Pesquisas indicam que o pastoreio controlado pode reduzir biomassa inflamável, favorecer espécies nativas e aumentar o armazenamento de carbono nos solos
O debate sobre o papel do gado nas mudanças climáticas ganhou novo fôlego na Califórnia, onde incêndios florestais recorrentes, emissões de metano, manejo de pastagens e políticas públicas se cruzam em um setor que movimentou quase US$ 13 bilhões em 2023.
Pressão ambiental e acusações diretas ao gado
Em janeiro passado, enquanto incêndios florestais atingiam amplas áreas da região de Los Angeles, a PETA enviou uma caixa de fósforos ao governador Gavin Newsom, acompanhada de uma carta assinada por Tracy Reiman, vice-presidente executiva da organização.
No texto, Reiman afirmou que o metano emitido pelo gado estaria acelerando o aquecimento global e criando condições para incêndios cada vez mais extremos, defendendo o fim dos subsídios públicos à carne e aos laticínios.
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A mensagem encerrava com uma provocação direta: “A escolha é sua. Leite de vaca ou Califórnia?”, frase que rapidamente circulou entre ambientalistas, produtores rurais e autoridades estaduais.

A centralidade econômica da pecuária no estado
A Califórnia abriga mais vacas leiteiras que o Wisconsin e lidera a produção de leite nos Estados Unidos, mantendo também posição de destaque na produção de carne bovina em escala nacional.
Embora seja reconhecido pela diversidade agrícola, o leite segue como principal produto do estado, com o gado ocupando cerca de um terço das terras californianas, apesar da queda no consumo de carne desde os anos 1970.
Em 2023, os setores de laticínios e carne somaram quase US$ 13 bilhões, valor que superou a bilheteria de Hollywood no mesmo período, reforçando o peso econômico do segmento.
Críticas históricas e a evolução do discurso ambiental
A desconfiança em relação ao gado antecede o debate climático atual e remonta aos anos 1970, quando organizações como o Sierra Club se opunham ao pastoreio em áreas protegidas da Serra Nevada.
Naquele período, as críticas se concentravam na erosão do solo, na poluição dos rios e na perda da flora nativa, temas que moldaram políticas de conservação por décadas.
Com o avanço da pauta climática, o foco migrou para as emissões de gases de efeito estufa, e o documentário Cowspiracy consolidou a imagem da vaca como símbolo das mudanças climáticas.
Metano: potência, duração e participação da pecuária
O metano é um gás de efeito estufa extremamente potente, capaz de reter cerca de 80 vezes mais calor que o CO₂ ao longo de vinte anos, apesar de permanecer menos tempo na atmosfera.
Segundo o economista agrícola Aaron Smith, aproximadamente metade das emissões de metano da Califórnia provém da pecuária, principalmente dos arrotos das vacas e da decomposição do esterco.
A ecologista de pastagens Lynn Huntsinger ressalta, porém, que quando as emissões são convertidas em equivalentes de CO₂, toda a agricultura responde por cerca de 8% das emissões do estado.
Pastagens como sistemas ecológicos complexos
As pastagens da Califórnia cobrem mais da metade do estado e evoluíram historicamente em conjunto com herbívoros e perturbações periódicas, formando ecossistemas distintos de regiões desmatadas recentemente.
Nessa perspectiva, o gado não atua automaticamente como vilão climático, mas como agente dentro de sistemas ecológicos profundamente alterados por décadas de manejo inadequado ou abandono.
A questão central, segundo pesquisadores, não seria apenas a quantidade de vacas, mas a ausência de pastoreio bem manejado nos locais adequados.
O uso do pastoreio como ferramenta ambiental
Huntsinger e outros pesquisadores utilizam o pastoreio para controlar espécies invasoras, proteger bacias hidrográficas e reduzir o risco de incêndios florestais em paisagens cada vez mais secas.
Segundo a ecologista, vacas, ovelhas e cabras, embora não nativas, podem ajudar a tornar as paisagens mais semelhantes àquelas com as quais a flora e a fauna evoluíram historicamente.
Quando manejadas adequadamente, essas práticas promovem biodiversidade e reduzem a probabilidade de incêndios começarem e se alastrarem, argumento que vem ganhando espaço no debate público.
A expansão das espécies invasoras nas pastagens
Nos últimos dois séculos, espécies invasoras como aveia-brava, cabeça-de-medusa, bromélia-de-cauda-longa e capim-de-cabra-barbado se espalharam pelos campos californianos, deslocando gramíneas nativas.
Essas plantas, originárias da Europa e da bacia do Mediterrâneo, crescem mais, desenvolvem raízes profundas e apresentam maior resistência à seca, ao fogo e ao pisoteio.
Como resultado, lagoas temporárias desapareceram, habitats de aves como a coruja-buraqueira encolheram e flores essenciais para polinizadores deixaram de existir.
Preferência alimentar do gado e efeitos ecológicos
Um aspecto pouco conhecido é que o gado prefere consumir essas espécies invasoras, comportamento ligado ao processo de domesticação ocorrido há cerca de 10.000 anos no Crescente Fértil. Estudos indicam que a retirada completa do pastoreio pode levar ao declínio de plantas polinizadas e dos insetos que dependem delas, alterando cadeias ecológicas locais.
Além disso, o pisoteio moderado do gado revolvem o solo, condição necessária para a germinação de algumas flores nativas, contribuindo para a diversidade vegetal.
Carbono no solo e redução de combustíveis inflamáveis
O pastoreio bem manejado pode estimular o crescimento das raízes das plantas, aumentando o carbono armazenado no solo e contribuindo para o sequestro de carbono. Ao mesmo tempo, a redução da biomassa seca diminui a carga de combustível disponível para incêndios, fator crítico em um estado sujeito a secas prolongadas.
Um estudo de 2022 estimou que o gado removeu aproximadamente 5,4 bilhões de quilos de biomassa inflamável das pastagens da Califórnia, reduzindo riscos.
Pecuária, urbanização e fragmentação territorial
Apesar desses potenciais benefícios, a pecuária extensiva enfrenta secas, aumento de custos e pressão do desenvolvimento urbano, levando produtores a reduzir rebanhos ou vender terras.
Em muitos casos, o resultado é a urbanização de áreas abertas, maior fragmentação do território e aumento do risco de incêndios florestais em zonas periurbanas.
Organizações como o California Rangeland Trust oferecem servidões de conservação para proteger terras e manter manejo responsável com criação de gado.
Incêndios florestais e emissões associadas
Reduzir incêndios florestais também significa reduzir emissões de gases de efeito estufa, já que, em 2020, esses eventos foram responsáveis por quase um quarto das emissões totais do estado.
Huntsinger defende que o pastoreio pode complementar queimadas controladas, que são difíceis de autorizar e executar, reduzindo a carga de combustível em até 50%.
Sem essas intervenções, paisagens historicamente manejadas tendem a se transformar em matagais densos e altamente inflamáveis, agravando o problema climático.
Metano, esterco e metas oficiais de redução
A Califórnia abriga cerca de 1,7 milhão de vacas leiteiras, que produzem aproximadamente 113 milhões de litros de esterco por dia, armazenados em tanques que concentram emissões.
Esses reservatórios respondem por quase um quarto das emissões de metano do estado, motivando a meta estabelecida em 2016 de reduzir essas emissões em 40% até 2030.
Em vez de impostos diretos, o estado adotou incentivos para converter o metano em combustível renovável por meio de digestores anaeróbicos.
Biometano, incentivos e controvérsias
O Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono oferece incentivos para capturar o metano e transformá-lo em biometano usado no transporte, reduzindo emissões líquidas.
Críticos temem que a política estimule modelos de agricultura intensiva, enquanto defensores apontam reduções reais em um contexto com poucas soluções rápidas disponiveis.
Até o momento, estudos não demonstram aumento deliberado da produção devido aos subsídios, embora o debate permaneça aberto entre especialistas.
Inovação científica e o microbioma ruminal
Mais complexa ainda é a redução do metano produzido pelos arrotos das vacas, foco de pesquisas sobre modificação do microbioma ruminal.
Equipes na Califórnia investigam soluções inspiradas em algas vermelhas e técnicas de edição genética para reduzir a produção de metano ao longo da vida produtiva do animal.
Os estudos ainda estão em fase experimental, mas indicam caminhos promissores para enfrentar um dos principais desafios climáticos da pecuária.
O impacto ambiental do gado depende de como, onde e por que a atividade é realizada, sem soluções universais ou imediatas para todos os contextos.
Eliminar o gado abruptamente pode aumentar incêndios, reduzir biodiversidade e acelerar o despovoamento rural, enquanto manter práticas intensivas sem mudanças também se mostra insustentavel.
Entre críticas históricas, inovação científica e manejo ecológico, o debate segue aberto, com contribuições acadêmicas associadas ao Rausser College of Natural Resources.

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