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Os oceanos contêm cerca de 4,5 bilhões de toneladas de urânio dissolvido, centenas de vezes mais que todas as reservas terrestres, e tecnologias já conseguem extrair o metal da água do mar, mas o alto custo ainda impede sua exploração em larga escala

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Escrito por Débora Araújo Publicado em 19/03/2026 às 14:41
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Os oceanos contêm 4,5 bilhões de toneladas de urânio dissolvido — tecnologia já consegue extrair, mas o custo ainda impede sua exploração em larga escala.
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Os oceanos contêm 4,5 bilhões de toneladas de urânio dissolvido — tecnologia já consegue extrair, mas o custo ainda impede sua exploração em larga escala.

Durante décadas, a humanidade buscou urânio em minas profundas, escavando toneladas de rocha para obter pequenas quantidades de combustível nuclear. Enquanto isso, uma quantidade muito maior desse mesmo elemento sempre esteve dissolvida em silêncio nos oceanos — invisível, diluída e aparentemente inacessível.

Hoje, sabe-se que os mares do planeta armazenam aproximadamente 4,5 bilhões de toneladas de urânio. Um volume tão grande que supera, por ordens de magnitude, todas as reservas terrestres conhecidas. Esse número transformou o fundo do oceano — e não apenas as minas — em um dos maiores potenciais reservatórios energéticos do planeta.

O que antes parecia impossível começou a se tornar tecnicamente viável. Pesquisadores já conseguem capturar urânio diretamente da água do mar. O único obstáculo que ainda separa essa tecnologia da exploração comercial em larga escala é o custo.

Quanto urânio existe nos oceanos e por que ele está lá

O urânio presente nos oceanos não está concentrado em depósitos visíveis ou estruturas geológicas como nas minas terrestres. Ele se encontra dissolvido na água do mar, distribuído de forma homogênea em praticamente todos os oceanos do planeta.

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A concentração média é extremamente baixa: cerca de 3,3 partes por bilhão (ppb). Em termos práticos, isso significa que em cada bilhão de partes de água do mar, apenas 3,3 correspondem a urânio. Essa diluição extrema é justamente o que torna sua extração um desafio tecnológico.

Esse urânio chega ao oceano por meio de processos naturais contínuos. A erosão de rochas continentais libera pequenas quantidades do elemento, que são transportadas por rios até o mar. Ao longo de milhões de anos, esse fluxo constante acumulou um estoque gigantesco dissolvido na água.

Diferente das reservas terrestres, que são finitas e localizadas, o urânio oceânico é constantemente renovado por esses processos geológicos. Isso significa que, em teoria, sua exploração poderia se tornar uma fonte praticamente sustentável em escala de tempo humana.

Por que esse volume supera todas as reservas terrestres

As reservas terrestres conhecidas de urânio giram em torno de 6 a 8 milhões de toneladas economicamente viáveis. Mesmo considerando recursos adicionais ainda não explorados, esse número continua limitado.

Quando comparado aos 4,5 bilhões de toneladas nos oceanos, a diferença é brutal. Estamos falando de uma quantidade centenas a milhares de vezes maior.

Esse contraste muda completamente a escala do problema energético. Enquanto as minas representam um recurso finito que depende de novas descobertas, o oceano funciona como um reservatório global praticamente inesgotável dentro das necessidades humanas atuais.

A tecnologia que consegue extrair urânio da água do mar

A ideia de extrair urânio do oceano não é nova. Experimentos começaram ainda na década de 1960, mas os resultados iniciais eram economicamente inviáveis. Foi apenas nas últimas duas décadas que avanços significativos tornaram o processo tecnicamente promissor.

O método mais eficiente desenvolvido até agora utiliza materiais adsorventes, geralmente polímeros com grupos químicos chamados amidoxima. Esses materiais têm afinidade seletiva pelo urânio dissolvido na água do mar.

Extração de urânio da água do mar

O funcionamento é relativamente simples. Os polímeros são transformados em fibras ou redes e submersos no oceano. À medida que a água circula, os íons de urânio se ligam quimicamente à superfície do material. Depois de um período de exposição, essas estruturas são recolhidas e o urânio é removido por processos químicos.

Instituições como o Pacific Northwest National Laboratory e o Oak Ridge National Laboratory lideraram grande parte desses avanços nos Estados Unidos. No Japão, programas conduzidos pela Agência de Energia Atômica também demonstraram a viabilidade do método em escala experimental.

Os resultados mais recentes mostram uma redução significativa no custo e aumento na eficiência de captura, aproximando a tecnologia de um possível uso comercial.

O principal obstáculo: o custo ainda é alto

Apesar dos avanços, o maior problema continua sendo econômico. Extrair urânio de minas terrestres custa, em média, entre US$ 50 e US$ 100 por quilo, dependendo da qualidade do minério e da localização. Já a extração a partir da água do mar ainda varia entre US$ 200 e US$ 600 por quilo.

Esse diferencial de custo impede que a tecnologia seja competitiva no cenário atual. Enquanto houver reservas terrestres disponíveis a preços mais baixos, a exploração oceânica continuará sendo uma alternativa futura, e não imediata.

No entanto, a tendência histórica mostra uma queda constante nos custos à medida que a tecnologia evolui. Se essa trajetória continuar, o ponto de equilíbrio pode ser atingido nas próximas décadas.

Por que o urânio do oceano pode sustentar a energia por milênios

A relevância desse recurso vai além do volume. Ela está ligada ao papel do urânio na matriz energética global. O urânio é o combustível principal de reatores nucleares, que geram energia com baixas emissões de carbono. Em um cenário de transição energética, onde a demanda por fontes limpas cresce rapidamente, a disponibilidade de combustível se torna um fator estratégico.

Se apenas uma fração do urânio oceânico fosse economicamente recuperável, já seria suficiente para abastecer a demanda global por energia nuclear por centenas ou até milhares de anos, especialmente com o uso de tecnologias avançadas como reatores reprodutores (breeder reactors), que utilizam o combustível de forma muito mais eficiente.

O impacto estratégico dessa descoberta

A existência de um recurso dessa magnitude altera a dinâmica geopolítica da energia. Atualmente, a produção de urânio está concentrada em poucos países, como Cazaquistão, Canadá e Austrália. Isso cria dependências estratégicas e vulnerabilidades no fornecimento.

O urânio oceânico, por outro lado, está distribuído globalmente. Qualquer país com acesso ao mar poderia, em teoria, desenvolver sua própria capacidade de extração, reduzindo dependências externas. Isso transforma o oceano em uma espécie de reserva energética global compartilhada — mas ainda inacessível economicamente.

Por que a exploração ainda não começou em escala industrial

Mesmo com a tecnologia disponível, existem desafios além do custo. A logística de instalação e manutenção de estruturas no oceano, a durabilidade dos materiais adsorventes e o impacto ambiental da operação ainda precisam ser melhor compreendidos.

Além disso, a indústria nuclear como um todo enfrenta desafios relacionados à aceitação pública, regulamentação e custos de construção de usinas.

Esses fatores fazem com que o avanço da extração de urânio marinho dependa não apenas de tecnologia, mas de mudanças mais amplas no setor energético.

Um recurso gigantesco que ainda está fora do alcance econômico

O paradoxo é evidente: o planeta possui um dos maiores reservatórios de combustível energético já identificados, mas ele permanece praticamente intocado. O urânio está lá, dissolvido em todos os oceanos, em quantidades que superam qualquer mina já descoberta. A tecnologia para capturá-lo existe. O conhecimento científico já foi desenvolvido.

O único fator que impede sua exploração em larga escala é econômico. Se esse cenário mudar — seja por avanço tecnológico, aumento no preço do urânio ou mudanças na matriz energética global — os oceanos podem deixar de ser apenas uma fronteira científica e se tornar uma das principais fontes de energia do futuro.

Até lá, bilhões de toneladas de urânio continuam invisíveis, dissolvidas em silêncio nas águas do planeta, esperando que a tecnologia alcance o ponto em que finalmente valha a pena extraí-las.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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