acordo com o blog técnico oficial da CFS, o vaso foi fabricado em duas metades para facilitar a montagem dos componentes internos.

Em seguida, as duas metades são unidas em torno do conjunto que recebe os magnetos supercondutores. A primeira metade já havia sido entregue meses antes.

Com a chegada da segunda, em maio de 2026, a estrutura completa do tokamak ganhou contorno final. Conforme o cronograma divulgado, ainda restam o fechamento do criostato externo e a integração das linhas de combustível.

Por sua vez, a montagem do interior exige tolerância de poucos milímetros. Qualquer descasamento entre câmara e campos magnéticos compromete a estabilidade do plasma.

Na prática, a CFS optou por construir a máquina em escala reduzida. Usou forte combinação de bobinas supercondutoras de alta temperatura.

Magnetos HTS, o pulo do gato

Plasma de fusão a 100 milhões de graus confinado por campos magnéticos no vaso de vacuo sparc
Plasma confinado por campos magnéticos: SPARC busca operar a temperaturas acima de 100 milhões de graus Celsius. Imagem: representação editorial.

O salto técnico da CFS está nos magnetos de fita supercondutora REBCO. Esses materiais conduzem corrente sem perda quando resfriados.

Por isso, eles geram campos magnéticos muito mais intensos por metro quadrado. Conforme detalhou o cofundador Brandon Sorbom em entrevistas técnicas, é essa densidade de campo que permite encolher o tokamak.

Da mesma forma, ela reduz o investimento total. Enquanto o ITER, baseado em magnetos de baixa temperatura, custa mais de US$ 20 bilhões, o SPARC orça em dezenas de vezes menos.

Em comparação, o conjunto de bobinas TFMC, testado pela CFS no MIT em 2021, atingiu 20 tesla, recorde mundial para magnetos de larga abertura.

Esse resultado destravou o financiamento privado da empresa. Posteriormente, a CFS levantou US$ 863 milhões em rodada Série B2 em 2025.

O total acumulado supera US$ 2 bilhões. Entre os investidores aparecem o gigante italiano ENI, o Bill Gates Breakthrough Energy e a Khosla Ventures.

Cronograma do vaso de vacuo sparc

Concepção artística da usina comercial de fusão ARC da CFS em Chesterfield County Virginia
Concepção da usina ARC, 400 MW na Virgínia: CFS já pediu conexão à malha PJM em abril. Imagem: representação editorial.

Segundo o blog oficial, a sequência prevista é a seguinte. Primeiro plasma em 2026, calibração dos diagnósticos de nêutrons em 2027 e tentativa de Q maior que 1 ainda nesse ano.

Caso o feito se confirme, será a primeira vez na história que uma máquina privada produzirá mais energia de fusão do que recebeu. Por enquanto, o recorde absoluto pertence ao NIF.

O Lawrence Livermore National Laboratory cravou 3,15 MJ liberados em 2022 com lasers. Foi a primeira ignição em laboratório do mundo.

Em paralelo, a CFS já começou a construir a planta comercial ARC. Trata-se de uma usina de 400 MW em Chesterfield County, na Virgínia.

Em abril de 2026, segundo a reportagem da E&E News, a CFS protocolou o primeiro pedido de uma empresa de fusão para conectar uma usina à PJM Interconnection.

Em maio de 2026, a italiana ENI assinou contrato bilionário de compra antecipada de energia da CFS. Naquele momento, ficou claro que parte do mercado já precifica fusão em prazos comerciais reais.

O contexto global da fusão

Cientista da fusão segura fita supercondutora de alta temperatura em laboratório de pesquisa
Pesquisador segura fita supercondutora HTS: o avanço dos magnetos viabilizou o projeto SPARC em escala reduzida. Imagem: representação editorial.

A corrida da fusão em 2026 vai além da CFS. A Helion Energy, em Washington, atingiu em fevereiro plasma a 150 milhões de graus com combustível de deutério-trítio em seu protótipo Polaris.

De acordo com a empresa, esse foi o primeiro uso documentado de combustível D-T por uma máquina privada. Conforme já documentou o CPG em reportagem sobre o tokamak coreano KSTAR, esse patamar é essencial.

Em paralelo, a TAE Technologies tem operado com hidrogênio-boro. Como mostrou o portal CPG em cobertura sobre a TAE Technologies, esse combustível alternativo evita lixo radioativo.

Por outro lado, startups privadas de fusão captaram cerca de US$ 9,8 bilhões até meados de 2025. Apesar disso, estudo na Nature Energy alertou que muitos modelos econômicos superestimam ganhos de aprendizado.

Ainda assim, a agência reguladora dos EUA, a NRC, publicou em fevereiro um arcabouço regulatório específico para fusão. A norma separa explicitamente fusão de fissão.

E o Brasil nessa equação

Embora nenhum tokamak comercial esteja previsto para o Brasil, há janelas concretas de participação. Em primeiro lugar, fornecedores de aço especial e equipamentos criogênicos podem entrar em cadeias globais.

Em segundo lugar, universidades brasileiras já participam de projetos no IPEN com plasmas de pequeno porte. Esses grupos podem cooperar com a CFS e com o MIT no longo prazo.

Conforme o portal CPG mostrou em cobertura sobre o acordo Microsoft-Chevron, o avanço da fusão se conecta diretamente à demanda por eletricidade. A explosão de IA pressiona o mix energético global.

Próximos passos

Segundo o blog da CFS, os próximos doze meses vão consumir o fechamento do criostato. Em seguida, vem a integração das linhas de hidrogênio e hélio do sistema de resfriamento.

Posteriormente, os diagnósticos de nêutrons serão calibrados a vácuo. Só depois vem a injeção do primeiro pulso de plasma.

Esse primeiro plasma usará apenas hidrogênio, sem D-T, para checar a estabilidade básica. Apesar disso, a janela para Q maior que 1 fica concentrada em 2027.

Caso a meta deslize, a CFS perderá vantagem sobre rivais como Helion e Tokamak Energy. Por isso, o SPARC funciona como vitrine industrial.

  • Massa do recipiente: 48 toneladas, segunda metade
  • Conclusão física do SPARC: cerca de 75% em maio de 2026
  • Localização: Devens, Massachusetts, EUA
  • Primeiro plasma previsto: ainda em 2026
  • Meta de Q maior que 1: a partir de 2027
  • Investimento privado da CFS: superior a US$ 2 bilhões
  • Usina comercial ARC: 400 MW na Virgínia, anos 2030

Ressalvas e o que pode dar errado

De acordo com pesquisadores do MIT consultados pela imprensa especializada, ainda restam incertezas físicas sobre o regime de operação em alta densidade. Apesar disso, simulações conduzidas em supercomputadores indicam margem para Q maior que 1.

Conforme o estudo de Tang e Schmidt publicado em 2026 na Nature Energy, mesmo se a meta técnica for atingida, o custo nivelado da fusão pode não competir com solar mais baterias até 2040.

Ainda assim, a maturidade dos magnetos HTS já mudou o setor de equipamentos pesados. Da mesma forma, a CFS pode popularizar fitas supercondutoras na indústria.

Por fim, fica a pergunta. Se o vaso de vacuo sparc realmente entregar Q maior que 1 em 2027, o Brasil estará pronto para entrar em uma cadeia industrial de fusão?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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