Três adolescentes do Texas criaram a Neuroflex, uma prótese de perna biônica controlada pelo cérebro sem cirurgia, por uma faixa de EEG. O protótipo, voltado a amputados, acertou o movimento desejado em 98% dos testes e levou US$ 50 mil na maior feira de ciências do mundo.
Uma prótese que obedece ao pensamento parece ficção científica, mas saiu das mãos de três estudantes de ensino médio. No Texas, nos Estados Unidos, o trio criou a Neuroflex, uma perna biônica que lê os sinais do cérebro por uma faixa colocada na cabeça e se move conforme a intenção do usuário, sem precisar de nenhuma cirurgia. O projeto foi reconhecido pela Society for Science, organizadora da maior feira de ciências do planeta.
O reconhecimento veio com peso e cifra. A Neuroflex recebeu o Gordon E. Moore Award, de US$ 50 mil, um dos principais prêmios da Regeneron ISEF 2025, a feira internacional de ciência e engenharia que reúne os melhores jovens cientistas do mundo. Nos testes, a prótese acertou o movimento que o usuário queria fazer em cerca de 98% das vezes.
Antes de seguir, vale uma ressalva honesta. A Neuroflex é um protótipo premiado, testado em uma pessoa, e não um produto médico já aprovado e à venda. Ainda assim, o que esses adolescentes mostraram, unindo cérebro, sensores e inteligência artificial a baixo custo, é o suficiente para virar notícia no mundo inteiro e acender uma esperança real para amputados.
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A prótese biônica que se controla com a mente

imagem: morefound/instagram
A ideia central da Neuroflex é simples de entender, mesmo sendo complexa de executar. Em vez de depender só de músculos ou de botões, a prótese capta a intenção de movimento diretamente do cérebro do usuário e a transforma em ação mecânica. É o pensamento virando passo, sem fio ligado por dentro do corpo.
A peça é uma prótese transfemoral, ou seja, para quem perdeu a perna acima do joelho, uma das situações mais difíceis de resolver na reabilitação. Quanto mais alta a amputação, mais articulações precisam ser recriadas, e mais difícil fica devolver um andar natural. A Neuroflex ataca justamente esse caso complicado.
Para isso, o aparelho combina hardware e software. Motores movem a estrutura e um tornozelo com articulações realistas tenta imitar o movimento natural do pé, enquanto um sistema de inteligência artificial interpreta o que o cérebro quer fazer. A soma desses elementos cria uma prótese que responde à pessoa, e não o contrário.
O resultado, segundo a equipe, é um movimento mais leve e econômico. A Neuroflex teria reduzido em cerca de 35% o gasto de energia em comparação com próteses convencionais, o que significa menos cansaço para quem usa. Em uma prótese de perna, gastar menos energia para andar é uma diferença que se sente a cada passo.
Os 3 adolescentes do Texas por trás da Neuroflex

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Por trás do invento está um trio muito jovem. Segundo a Society for Science, a Neuroflex foi criada por Samuel Skotnikov, de 17 anos, de Highland Village, e por Chanyoung Kim e Eeshaan Prashanth, ambos de 16 anos, de Flower Mound, todos no estado do Texas. Os três estudam na mesma escola de ensino médio.
Não se trata de gênios isolados em um laboratório fechado. São adolescentes comuns que decidiram encarar um problema gigante da medicina, mergulhando por conta própria em neurociência, engenharia e programação. O que tinham de sobra era curiosidade e vontade de resolver algo que viam de perto.
A maturidade aparece na forma como falam do projeto. “Estou sem palavras agora. A gente quer pegar nosso projeto e ajudar muito mais gente do que só o nosso amigo Aiden”, disse Skotnikov ao receber o prêmio. Para um grupo de adolescentes, transformar uma ideia escolar em uma tecnologia de saúde é um salto e tanto.
Chama atenção também que eles fizeram isso fora de um grande centro de pesquisa. Sem laboratório milionário, os três dividiram as tarefas entre programação, eletrônica e montagem, aprendendo o que faltava pela internet e na tentativa e erro. Foi engenhosidade de garagem aplicada a um problema de ponta da medicina, o que torna o resultado ainda mais impressionante.
Tudo começou por um amigo: a história de Aiden

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A Neuroflex não nasceu de uma busca por medalha, e sim de uma amizade. O ponto de partida foi Aiden, amigo dos três e amputado, que dividiu com eles a frustração de conviver com uma prótese que não o ajudava como deveria. Foi essa conversa que empurrou o trio para a pesquisa.
A motivação está nas palavras de Skotnikov. “Tudo começou em torno de ajudar nosso amigo. Ele compartilhou a dificuldade dele e como a prótese atual não estava ajudando muito. Isso nos fez mergulhar na pesquisa sobre próteses, com o objetivo de criar algo melhor para ele”, contou o estudante. O projeto, portanto, tinha rosto e nome desde o início.
Aiden não foi só inspiração, foi também quem testou. A equipe avaliou o protótipo nele, inclusive em uma esteira, acompanhando os movimentos para ajustar o sistema, e foi nesses testes que a prótese acertou a intenção de movimento em cerca de 98% das vezes. Construir para uma pessoa real deu ao projeto um padrão de exigência que uma simples maquete jamais teria.
Essa origem explica o conselho que Skotnikov deixou para outros jovens. “Faça aquilo que te apaixona. Não faça só pela feira de ciências, faça por alguém que você genuinamente quer ajudar”, afirmou. É a prova de que a melhor tecnologia costuma nascer de um problema humano concreto.
Como funciona: do cérebro ao movimento

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O coração da Neuroflex está em ler o cérebro sem invadi-lo. A prótese usa uma faixa de EEG, sigla para eletroencefalografia, colocada na cabeça, que capta os sinais elétricos da atividade cerebral pela parte de fora do crânio. Nada é implantado, e nenhuma agulha ou eletrodo entra no corpo.
Captar o sinal, porém, é só metade do desafio. Esses dados cerebrais são confusos e cheios de ruído, então a equipe criou um sistema híbrido de inteligência artificial para interpretá-los e descobrir qual movimento a pessoa quer fazer. Segundo a Society for Science, esse modelo classifica a intenção do usuário com 98,67% de precisão, um número impressionante para um trabalho de ensino médio.
Depois de entender a ordem, a prótese age. Os motores da Neuroflex se acionam para apoiar e antecipar o movimento, num ciclo de retorno constante em que o aparelho aprende e se ajusta ao usuário. É a tradução, em tempo real, de um pensamento em um passo dado pela perna biônica.
Vale separar os dois números para não confundir. Os 98,67% se referem à precisão do sistema de inteligência artificial em classificar a intenção, enquanto o “98% das vezes” descreve o acerto observado nos testes com Aiden. São medidas próximas, mas é justo apresentá-las como resultados de protótipo, e não como garantia de desempenho em larga escala.
Sem cirurgia: por que isso importa tanto
O detalhe de “sem cirurgia” não é um capricho, é o que muda o jogo. Muitas próteses controladas pelo cérebro dependem de implantes cirúrgicos, que exigem procedimentos caros, arriscados e nem sempre disponíveis. Ao usar uma faixa externa de EEG, a Neuroflex elimina essa barreira de uma vez.
Para o amputado, isso significa acesso mais simples e seguro. Não há internação, não há risco cirúrgico e não há longa recuperação só para começar a usar o equipamento, bastando vestir a prótese e a faixa. Em termos práticos, a tecnologia sai do hospital e se aproxima da casa da pessoa.
Essa abordagem não invasiva também amplia o público possível. Pessoas que não poderiam ou não quereriam passar por uma cirurgia no cérebro continuam de fora das soluções implantáveis, mas poderiam, em tese, usar uma prótese como a Neuroflex. Tornar a tecnologia menos invasiva é, no fim, torná-la mais democrática.
Interfaces cérebro-máquina: a fronteira que a Neuroflex explora
A Neuroflex faz parte de um campo que avança rápido: o das interfaces cérebro-máquina. São tecnologias que criam uma ponte direta entre o sistema nervoso e um aparelho, permitindo controlar próteses, cadeiras de rodas ou até computadores apenas com a atividade do cérebro. É uma das fronteiras mais quentes da ciência atual, com gigantes da tecnologia investindo bilhões.
Nesse campo, existe uma grande divisão. De um lado estão as interfaces invasivas, com chips implantados no cérebro, que prometem alta precisão, mas exigem cirurgia e trazem riscos. De outro, as não invasivas, que leem o cérebro de fora, são seguras e baratas, porém costumam captar um sinal mais fraco e cheio de ruído, mais difícil de decifrar.
É justamente nessa segunda trilha que mora o mérito dos adolescentes. Fazer uma prótese não invasiva responder com cerca de 98% de acerto é difícil exatamente porque o sinal externo é traiçoeiro. Ao combinar a faixa de EEG com um modelo de inteligência artificial bem treinado, eles empurraram para frente o que costuma ser o ponto fraco das soluções que dispensam cirurgia.
US$ 1.000 contra US$ 100.000: a prótese que quer ser acessível
Talvez o dado mais revolucionário não seja o cérebro, e sim o preço. Segundo a equipe, a Neuroflex pode ser produzida por cerca de US$ 1.000, enquanto próteses biônicas avançadas chegam a custar até US$ 100.000. É uma diferença de até cem vezes, que pode separar quem anda de quem fica sem.
O custo alto é hoje um dos maiores vilões da reabilitação. Muitos amputados simplesmente não têm como pagar por uma prótese de qualidade e acabam com modelos rígidos e limitados, ou sem prótese nenhuma. Uma alternativa barata e funcional ataca diretamente essa exclusão.
É por isso que a própria organização da feira destacou o impacto social do projeto. Como resumiu a Society for Science, o modelo dos estudantes poderia aliviar parte do peso financeiro das próteses. Quando uma tecnologia de ponta fica barata, ela deixa de ser privilégio e vira possibilidade para muito mais gente, inclusive para amputados de baixa renda.
O prêmio de US$ 50 mil na maior feira de ciências do mundo
O palco do feito foi o maior possível para um jovem cientista. A Neuroflex foi premiada na Regeneron ISEF 2025, a Feira Internacional de Ciência e Engenharia, realizada em Columbus, nos Estados Unidos, e considerada a maior feira de ciências do mundo. O evento chegou à sua 75ª edição em 2025.
A concorrência dá a dimensão da conquista. A feira de ciências reuniu cerca de 1.700 finalistas de 48 estados americanos e mais de 60 países, todos com projetos de alto nível, e distribuiu mais de US$ 9 milhões em prêmios e bolsas. Vencer ali coloca os adolescentes entre os melhores estudantes de ciência do planeta.
Pela Neuroflex, o trio recebeu o Gordon E. Moore Award for Positive Outcomes for Future Generations, no valor de US$ 50 mil, além de um prêmio de categoria em engenharia biomédica. É um reconhecimento que premia justamente projetos com potencial de melhorar a vida das próximas gerações, perfil que a prótese encaixa com folga.
De protótipo a produto: o que ainda falta
Por mais empolgante que seja, a Neuroflex ainda está no começo da estrada. O que existe é um protótipo vencedor de feira de ciências, validado em testes com uma pessoa, e não um dispositivo médico aprovado por órgãos de saúde. Entre a bancada e a farmácia hospitalar há um caminho longo.
Esse caminho passa por mais testes e regras rígidas. Para virar produto, a prótese precisaria ser avaliada em muitos usuários, passar por ensaios clínicos, garantir segurança e confiabilidade ao longo do tempo e obter as devidas certificações. Nada disso é rápido nem barato, mesmo com uma ideia brilhante na base.
Os próprios criadores sabem disso e já miram o futuro. “Queremos espalhar a tecnologia e ajudar outras pessoas também”, disse Prashanth, sinalizando que a ambição vai além de Aiden. Tratar a Neuroflex como uma promessa muito bem fundamentada, e não como solução pronta, é a forma mais justa de contar essa história.
O que o Brasil tem a ver: próteses caras e ciência jovem
O problema que a Neuroflex ataca é grande também no Brasil. O país tem um número expressivo de amputados, muitos deles dependentes do sistema público de saúde, e o acesso a próteses de qualidade esbarra justamente no custo e na fila. Uma solução barata e funcional conversa diretamente com essa realidade.
A lógica de baratear a tecnologia é especialmente bem-vinda por aqui. Próteses biônicas importadas são caríssimas, e iniciativas que reduzem o preço sem perder qualidade podem ampliar o acesso de quem mais precisa, dentro e fora do SUS. O caminho aberto pelos adolescentes do Texas mostra que isso não é utopia.
Há ainda a inspiração para a ciência jovem brasileira. O Brasil costuma enviar estudantes a feiras internacionais e tem talentos de sobra em escolas públicas e privadas, faltando muitas vezes apenas estrutura e incentivo. Histórias como a da Neuroflex mostram que adolescentes, com apoio, podem atacar problemas de saúde que desafiam até grandes empresas.
No fim, a mensagem que vem dos Estados Unidos é universal. Ciência feita com propósito, mirando uma pessoa real, pode gerar tecnologia capaz de ajudar milhões. É o tipo de aposta que o Brasil pode fazer ao investir em educação científica e em soluções acessíveis de saúde.
E você, confiaria numa prótese assim?
A trajetória dos três adolescentes do Texas mostra que idade não limita o tamanho da ideia: eles criaram a Neuroflex, uma prótese biônica controlada pelo cérebro sem cirurgia, que acerta o movimento em cerca de 98% das vezes, pode custar uma fração das concorrentes e levou US$ 50 mil na maior feira de ciências do mundo. Por enquanto é protótipo, mas é um protótipo que aponta o futuro.
E você, acredita que próteses controladas pelo cérebro como a Neuroflex podem democratizar o acesso de amputados a uma vida com mais autonomia? Conta aqui nos comentários se você confiaria numa tecnologia assim e o que acha que o Brasil precisa fazer para formar mais jovens cientistas como esses.
